O Sistema Russo-Chinês de hegemonia global e a Nova Rota da Seda
- Thiarles Sosi
- 25 de out. de 2020
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Quando o filósofo Olavo de Carvalho nomeou de Bloco Russo-Chinês (também chamado de Eurasiano) a estratégia de domínio hegemônico mundial por parte da Rússia, o fez de maneira certeira, ainda que diante dos olhos de muitos debatedores e/ou intelectuais de baixa envergadura tenham-no criticado por ter classificado a isso como uma das três forças de ação política de domínio mundial juntando-se a este Bloco Russo-Chinês, o Califado Universal Islâmico e o Globalismo Ocidental.
O Sistema Russo-Chinês de hegemonia mundial não é uma novidade soviética, nem algo criado pelo senhor Putin, mas algo que a Rússia atribuiu-se a si mesma desde o século XVI. No mesmo período em que Portugal e Espanha alimentavam o sonho de criar ambos impérios católicos universais (concorrentes entre si), a Rússia alimentava o desejo de ser a nova roma, herdeira do Império Bizantino que ruíra um século antes, e como tal, por isso mesmo expandiu-se na conquista da Sibéria, uma região que por si só já era maior do que o Brasil, mas uma área muito fria e inóspita para a vida humana, e esta conquista se dando durante o mesmo período em que a América era conquistada pelos europeus. A Rússia saiu em sua conquista por quase todo o Norte da Eurásia e depois em direção às estepes no centro da Ásia, lar dos nômades cazaques, turcos, mongóis, e outros. A meta desta expansão não tinha fim, exceto por uma grande ambição, se não confessada, mas inferida pela história: Dominar toda a Eurásia, e Eurásia é Europa, Ásia e Oriente Médio, ou seja, basicamente todo o Velho Mundo, exceto a África que não interessava ao Príncipe das Nações pelo fato de se tratar de um continente ensolarado estritamente ao contrário do grande Príncipe do Norte vindo das tundras e florestas congeladas cujas noites duram bem mais que o dia.
A Rússia se tornou na Nova Roma do Oriente, isto é, na substituta de Bizâncio, o seu imperador passou a ser chamado a partir de 1546 de Csar, ou seja, César Augusto. As implicações em se autodenominar Nova Roma ou Terceira Roma, são muitas, a primeira delas é que com base em quê a Rússia atribui-se a si mesma tal herança e tal direito? Uma vez que tenha a justificativa moral e espiritual para agir de determinada maneira, se torna fácil se esquivar de quaisquer ações tomadas pela Cabeça do Império. é importante notarmos que a Bíblia usa para isso a imagem das Diademas, isto é, coroas, sobre as cabeças, essas cabeças são, ao meu ver, capitais (capital significa literalmente cabeça ou o mesmo que cabeça). A Cabeça do Reino é a pessoa do Rei ou Imperador, o Estado e ele se confundem como um só ser, e como tal, está acima dos julgamentos dos seus subalternos. Esta é a imagem que os imperadores de cunho romano tem de si mesmos; eles se veem como acima de todos, abaixo de Deus, e como incumbidos da missão de serem embaixadores de Deus na terra, recebem alguma graça sobrenatural específica para agirem em seu nome, por essa razão eles estão acima de qualquer julgamento por outro homem que esteja sobre a sua jurisdição, seria o mesmo que pedir para o bandido julgar o juiz, é simplesmente inverossímil e cômico. Este é o raciocínio de fundo na mentalidade imperial romana que foi imbuída nos estados de origem romana ao longo de 2 mil anos. O imperador como embaixador de Deus, de Sua Majestade, é
livre para agir e julgar, mas não pode ser nem preso, nem condenado, ele foi dotado de uma infalibilidade imperial, algo que em nada tem haver com o dogma cristão, já que Davi foi ungido por Deus como Rei de Israel, mas quando este pecou contra Deus e contra o próximo, Deus mandou um profeta para acusá-lo e dizer a verdade de sua injustiça na sua cara.
