Olavo de Carvalho e a Formação da Personalidade
- Thiarles Sosi
- 18 de set. de 2021
- 10 min de leitura
Atualizado: 25 de jan. de 2022
Olavo de Carvalho e a Formação da Personalidade

A vida intelectual é uma incógnita por si mesma, pois cada um chamado a esta vocação tem de reconstruí-la sozinho ao longo de toda a sua vida. Isto demanda tempo, paciência, investimento humano, conhecimento, compreensão de si e da realidade ao redor. Os estudos de ordem formativa e informativa serão inúteis se estes não forem incorporados internamente no espírito do homem intelectual. Usando uma expressão que o próprio Olavo de Carvalho utiliza; “hormonizar a sua inteligência”, é isto o que Olavo fez e faz com os seus alunos, este é o objetivo principal do seu Curso On line de Filosofia.
Olavo pode ser comparado realmente como uma dose de hormônio da inteligência na mente das pessoas que foram atrofiadas pelo tempo, pela pressa, pelo baixo investimento humano, fraco conhecimento formado, uma abominável falta de conhecimento de si mesmo e de sua realidade. Olavo começa o seu trabalho de hormonização lançando as primeiras doses que são a realidade nua e crua do mundo em que aquela pessoa vive, ela se vê então impelida a perceber o que antes era incapaz. Ele em seguida mostra que aquilo que ela não percebia de maneira alguma, era o que a tornava cega (eu diria em todos os sentidos mesmo, até fisicamente) e incapaz de compreender. Seria isto parte do Conhecimento por Presença? Não tenho o domínio deste aspecto de sua Filosofia. A capacidade de inteligência é normal nos seres humanos em geral, porém, ao longo da vida e sobretudo com o estilo de vida que a pessoa leva no seu caminho de desenvolvimento vai sendo cada vez mais atrofiada, e sabemos bem o que seja atrofia; a falta de verdadeiro exercício em qualquer parte constituinte do ser humano provoca a perda de sua capacidade ou o seu comprometimento, debilidade. E é isto o que Olavo faz como primeiro processo, ele assusta com o peso da realidade e dá a injeção de ‘hormônio da inteligência’, então ensina o aluno a buscar as suas capacidades que antes não exercitava, sobretudo a análise e a compreensão simbólica da realidade. Não se trata de uma análise puramente crítica do tipo acadêmica, pois o que Olavo ensina é exatamente o contrário do que é ensinado nos ensinos superiores do Brasil, e doravante, contudo, será injetado e exercitado no aluno o verdadeiro espírito acadêmico superior. Uma academia do tipo quase mítica platônica e aristotélica, assim é o trabalho de Olavo de Carvalho, é a transmissão total e irrevogável de toda uma personalidade superior sobre alunos deficientes dela mesma.
Este grandioso trabalho que ele chama de “Restauração da Alta Cultura”, - e para compreender o que seja alta cultura segundo o próprio Olavo, indico o seu artigo “O Orgulho do Fracasso” publicado no Diário do Comércio que pode ser encontrado neste endereço: https://olavodecarvalho.org/o-orgulho-do-fracasso/ - tem como base inicial a formação da personalidade do candidato à vida intelectual, sem uma personalidade, a própria do sujeito, não é possível ser realmente inteligente, não é possível desenvolver algo a mais para toda a sociedade.
“Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia e as instituições são apenas o suporte, local e temporário, de que a nação se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir.
Mas, se esses elementos podem servir à humanidade, é porque serviram eminentemente ao povo que os criou; e lhe serviram porque não traduziam somente suas preferências e idiossincrasias, e sim uma adaptação feliz à ordem do real. A essa adaptação chamamos “veracidade” — um valor supralocal e transportável por excelência. As criações de um povo podem servir a outros povos porque elas trazem em si uma veracidade, uma compreensão da realidade — sobretudo da realidade humana –que vale para além de toda condição histórica e étnica determinada.
