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Sicofanta brasiliensis


Imagem: Wix

Sicofanta brasiliensis

Por Thiarles Soares;


A grande desgraça brasileira é e sempre foi o jornalismo, desde que este tomou conta, como câncer metastático, de todos os órgãos da cultura e da política nacional, isto é, desde 1822. Obra do jornalismo, a Independência Brasileira foi um grito de morte contra a própria raiz da cultura nacional, alicerçada, como gregos e troianos admitem, pela tríplice Portugal, Índia Ocidental e África, ou se quisermos, pelo Império do Atlântico Sul1. A independência transformara o Brasil numa província funesta e filha espiritual de França Pós-Revolução Francesa, quer dizer, filho do jornalismo brutal e de camaradagem pelo qual constitui a França dos últimos duzentos anos2.


Com o passar dos anos, o poder do jornalismo comandou todas as revoluções que perpassaram cá e lá do Atlântico, minando as nações e transformando-lhes em fantoches de interesses falsamente republicanos.


No começo, a cultura brasileira chegou a ser moldada pelo jornalismo, porque este tinha seu espaldar direto com a alta cultura nacional. O jornalismo era a “ágora” das discussões políticas e culturais do país, criando ou dando vozes a uma maioria, quer real ou não; por certo, foi o poder do jornalismo, que deu a nossa independência, que criou a abolição da escravidão, que destituiu o imperador, que deu a república à minoria, que destruiu Canudos, que matou Getúlio Vargas, que mudou a capital para Brasília, que fez o regime militar, que fez a Constituição de 1988, que criou o PT, que elegeu o FHC, que elegeu Lula, que tirou a Dilma, que deu voz a Temer, que esfaqueou Bolsonaro, e depois o mandou para o limbo, e trouxe de volta o Lula, mais forte do que nunca3.


A Pandemia de Desinformação não foi o suficiente para nivelar para baixo o poder da imprensa no Brasil4, ao contrário, ela cresceu estrondosamente mais ainda, ganhando o status de “quarto poder da república” (para citar Paulo Henrique Amorim, que paradoxalmente a ensejava, um grande adepto do Lulopetismo).


De 1822 à 2022, o que mudou foi como a separação do joio e do trigo, e o jornalismo era o campo, o trigo da alta cultura foi escorraçado da imprensa, perdendo voz e liderança, queimado ao fogo, enquanto que o joio, isto é, os sicofantas, tomou posse do jornalismo em plenitude e (des)graça, tal como os mercenários de uma guerra que não lhes importa quem perde ou ganha, sabem fazer muito bem e mudar de lado, segundo a conveniência.

De fato, isto é culpa, a princípio, dos próprios intelectuais brasileiros, que admirados da França de Napoleão Bonaparte, e das consequências de seu império, seguiram o exemplo da ex-potência, rompendo com as raízes que o alicerçaram culturalmente, e mesmo zombando delas: todos sabem do caráter antilusitano da alta cultura brasileira, coisa totalmente ridícula, já que a língua foi tomada de empréstimo dos pais portugueses, já que não se conseguia abrir mão da língua mater5, abriu-se mão de sua estrutura, incorporando a língua francesa e sua riqueza literária à brasileira, transformando a língua portuguesa, no Brasil, que é uma língua de foco de significados muito rígidos, e exatos, em uma língua psicológica em que tudo é dito por analogia, mas nunca por exatidão: desgraça total! Disto resultou o problema grave que deu poder ao jornalismo brasileiro, transformando-o em pedestal para a alta cultura, em detrimento da alta cultura, isto porque o jornalismo usa de linguagem analógica cada vez mais distante do alvo, e apelando sempre mais para a emoção que as palavras causam. A partir de 1964, graças aos militares e aos anticomunistas, houve o definitivo divórcio entre a alta cultura e o jornalismo, o primeiro morreu de asfixia até o fim do século XX, e o segundo ocupou o seu lugar, sendo desejado mesmo por todas as mentes célebres que irão de escritores no começo, e terminarão como Fátima Bernardes, num sofá em que se convida blogueiros de youtube, para serem os emissários da nova inteligentsia nacional6.

