República Tatâmbica
- Thiarles Sosi
- 15 de nov. de 2022
- 12 min de leitura
"...Que ignorancia Constitucional? Como tão ridiculos sabichões podem alçar-se em Minos e Rhadamantes naquella desgraçada terrinha? Consolem-se, que a Mãe Natureza foi justa pelo menos; pois repartiu com todos igualmente a ignorancia e a fraqueza, a sandice e a vaidade. São felizes, porque todos se julgam talentaços, ainda que eu quizera apostar cem contra um, que todos são o que são - homens de quatro pés." José Bonifácio sobre a Elite Falante em sua época de exílio, Primeiro Império, Cartas Andradinas.
Diz um certo ditado já popular que brasileiro tem memória curta. Este é, talvez, o maior filosofema que alguém já lançou em terras brasilisensis sobre o Brasil. Outro ainda declarou: brasileiro é imediatista, pensa no agora, no presente, jamais pensa no passado e no futuro; é outra verdade revelada de Norte a Sul, Leste a Oeste. Mas quem ler os escritos de José Bonifácio, o patriarca da nossa, talvez, infortunada independência, verá que a crise que paira sobre o Brasil há duzentos anos ininterruptos é fruto unicamente dos tatambas que compõem a classe política do país, e daqueles que querem opinar sobre ele. Até hoje, nada mudou, e a classe política tanto dos que governam o Brasil, quanto dos que o opinam, continuam sendo o que eram no tempo do patriarca da independência: uma república de tatambas.
Estas duras palavras (de José Bonifácio) ressoam bem ontem como atroam melhor hoje, porque o imperativo brasileiro é a tal vaidade sabichona. Vivemos num país de histéricos que alucinam palavras como o índio medroso da caipora e do curupira. Brasileiro vive fugindo de saci-pererês há duzentos anos.
A crise provocada pelos tatambas ocorre da seguinte maneira: temos uma classe política liderada por partidos políticos e caciques eleitoreiros, que veem as eleições como um negócio, uma rifa, um bingo; quem conhece a rifa ou bingo sabe o quão barulhento são estes eventos; e depois, uma base de pequenos políticos que agem nos seus interesses, interesses pela sua classe de apoiadores, seja uma associação, sindicato, uma região, enfim; e há aqueles raríssimos que têm interesse de fazer a mudança no país numa ampla visão de futuro; têm pauta, têm projeto, mas dependem de todos aqueles caciques para conseguir realizar alguma coisa, medíocre, a maior parte destes bem (inicialmente) intencionados, que já são raros, são engolidos pelo "sistema" e se corrompem, porque não possuem a firmeza de caráter e nem o conhecimento ou a estratégia necessárias para adentrar na politicagem sabichona brasileira sem serem engolidos por ela. Em se tratando do Brasil, mesmo um homem muito inteligente e com boa estratégia tem dificuldades para atuar, porque o meio o qual ele mergulhará e agirá é numa multidão de tatambas vaidosos.
Os tatambas dominam o país desde a sua independência e fazem o que querem. Mas não pense que só haja tatambas de um lado, há por todos os lados do espectro político, porque isto é um costume brasileiro e de sua elite mal-criada. Atualmente, há tatambas na esquerda e na direita, e eles são os que dominam o cenário cultural.
O atual governo do Brasil é um destes grupos de tatambas, bravateia nas ruas, nos grupos de rede social e em toda vez que aparece na TV. Na sua cola, há todo um movimento de pessoas politizadas que se dizem conservadoras mas que são na verdade uma multidão de tatambas desorientados, que bravateiam e gritam nos protestos sem um norte, sem um objetivo claro e bem definido, sem estratégia alguma, sem visão de futuro, e quando o tem, é idiota, por exemplo: intervenção militar de militares que estão dando à mínima para eles, por um presidente que enquanto o povo grita ao léu seu nome implorando por que ele haja, ele mesmo negocia com aquela classe de tatambas que domina as altas esferas dos Três Poderes que o povo vocifera contra, minando as forças orgânicas da legitimidade popular.