Por isso esses elementos, os mais distantes de todo interesse econômico, são as únicas garantias do êxito no campo material e prático. Todo povo se esforça para dominar o ambiente material. Se só alguns alcançam o sucesso, a diferença, como demonstrou Thomas Sowell em Conquests and Cultures, reside principalmente no “capital cultural”, na capacidade intelectual acumulada que a mera luta pela vida não dá, que só se desenvolve na prática da língua, da religião e da alta cultura.
Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.”
Se é assim para a nação como um todo, é porque vale mais ainda para o indivíduo concreto, já que faz parte da filosofia de Olavo de Carvalho que nações não são agentes, mas indivíduos e grupos específicos. Portanto a Alta Cultura significa que é o indivíduo com uma cultura superior, universal, que é responsável por transmitir tudo de si para a sua nação e consequentemente para a humanidade. Foi assim que a humanidade produziu o que produziu. Todas as grandes descobertas foram individuais e no máximo por poucos indivíduos trabalhando intensamente juntos por descobertas, não foram povos inteiros e nem grupos grandes como ele ensina e como também ensinou Murray Rothbard. Quando digo que o indivíduo com alta cultura transmite tudo de si, é tudo mesmo, e tudo aqui significa a sua pessoa, a sua personalidade, apenas assim o conhecimento é transmitido. Platão não ensinou uma disciplina acadêmica, ele ensinou ele mesmo, e ele aprendeu de Sócrates, Sócrates não ensinou uma disciplina, ensinou ele mesmo, a sua pessoa e o seu modo de aprender, se tivesse apenas ensinado uma disciplina acadêmica com certeza seria esquecido e superado, e Platão não seria o Platão, seria um grego comum de sua época e cuja memória ficaria restrita à sua época. Aristóteles se tornou Aristóteles por ter absorvido Platão, absorvido e compreendido… e se pensarmos bem, veremos que foi assim que Jesus também o fez, ele não ensinou apenas disciplinas, ensinou a Sua Pessoa. Estes dias eu fiquei pensando sobre algo que me chamou a atenção por muito tempo; era o fato de que Jesus disse que ninguém entre os nascidos de mulher era maior do que João Batista, e que João Batista era a Voz que gritava no deserto aplainando os caminhos do Senhor. Como João Batista fez isto? Os relatos sobre João Batista são tão breves nas Sagradas Escrituras que para um leigo incapaz de enxergar o óbvio acharia absurdo as palavras de Jesus. Mas Jesus sendo Deus sabia o impacto que os ensinamentos de João Batista tiveram, este não escreveu livros, nem tratados, nem cursos e nem nada, mas transmitiu a sua personalidade por inteira, a sua inteligência profética por inteira para todo aquele povo, e isto aplainou, ou seja, desenvolveu a inteligência daquele povo para que percebesse a sua realidade, e percebendo-a, conseguissem enxergar que aquele que haveria de vir depois de João Batista era o Senhor, o Messias, Jesus Cristo. Mas veja; com todo o trabalho de Sócrates, ele conseguiu gerar um, Platão, no entanto havia uma multidão de admiradores. Com todo o trabalho de Platão, ele conseguiu gerar Aristóteles, e com todo o trabalho de Aristóteles, este só conseguiu alguém a sua altura muitos séculos depois, São Tomás de Aquino, mas este não poderia ser considerado discípulo, pois apenas um pedaço de Aristóteles foi transmitido, contudo Santo Tomás de Aquino foi o maior dos aristotélicos. João Batista conseguiu alguns discípulos para Cristo, e algumas milhares de pessoas acompanharam a Cristo, ele mesmo disse que era preciso que ele se apagasse para que outro subisse. E Jesus? Conseguiu reunir 12 discípulos que o