A Igreja Católica acredita que cada povo possui um anjo da guarda, e estes assistem com particular atenção às autoridades responsáveis por este povo. Neste sentido é possível dizer que Deus confere uma graça especial para o governante, mas não uma infalibilidade dogmática, isto é improvável em se tratando de ações temporais. Ao contrário, Jesus Cristo com a sua autoridade conferiu o poder de ligar as Chaves do Céu e da Terra em primeiro lugar para uma pessoa; Pedro, e em segundo para os Apóstolos junto a Pedro, isto hoje seria o Papa com o colégio de bispos do mundo inteiro, apenas dessa maneira e, em questões de Fé e Moral, ou seja, no que concerne ao tema essencial da fé e da vida cristã é que há esta infalibilidade, que é onde Deus age com particular graça. Não há tal assistência para a tomada de decisões temporais, políticas, exceto se o governante que tem tal poder recorre à Divina Providência ou a Divina Providência socorre com a sua Sabedoria, mas aí já é outra coisa.
Quando houve a ruptura do Estado e Igreja, o Estado continuou atribuindo-se a si mesmo aquele papel de intermediador da verdade revelada por Deus, por isso mesmo investido de uma autoridade inclusive de ordem moral e ética sobre a vida das pessoas, e a nada nem ninguém prestando contas de suas más ações. Claro, que este Deus passou a ser chamado de História. O julgamento de possíveis más ações dos Estados seriam delegados ao futuro longínquo e incerto do deus-histórico que julgaria os feitos. O comunismo não é mais do que uma das expressões desta mentalidade que abstrai o Deus concreto para um deus abstrato na história e que confere liberdade e poder total ao grupo que deseja tomar o poder para realizar uma pretensa "justiça histórica".
O fim do Império Russo para o começo da União Soviética não mudou tal mentalidade, antes reforçou. A ideia de ser a legítima herdeira de Roma e como tal potencialmente merecedora de governar as nações, tornava nula qualquer julgamento sobre ela por ela estar realizando ou tentando executar justamente esta missão. Quando o império ruiu e deu lugar à União Soviética, o que houve foi apenas a mudança de seguimentos, mas a Rússia continuou atribuindo-se a missão de governar o mundo por meio do comunismo. No livro de Alexandre Dugin, um dos principais ideólogos russos recentes, chamado "A Guerra dos Continentes" explica que o comunismo esteve ao serviço da nação russa e a Rússia a serviço do comunismo, ou seja, as coisas estavam de maneira interligadas por meio de suas instituições¹, mas acrescento eu também de maneira espiritual por uma profunda adaptação de uma Rússia ao longo do tempo de construir o seu intuito imperial de reunir o mundo em si como uma nova roma para o bem ou para o mal. Por esta razão que, creio eu, Nossa Senhora de Fátima disse em Fátima que "Os Erros da Rússia se espalhariam pelo mundo", pois não se trata apenas do comunismo, o comunismo foi apenas uma das últimas facetas, mas o erro começa desde antes, muito antes, começa com a ideia de translatio imperii de Terceira Roma para Moscou.
A Rússia viu a sua oportunidade ideal de dominar o mundo e realizar aquele domínio triunfal sobre as nações com o movimento comunista. Todo este movimento esteve interligado em maior ou menor grau, mas sempre submetido e quase sempre compromissado em fortalecer os laços russos perante o mundo. Para a Rússia, qualquer ideologia serve como pretexto para fortalecer-se a si mesma em seu intuito imperial, por isso que é sempre difícil investigar os ganhos e perdas da tomada de decisões russas. Eles aceitam o paradoxal, estratégias múltiplas de ação em várias frentes, colocando até inimigos em luta contra um ao outro, mas com benefício a longo prazo, isto é, fortalecendo as ações diplomáticas. Nada do que a diplomacia russa faça não visa este caminho percorrido secularmente de aumento da hegemonia.
Uma ideologia que está no cerne das ações russas atualmente, o Eurasianismo ou Eurasismo, não é mais do que a confluência destes interesses, a formação ideológica de fato sobre algo que sempre foi o sonho russo; O Eurasianismo é a ideologia que coloca a Rússia no Centro do Mundo, no seu coração, devolvendo o protagonismo "roubado" do Ocidente e particularmente dos EUA para a Eurásia, tendo a Europa como periferia, a Ásia e o Oriente Médio como quintais estratégicos, mas o grande norte eurasiano sendo o coração definitivo da civilização humana, isto mesmo, nos desertos gelados do extremo norte do planeta. O Eurasianismo se diferencia muito de sua versão pré-histórica que é a Terceira Roma pelo fato de que ela não mais representa uma religião, a ortoxia cristã russa, nem uma cosmovisão estritamente eslava, mas é a mistura de tudo e de todos, num caldeirão de ideias, formas, ideologias, religiões, tudo se abarca nela. As religiões todas podem se misturar nela, desde que submetidas à religião ortodoxa russa, mas esta por sua vez submetida ao Estado Russo e Eurasiano, este por sua vez, governado pela classe de iluminados por uma verdade que está acima de tudo e de todos, por uma infalibilidade do destino russo perante às nações. O eurasianismo põe em estado de supremacia absolutista o poder político e religioso ao serviço de um esquema engenhoso de poder.
