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Voltando?

Após um ano de reflexão e afastamento da política do dia e das preocupações desgastantes do nosso tempo, volto a este espaço potencialmente ateniense de boas discussões. Desta vez, volto a falar de política, mas de filosofia política; de geopolítica, mas internacional; de Grande Resete, mas analisando e denunciando os feitos e desfeitos desta estratégia global. A necessidade de análise sobre todos estes conceitos é uma necessidade da nossa sociedade atual para a compreendemos e a superarmos:


Dizem os grandes doutores que o homem é homem de seu tempo, e portanto, está fadado a se preocupar com os destinos que em sua geração aparenta seguir. Ele não deve, porém, abster-se de afastar-se sempre quando a aproximação com as questões do mundo signifiquem para ele o empobrecimento de sua integridade pessoal. Somos feitos de memórias, dizem outros, mas se a memória se dispersa ao imediato, ao trivial, nas preocupações mundanas em demasia, perde-se por enfraquecer a si própria. Que melhor maneira de se defender do mundo que não remoendo e revivendo as lembranças de sua vida, reconstituindo a memória do eu ao tempo presente? O homem que só configura nas preocupações do imediato, com medo do futuro e da sociedade e de seus impropérios designíos tolos, cheios de ilusão, rebaixa-se a um animal, que como diz José Ortega y Gasset: "vive desde o outro , traído e levado e tiranizado pelo outro", sempre alterado, perturbado, que sua vida é constante alteração pelo medo das coisas exteriores, roubando de si a capacidade de ensimesmar-se.


Portanto, só é legítimo se gastar em compreender o mundo de seu tempo para nele viver e agir, mas viver e agir a partir do seu interior, do seu íntimo, num diálogo constante consigo mesmo e com o transcendente, e com aqueles que fizeram este diálogo noutras gerações. Nunca é lícito se gastar a tal ponto de esfacelar-se em miudezas das preocupações diárias, e esta é a grande chaga que perturba o homem moderno que se avulta na política do dia. Mesmo os mais inteligentes e que argumentam a necessidade de se discutir a política esquecem isto e atomizam suas vidas com frequência; fazendo aquilo que seus próprios preceitos outrora negavam: se antes diziam que a culpa do mundo moderno é reduzir tudo a política, também eles reduziram sua luta a uma luta política, concentraram as suas forças à política. O que acontecerá se nela forem derrotados? Sócrates foi politicamente vencedor? Não. Platão o foi? Não. Aristóteles foi agraciado com os louros da vitória política por ter conceituado a política de seu tempo, de séculos anteriores e de como melhor seria? Não. Não é papel do homem de seu tempo ser vitorioso em seu tempo, é papel do homem de seu tempo perceber em seu tempo aquilo que os sábios antigos também refletiram em seus respectivos tempos e que trazem para nós, hoje, alguma visão mais esclarecida do porquê vivermos neste mundo. O combate primeiro é na integridade da própria história, para dar às outras gerações e a quem queira ouvir algo de valor de si que perdure não em seu tempo, mas além. Temos que ser homens de nosso tempo, mas não alterados pelo medo de nosso tempo, ensimesmados sim, voltando-nos, no entanto, ao além de si.

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