absorveram e o transmitiram para as próximas gerações de cristãos, os evangelhos são apenas uma parte disto, os apóstolos são as Doze Colunas da Igreja, eles são representados nos pilares que muitas igrejas antigas possuem. Por causa disso, a fé cristã, assim como a filosofia grega, é transmitida não somente pela Bíblia, ou pela Letra Superior, mas pela infusão da personalidade (santa) sobre os indivíduos, e é neste sentido que a Igreja sempre seguiu colocando santos sobre o altar, pois para cada geração faz-se necessário novos mestres para novos discípulos e não apenas a letra da lei, talvez seja isto o que São Paulo queria dizer quando a fé na Lei é morta, mas a fé em Jesus é viva, e “Cristo vive em mim”, pois a letra não salva, ou seja, a letra não infunde a personalidade santa que é a pura transmissão de Deus em si mesmo à criatura. Se é assim para a Igreja, é também para a nação; há a necessidade de homens que sejam verdadeiros mestres e não professores de disciplinas para transmitir a si mesmos para os seus discípulos, faz-se necessários homens que absorvam tudo de seus mestres para que eles mesmos sejam os mestres de amanhã, do contrário, será um prejuízo irremediável para a inteligência não só daquele indivíduo, mas de toda a nação, da Igreja, da humanidade, e porquê não, do Universo, sim, do Universo, pois este não é inteligente, é inteligível, e é o homem que reconhece a inteligência de sua existência. A consciência e a busca disto é a Alta Cultura, é a vida intelectual. E felizmente, para os nossos dias alienantes, há um Olavo de Carvalho para orientar uma Alta Cultura no Brasil.
O trabalho executado por Olavo de Carvalho no Curso Online de Filosofia é, segundo ele mesmo, como que “um atirar as redes” sobre este imenso país tupiniquim e nele resgatar aqueles que possuindo vocação para a vida intelectual estariam fadados ao fracasso típico ao qual foram submetidos quase todos as grandes mentes do país.
O Curso Online de Filosofia tem como objetivo formar intelectuais, uma nova classe intelectual, capazes de dar soluções para o Brasil, ou melhor, dar soluções a um imenso problema chamado Brasil. Neste ínterim, surgem aqueles que sem vocação, entram e saem como cometas itinerantes sem um sistema solar pelo qual orbitar seguramente. Tem como objetivo também formar filósofos, no sentido clássico, original, uma Academia de Platão adaptada aos tempos modernos pelas tecnologias de informação. O aluno deverá ter total sinceridade e honestidade, pois dará tudo de si mesmo para ser um intelectual autêntico. Esta sinceridade chamada de Honestidade Intelectual implica em dizer a verdade para si e sempre como quem está diante do julgamento do Tribunal Divino, ou como preferir, A Consciência da Imortalidade.
A formação de uma personalidade intelectual é o objetivo principal deste trabalho de educação no sentido estrito do termo, ex-ducare, não por acaso a palavra ducare e/ou ducere tem a mesma raiz ou origem da palavra dux, duque, isto é, aquele que conduz. Assim como o duque guia o exército para a batalha, o educador, uma redundância do termo, conduz para fora o discípulo, isto é, para fora de sua caixa de ignorância, por definição, aquilo da qual desconhecemos provém de fora de nós mesmos, pois ignoramos o que está fora, observamos o que está dentro, ou seja, do nosso círculo de interesse muitas vezes mesquinho. É saindo de si mesmo, o discípulo, compreende a própria caixa e enche-a, senão a alarga, e torna-a maior e valiosa, é o famoso Baú de Tesouros do Mestre da Lei de que falava Jesus. Ex-ducare, conduzir para fora é o trabalho de Olavo de Carvalho para com os seus alunos.