O maior mal do Brasil não é a ideologia que o político possua, pois se fosse isto, mas ele tivesse o real interesse em ser verdadeiro em suas colocações, se poderia haver debate de ideias e a razão falaria mais alto que a mera vontade pessoal. Mas isto, no Brasil, é utopia, e não se pode esperar nobreza de caráter de uma classe de políticos e falantes da mídia quando estes confundem alhos com bugalhos, quer dizer, confundem suas paixões políticas com a real situação. Estes políticos são uma falsa elite que finge estudar e compreender qualquer coisa, fingem lutar pelo Brasil e por seus interesses, ponha qualquer um deles num escrutínio sobre história do Brasil, sobre a história das instituições e conceitos que arvoram dentro do Congresso, ou nas lives diárias do youyube, ou nas sessões judiciárias, e veremos que não sabem o que fazem, mas estes não merecem perdão, pois estão comandando um país de 200 milhões de pessoas num imenso território tão grande quanto ou maior que Europa ou Oriente Médio. O maior do Brasil é o fingimento intelectual, a pompa, a vaidade pretenciosa em todas as esferas sem exceção de ninguém que tenha chave de comando. Não escapa dirigentes de quaiquer dos poderes, do Presidente da República aos chefes de partidos, membros do judiciário ou a classe de militância desorganizada de petistas e bolsonaristas, nada e ninguém escapa, são todos tatambas a governarem e a se considerarem os bons camaradas, talvez no autoengano, talvez por vigarice e mal-caráter, que só querem ajudar o povo com seu "notório" saber, melhor dizendo, com sua notória ignorância sobre tudo, e metamorfose ambulante que deixaria Raul Seixas de queixo caído, por não possuírem eles constância alguma de seus ideais, pior do que isto, não sabem quais são os efeitos de suas decisões para o prazo de sequer um dia seguinte às suas interpostas colocações e intervenções. com isto, temos uma massa de pseudoelite ingovernável, grosseira, barulhenta, histérica e que desgoverna o país com os seus ares de vaidade e bom-mocismo.
O Brasil é e sempre foi uma república tatâmbica, extraia disto desde os arvorados anos iniciais da independência em que o Imperador e toda a classe política, intelectual e literária do país à época eram quase todos pessoas desorientadas no senso de dever e responsabilidade no agir, pessoas guiadas mais pelo temperamento infantil da cólera do que pelo sublime interesse do bem comum. De lá para cá, não mudou muita coisa, já que o Estado brasileiro é a instituição propícia para aqueles que possuem tendêncais psicopatas, sociopatas, esquizofrênicas, vigaristas, falsas, histéricas, arrogantes, vaidosas sabichonas; para aqueles que pensam que o Estado é a finalidade última de toda a cultura humana, em vez do contrário, proteger a cultura humana, cultura no sentido da perenidade do saber civilizacional resguardado como herança comum. Não se tem no Brasil o senso superior da civilidade humana que a tudo orienta prudentemente a decisão dos governantes, porque não tem e nem houve governantes no Brasil, com exceção, talvez, de dois ou três estadistas, porque o Brasil é constituído unicamente, em sua classe elitista, de mercenários, que trocam deveres por favores, ideais por conchavos, metas por negociatas, alianças por conluios, apoios por chantagens. O povo no meio desta turba raivosa e vaidosa é apenas massa amorfa de ideias vitimizado pelos discursos vazios ou com ares de possibilidade cataclítica. O Brasil é um país em crise desde o momento de sua independência, porque é feito de rupturas históricas, e noticiário apocalíptico de bombas atômicas diárias.
Não há no Brasil, e nisto não tiro exceção de ninguém que eu conheça, que saiba o que significa defender o Brasil e do quê. Tudo o que há é vaidade histérica, discursos retóricos usados para conquistar apoio das massas. No dia 7 de Setembro de 2022 o Brasil completou 200 anos de sua independência de Portugal, houve comemorações por multidões inumeráveis pelo Brasil? não. O Estado Brasileiro com suas instituições e lideranças se uniram ao longo do ano tão simbólico como este para criar um mega evento a nível nacional, superior a tudo quanto se produziu de cultura para todo o povo com teatros, músicas, livros, feiras culturais, palestras, campeonatos de poesia e literatura, documentários, filmes, desfiles, exposições históricas? Não, nada! Nem mesmo sob um dito governo "patriota" e que diz defender o Brasil e seus interesses. Houve união de setores da sociedade civil organizada, entre elas citemos a Igreja Católica que construiu este país e suas bases civilizacionais, que conferiu a unidade cultural a ele, empresariado, universidades públicas e privadas, escolas públicas e privadas, associações e o mais que possa, houve união e festejo para se comemorar um país que se diz defender por todos estes citados e não citados? Não houve, nada! A classe jornalística que ganhou força de um quarto poder político no Brasil trabalhou ao longo do ano para produzir reportagens, artigos e estudos que dessem ao menos um amplo espectro ao senso comum histórico e cultural do Brasil para os brasileiros, se não no ano, mas pelo menos nos dias anteriores ao 7 de Setembro? Não trabalhou, nada. Então que raio de patriotismo ou amor à nação há num país que ignora uma data tão simbólica como esta? Seria como ao chegar ao bimilênio do Cristianismo, a Igreja Católica se preocupasse mais com a escolha dos ministros de Estado do Vaticano e da administração de seu banco do que com o símbolo histórico inigualável de 2 mil anos de História. Para um país, um século é uma era inteira, dois séculos é a maturidade, supostamente, de uma nação, dali ele caminhará para a firmeza de seus alicerces ou descambará para a puerilidade de sua existência, porque nem todas as nações deixam marcas na história. Dois séculos é o tempo que nações insignificantes deixam de existir, ou manifestam a sua grandeza, exemplos disto são o Estado Moderno Francês da Revolução em completa insignificância, Portugal que após dois séculos se firmou em sua identidade perante Castela, e os EUA que se tornaram na superpotência mundial absoluta.