Quais seriam as atuais tomadas de decisões do eurasianismo, o que ele objetiva hoje?
Entre estas ações, está a firme decisão de derrubar a hegemonia dos EUA, tomar o seu lugar, isolá-lo em todos os sentidos, "A Ilha do Atlântico Norte". Mas a Rússia sabe que não pode derrubar este gigante apenas com a força das armas, pois seria apenas destruição, ela precisaria de poder econômico para realizar isto, coisa que ela não conseguiu obter por ter adotado o regime socialista, ou seja, a adoção de um regime fracassado em si mesmo, pois só vive da destruição econômica incessante foi um erro grotesco de estratégia, por isso mesmo que os "Erros da Rússia" são tão perigosos, pois aqueles que eram sedentos de poder não temiam as consequências em dar errado. De qualquer forma, a Rússia não está sozinha, conseguiu um aliado para realizar esta hegemonia eurasiana, de certa forma conseguiu abarcar este outro gigante dentro de si e do seu futuro imperial romano; a China.
A China tem um propósito dentro do Eurasianismo; ser o grande Cavalo de Troia, e ela se tornou, no grande cavalo de troia para submeter o Ocidente. Para compreender isto, teríamos que voltar no tempo, no século XIX da China Imperial e compreender a grande mancha histórica que a reputação chinesa fora manchada pelas Guerras do Ópio que os ingleses submeteram os sínicos. Com esta humilhação histórica, a China não quer sofrer mais nenhuma vez, e para isso se desenvolver, buscando o tempo perdido e ultrapassando o máximo do Ocidente em tecnologia, indústria, política, tudo! Então a China investe pesado em hardpower e softpower no mundo todo, e sobretudo por meio dos seus produtos para conquistar o mundo economicamente, pois a China se tornou no grande pivô da economia mundial, se ela cresce, o mundo cresce, se ela quebra, o mundo quebra, se tornou uma dependência apenas menor que a dos EUA, e já reduzindo.
A China pretende se tornar numa superpotência na economia e em outras áreas, porém, tem como justificativa a humilhação sofrida no passado por uma potência superior econômica e militarmente. A grande diferença da China daquele tempo para a atual, é que a atual se crê portadora de um novo modelo para o mundo, modelo este criado pelo Ocidente, e precisamente para a ruína das nações, isto é, o comunismo. O comunismo em tese é anárquico, mas na China ganhou conotações nacionalistas, e esta conotação significa que para sobreviver a China se dispôs da arma mais poderosa contra as nações inimigas, o comunismo.
Se a China possui o dinheiro, a Rússia têm as armas, ambas cooperam por uma complementaridade que de certa maneira fazem frente aos Estados Unidos. Ambos países são governados com um forte poder centralizado e com grandes forças de inteligência, e com foco na estratégia ideológica, por essa razão que ambos possuem grandes vantagens em uma cooperação de ação a longo prazo.
E por falarmos em longo prazo, ambos países tomaram como uma das estratégias de isolamento do Estados Unidos e de toda a América, e que possui esta nuance de economia e poder militar estratégico é a Nova Rota da Seda. Este ambicioso projeto pode ser chamado de O Grande Cavalo de Troia Eurasiano, pois é disso que ele se trata. Lembra de quando falamos que o eurasianismo quer colocar a hegemonia russa no Velho Mundo e isolando os EUA? Pois o projeto da Nova Rota da Seda tem este papel de recolocar as peças de um tabuleiro de de xadrez chamado Terra e reequilibrar o jogo de poder segundo as conveniências de ambos os países. Sendo o grande projeto de ordem política e econômica, que envolverá dezenas, senão centenas de nações, a China está lançando como a sua grande aposta da virada hegemônica, e a Rússia terá a vantagem de estar no meio, estabelecendo a relação entre o Extremo Oriente e a Europa vassalada.
Onde fica os EUA nisso tudo? Fica como na expressão de Dugin "A Ilha Gigante do Atlântico Norte". com a Nova Rota da Seda, todo o protagonismo se esvai dos EUA e vai parar nas mãos dos eurasianos. restará para os EUA o seu quintal infernal da América Latina recolonizada pelos próprios eurasianos por meio de novas estratégias de conflito de poder.