É bom notar que a formação de uma personalidade intelectual está dentro de um outro escopo filosófico olaviano que compreende a Teoria das 12 Camadas da Personalidade. Esta teoria posta que a personalidade humana se desenvolve mais ou menos como círculos maiores que abarcam as menores. A descrição minuciosa de como se dá o desenvolvimento das camadas e como se passa de uma para outra exigiria um outro estudo ou mesmo ensaio mais complexo, pois é muito rica e vale apena ser levada a cabo, mas, detêmo-nos na Nona Camada, esta compreende a Camada Intelectual: O indivíduo que compreende o seu eu e que não se basta, quer compreender os problemas humanos, não quer se interessar para ser inteligente, quer compreender porque aquele problema afeta o seu eu, ou seja, não estamos lidando com alguém cujo sofrimento seja algo unicamente próprio, mas algo que é sofrimento humano, uma necessidade humana, ele deseja conhecer mesmo que não possa resolver, ele percebe aqui que o homem não é apenas um animal e possui uma alma que deseja a verdade e sofre quando não a possui. A Camada da Personalidade Intelectual é a do homem que buscando lidar com os problemas reais humanos que não deixam de ser seus também, busca na medida que suas forças e conhecimento permitem; solucionar ou pelo menos aliviar, por isto ele se dedica o tempo necessário, levando as questões dentro de si e investigando tudo o que colabora ou pode colaborar para uma resposta mínima satisfatória. Ele não se contenta com o mínimo, mas as vezes o remédio paliativo é bem vindo em tempos de crise, é daí que ele se preocupa com as letras, com os estudos, com as realidades da cultura superior, com a língua e a religião, pois tudo isto se tornam em ferramentas eficientes para a sua busca íntima pela verdade, o que se define por Amor à Verdade. A busca de resposta torna-se numa aventura tanto quanto uma viagem cujo destino não se sabe qual é, mas que é ardentemente desejada. Desejada não por motivos egoístas, não por um interesse financeiro ou de recompensa material imediata, é o desejo de conhecer porque o conhecimento sobre aquilo significa um alívio a um sofrimento contínuo de sua realidade como espécie, em suma, Amor ao Próximo.
Gratidão pelo conhecimento recebido, esmiuçar a dúvida, a busca pela unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa é no final de contas o desenvolvimento da personalidade humana, é a síntese do pensamento filosófico genuíno, pois é a realização do desejo humano pela verdade que é por si mesma um bem. A sinceridade neste querer é que é a parte mais difícil, ferramentas de como buscar esta mesma sinceridade também é outra dificuldade, diria, transcendental, este é o trabalho do filósofo, precisamente, ensinar como fazer na esperança de que seus discípulos aprendam mais rápido do que ele mesmo aprendeu. É um trabalho de formação humana.
Nota: Embora tenha escrito este artigo há meses atrás, como meio de divulgar e dar o meu testemunho pessoal pelo conhecimento do professor e filósofo Olavo de Carvalho, torna-se hoje, a partir do dia 25 de Janeiro, data em que recebi a notícia da partida à Vida Eterna do professor, uma simples homenagem de gratidão, e um reconhecimento de responsabilidade total por ser um herdeiro de seu trabalho: Estou extremamente triste e de luto por esse dia, me vem muitos sentimentos de responsabilidade por fazer parte desse projeto, e de alguma maneira me senti obrigado a agir com maior maturidade intelectual, que é o que está por trás de toda e qualquer crítica. Por outro lado, me sinto alegre por haver no Brasil uma figura universal como Olavo da qual eu possa chamar de mestre. Que Deus recompense por sua obra que não acabou, mas continuará por meio de nós e mediante a sinceridade, lhe aumentará a recompensa: Resgatar o Brasil, Resgatar a Fé e a Civilização, tornou-se hoje numa coisa só. Descanse em Paz, oremos e confiemos, o Justo vive pela fé e pelas obras que o segue.
Eu ouvi uma voz do céu, que dizia: "Escreve: Felizes os mortos que doravante morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansem dos seus trabalhos, pois as suas obras os seguem". Apocalipse 14, 13.



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