Obviamente que com isto não quero dizer uma verdade evangélica, mas uma verdade estatística, após dois séculos deve-se transparecer o que uma nação é, é o tempo que se passa pelo menos sete gerações de seus fundadores, é a perfeição simbólica da formação da geração. Os brotos dever-se-iam brotar nos campos, se não acontece, ao contrário, há o declínio das gerações, então é sinal de que o país caminha à sua deriva e desintegração.
Para se ter uma ideia, em 1922 houve sim algo no plano da cultura a nível nacional, houve a Semana de Arte Moderna, a qual há muitos admiradores e críticos, mas a partir daquele evento, para o bem ou para o mal, modificou-se a cultura brasileira em todos os aspectos, e não apenas no político, que é o mais rasteiro e superficial e que vive das miudezas momentâneas, exceto nas grandes mudanças de eras da sociedade, para o declínio ou nova ascensão. Naquele ano, a elite intelectual do Brasil, que era tatâmbica, queria criar, forjar uma nova cultura nacional que rompesse com a portuguesa e criasse nos trópicos uma cultura independente que destacasse, sobressaísse um novo Brasil, visando o futuro. Aí houve uma grande ruptura, e por esta característica de romper com o passado português, configurou a pomposa e tatâmbica cultura modernista, que influenciou absolutamente tudo, até na construção das casas do povo simples. Se hoje vemos casas cinzas e disformes, semelhantes a uma pilha de caixas podres a formar as cidades brasileiras, sem critério e sem finalidade de beleza alguma, apenas visando o utilitarismo que paira onipresente nas grandes cidades brasileiras, isto se deve à arquitetura modernista. As casas portuguesas e de cuja beleza colonial até hoje deixaram marcas profundas do que é ser Brasil raiz, foram esquecidas. Ouro Preto, Paris e Roma deixaram de ser inspiração para o Brasil, Brasília e Belo Horizonte com suas caixas brancas e úmidas se tornaram no modelo de cidade que o Brasil quer para si: distante e ampla, nova e já velha, branca e embolorada, de ruas para carros e não homens, prédios que rendam dinheiro e não alegria de nele se estar, exceto, é claro, pelos bolsos cheios no fim do mês, alegria do capitalismo. A arquitetura brasileira moderna é a concretização plena do trivial, a cultura da burocracia elevada ao mais alto nível moral de existência humana, e isto é terreno perfeito para tatambas vaidosos dele quererem cuidar, ao passo que santos possuem muita dificuldade de fazer milagres.
Se Deus é brasileiro, Ele odeia política desta república de tatambas, e se recusa a ajudar um circo que tem tudo de vaidade e pompa grosseira, tatâmbica. É imoral, por esta razão, que se queira usar o nome de Deus para se dizer defensor de valores transcendentais em bocas que não prezam por valor transcendental algum, mas fazem tudo por retórica, histeria e negociatas tão medíocres que deixariam quaisquer estadistas verdadeiros de quaisquer tempos e lugares envergonhados de que subsista num país continental com população verdadeiramente grande para uma humanidade por si, em diversidade e cores, como é a desgraçada terrinha do Brasil. O motivo para ainda subsistir só tem um razão: também as massas são parte da República de Tatambas.