Mas qual o pretexto para se criar uma "nova rota da seda"? A Rota da Seda lembra o período áureo da China em que sendo uma superpotência respeitada, povos do mundo todo iam atrás de seus produtos. Com o surgimento do Islã e posteriormente a Era das Navegações, a Europa encontrou uma nova maneira de chegar à China, por meio dos mares, assim a Rota da Seda tornou-se obsoleta, e também a China, que era um império tradicional, decaiu para um segundo, terceiro grau de potência. Durante os últimos 5 séculos, os europeus procuraram abocanhar aquela nação que já há milênios tem uma população maior do que a da Europa e de qualquer país isoladamente do mundo; portugueses, holandeses, ingleses... a presença portuguesa se fez sentir até 1999 com a entrega de Macau, hoje uma das mais ricas cidades do mundo, e dos ingleses em 1997 com a devolução de Hong Kong, também um dos mais prósperos centros urbanos do mundo. Macau e Hong Kong ficam no litoral da província de Guangdong, a mais rica e próspera da China, a que concentra basicamente boa parte de seu poder produtivo e de seu progresso econômico. Assim a China se configura como um grande brasil com sua riqueza concentrada em uma única zona no sul e cuja rede se irradia para alguns centros importantes fora como Shanghai, Wuhan e Pequim. A Nova Rota da Seda procura sanar este problema e levar o progresso para toda a China, tornar toda a China no que é Guangdong, uma grande máquina humana de geração de mão de obra. Para isso, a Nova Rota da Seda precisará de uma rede monstruosa de ferrovias que interligue diferentes pontos, atravessando regiões montanhosas formidáveis e cortando vários países, enfim, um projeto continental.
E é aqui que quero chegar; o projeto eurasiano de supremacia russo-chinesa baseia-se numa doutrina da continentalidade versus o atlantismo, ou Terra (Continente) x Mar, por isso a Rússia e a China seriam representantes do continente (Eurásia) e como tal, possui uma inimizade natural contra a potência do mar ( a Nova Cartago). Esta teoria desenvolvida basicamente pelo Alexandre Dugin, coloca o grande conflito geopolítico mundial como sendo a disputa entre dois entes secretos históricos e metafísicos: A Terra que é o continente, o coletivismo, contra o Mar que é a Ilha, o individualismo. Ambos seriam representados pela Rússia (Terra) contra os Estados Unidos (Mar). A potência marítima possui seu poder sustentado pelos mares, é o caso dos EUA com a sua marinha presente no mundo todo. Já o poder terrestre seria desenvolvido na terra, para o continente de sua ação, com o resto para "além mar" não importando, este seria o caso da Rússia. Por isso que a Nova Rota da Seda é uma estratégia de isolamento da potência marítima (EUA) ao passo que de uma profunda integração do continente (eurasiano) pelo aspecto de um poder político e econômico realizado pela Rússia e pela China respectivamente.
Este modelo de superpotência eurasiana se inspira no universalismo romano que pretender-se-ia dominar o mundo conhecido (Velho Mundo), a partir do seu término em 476 d.C.; tentativas mal sucedidas de recriação do império foram sendo realizadas ao longo da história, o que é a Teoria de Olavo de Carvalho sobre o Império, e também colocado muito antes sobre um outro aspecto por padre Antônio Vieira em História do Futuro sobre os 10 Dedos de Barro do Quarto Império (Romano). Os dedos de barro significam justamente isso; a fraqueza de se reconstituir o Império Romano ao longo da história por seus filhos (Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Bizâncio, Rússia, Sacro Império, etc. Não seria isto a raiz dos "Erros da Rússia"? Querer reconstituir o 'irreconstituível'? E como tal modelo de superpotência, o fracasso eminente é certo, pois o modelo de Império sugerido por Roma é o do sincretismo religioso e multicultural, unindo vários diabos num inferno só. Mas se não é possível reconstituir este império, é possível tentá-lo, e com isto causar grande dor e sofrimento para todos os envolvidos, neste caso, simplesmente o mundo inteiro!
O Sistema Russo-chinês de hegemonia global não é tão novo e nem é abarcado por uma ideologia, mas se trata de uma cosmovisão já trabalhada intimamente no desenvolvimento da própria Rússia enquanto nação herdeira das tradições bizantinas e romanas de um imperialismo multiculturalista e pseudomessiânico.



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