Com isto, não condenemos os franceses, eles não sabem o que fazem; nem o que fizeram, mas como o Brasil é um país que gosta de imitar por imitar, mas não ser, acabou que absorvendo os vícios do Galo, mas sem suas virtudes para contrabalancearem com os vícios, e assim, tudo se exagerou. A língua, que ainda possuía o charme e a ordem francesa, tornou-se numa língua de manipulação psicológica, favorecendo a histeria coletiva, e todos hoje são instigados pela psicomorfologia, palavrinha odienta que criei e que significa: ensinamento com aparência de verdade psicológica, mas que não é, e porque se parece, todos creem e tomam decisões baseando-se nela, e que explica o fenômeno da proliferação dos coachs no Brasil; dos pastores coachs, do jornalismo coach, dos padres coachs, da religião coach, e do coachismo burguês que migrou para a internet.


Mas se nos voltarmos um pouquinho no tempo, para a acusação inicial deste ensaio, o Brasil em nada tinha a perder com a sua contínua incorporação à Portugal, e bastava, para o intrépido imperador, fustigar os revoltosos do Porto para o limbo, mas, em vez disso, preferiu ser um Napoleão Bonaparte, e conseguiu de fato ser um; conseguiu ser odiado e amado como foi aquele no país que ajudou a (a)fundar. O Brasil com os portugueses poderia ser hoje, sem que se cometesse alguns dos erros que Bolsonaro criou em seu governo, na terceira potência mundial, muito próxima com os EUA, em poder e influência, e com a China e Rússia, tornando-se, hoje, num contrabalanço de poder firme e intimidatório que estas potências têm hoje para destruir o mundo. O país possui intensa criatividade, é muito dinâmico e naturalmente acolhedor, simpático, de ótima intuição, que mesmo os mais pequenos estão naturalmente ricos, porém, sem a presença de uma cultura firme, baseada no que lhe fundou como país, e como civilização, isto é, sem uma religião católica baseada na vida mística, em vez de formular ou convencional, sem uma língua ensinada de modo hierárquico7, sem a valorização das idiossincrasias legítimas dos regionalismos, o país é uma colcha de retalhos criada pelo Estado, e, hoje, pela mídia, um país menos que medíocre, que será sempre uma possibilidade desperdiçada. E já acho que o Juízo Final esteja próximo, se não para a História da Humanidade, ao menos para este país de duzentos anos, e que se tornou numa macrocultura detestável de mesquinharia8.


Adquira o livro: Bicentenário da Independência, citado neste artigo, pelo seguinte endereço web: https://clubedeautores.com.br/livro/bicentenario-do-independencia


1Estudar as obras historiográficas de Charles Boxer.

2Para os interessados, ler a Obra de Balzac.

3Sem que com isto eu afirme ter sido bom ou não, pois depende da visão de cada um sobre esses fatos, só me refiro ao efeito do poder da mídia na história brasileira.

4A Pandemia de Desinformação está comentada exaustivamente em vários artigos e análises feitas durante a Pandemia de Covdi19, mostrando e denunciando o poder das elites que dominam a opinião pública mundial, que de mundial, só tem o nome e o alvo, já que provém de meia dúzia de poderes bem contáveis.

5Coisa que pra mim, não consigo entender por que, já que simplesmente se poderia absorver o tupi-guarani ou nheengatu, e transformá-la em língua de alta cultura.

6Cujos nomes não ouso citar, para não causar ofensas a ninguém.

7Isto é, com ensino dos gênios, indo para os menores, em vez do inverso que há hoje, em que se valoriza as publicações jornalísticas ao invés de autores clássicos, criando cisão entre os jovens e os antepassados intelectuais da nação.

8Para quem quiser saber mais dos efeitos da mídia brasileira ao longo da história, e como que o país se degringolou ao longo do tempo, indo de ruptura em ruptura, até a falência de sua identidade nacional, escrevi o livro em “homenagem” aos duzentos de independência do país, tentando apresentar o seu quadro atual: Bicentenário da Independência.

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