Quando se diz ser um homem culto no Brasil, está a se referir a um homem sabichão, mas cujo valor moral deste conhecimento vale tanto quanto o de uma criança tola de oito anos. Aqui no Brasil, candidatos a presidência da república conseguem ser adolescentes coléricos, que não fazem outra coisa que manipular as massas com um discurso tão fraco, tolo, débil e tatâmbico que faria qualquer pessoa com inteligênca razoável e senso comum saudável do exterior achar que aquilo é uma imensa palhaçada a qual o povo não acredita e não dá a mínima. Mas está errado, o povo dá toda a atenção do mundo, e esquecerá tudo no dia seguinte. Está mais errado ainda, se pensa que estes candidatos a presidente agem por quaisquer critérios morais, o único critério moral que existe em pessoas como Simone Tebet, Luís Inácio Lula da Silva, Marina Silva, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e outros é como articular, bem ou mal, para obter, não o poder (eles não possuem esta capacidade moral e transcendental de querer o poder), cargos e empoderamento de seus partidos políticos, ou se safar de perseguições infantis. Nem sequer se importam se para tomar um cargo, entram no governo do candidato ao qual eles chamaram de corrupto e ladrão (até quando sei o que isto significa, é que quem anda com corrupto sabendo que é corrupto, por ele ser corrupto, é corrupto ele também. Seria isto hipocrisia? Não, porque demandaria muita inteligência sagaz para alguém ser hipócrita, e eles a não possuem, isto implica em não mais do que uma cálifa de tatambas, e como tais, não passam de camelos de cujas corcundas não servem para outra coisa que se montar nelas e arreiá-las em busca de quem queira comprar quinquilharias feitas no deserto de suas inteligências fúteis como a areia das dunas lúgubres). Se se pensa que o candidato "patriota" não faz parte deste jogo, é porque também faz parte da multidão dos tatambas que se autoenganam no imbecilismo coletivo, já agora em decreptude mórbida e irremediável. Não existe patriotismo feito à base de ignorância dos atos e só por pura boa-vontade, quando esta há. Existe um limite para a boa intenção, cuja ignorância do fazer e querer torna-se culposa.
O Brasil não pode continuar sustentando uma falsa cultura de elite que rouba da população a inteligência natural, o senso comum; uma falsa cultura de elite que impunha na mente do povo a histeria de achar que tudo é pra ontem e amanhã, e que se deve delegar tudo para um bando de babocas que não tem respeito pelo sofrimento piscológico humano. Ser agredido em sua consciência, sendo-lhe roubada a verdade e integridade interior de sua própria consciência por escusa do medo que as falsas elites lhe provocam é imperdoável vindo de quem quer que seja. As elites falantes hoje no Brasil são todos mercenários a quererem influenciar as consciências das gentes brasiliensis em torno de imbecilização em massa, como manobra de poder oligárquico. É imoral que pessoas que se digam intelectuais, sobretudo "patriotas", melhor seria dizê-los, patotas ou "pra-tortas", façam da cultura uma finalidade de conquista de apoio das gentes simples a fim de obterem para si ou para outrem cargos políticos ou benefício grupal. Devemos chamar as coisas pelo seu nome, e não há no Brasil, sequer por parte destas pseudoelites, interesse político real algum, porque interesse político envolve grande visão de um espectro de relações causais que somente um homem de espírito generoso e vasto como o próprio país e sua história pode fazer. Se existe este homem, não está na atual classe de mercenários tatambas que descomandam o país há dois séculos.
Por fim, encerro com as palavras de Gustavo Corção que muito soube expressar em poucas palavras o quão não somos um país normal, já que adoecemos como país desde a época em que ele vivera esperançosamente de um futuro Brasil merecedor de ser chamado "pátria do futuro e da esperança":
E para não desmerecermos em tal tarefa (a de completar o universo!) precisamos friccionar nossos sentimentos e nossas virtudes, e para isto precisamos de comemorações, de sinais e símbolos já que nesta vida terrena, como disse o apostolo Paulo, vivemos entre sinais e enigmas. Daí a utilidade das bandeiras, dos hinos e das festividades cívicas que todos os povos normais sempre amaram. Mas a necessidade mais imperiosa e contínua que decorre da consciência patriótica é a do serviço prestado no dia a dia da vida profissional. Festejemos os dias da pátria, mas essas festividades seriam vazias e até falsas se não fossem sinais do desejo de servi-la. Gustavo Corção, A Pátria; O Globo, 1972
Nesta festividade de dia 15 de Novembro de 2022, o Brasil completa 133 anos desde que realizava o golpe militar que derrrubou o maior império do ocidente para o Ocidente. O Brasil que vive de rupturas, nunca buscou resgatar o seu passado em sua consciência patriótica, sinal de que estamos doentes como nação, mais ainda se, nos reunimos em desfiles e semanas da pátria para paparicar políticos que deveriam ser servos do povo e não servidos por eles. O serviço da nação por parte da classe de políticos deve ser feito por amor pátrio somente e nunca por desejo de se enriquecer, pois é próprio de quem quer ser governante buscar a honra e a glória para a sua pátria que se torna a dele própria por sua vez, mas no Brasil não há quem tenha sequer este sentimento de glória e honra, a atual pseudoelite não sabe o que é este sentimento, possuem sentimentos de mercenários. Um só tremendo estadista que houvesse na história do Brasil, em poucos anos este país seria a nova superpotência mundial, não só em economia, que seria mero efeito subalterno, mas cultural e espiritual. Mas enquanto o Brasil e os brasileiros continuarem sendo imediatistas e terem memória curta, nunca poderão realizar tal intento, e não haverá milagre que santo possa fazer numa Babel como esta, exceto, o de derrubar a sua torre.



Comentários