O que é ocupar espaço cultural?
- Thiarles Sosi
- 30 de jan. de 2023
- 16 min de leitura
O que é ocupar espaço cultural?
Um pequeno debate na República Tupiniquim

Estava eu em um diálogo com colegas conservadores, falando sobre o futuro da cultura brasileira. Um colega pôs uma pequena fala do Olavo de Carvalho em discussão, que é a seguinte:
“...Essa coisa de você achar que a disseminação das ideias por si vai fazer alguma coisa, ela não faz. Eu sei como se cria um movimento cultural, eu sei porque já estudei a história de como é que se faz. Você tem que começar com um grupo relativamente pequeno, altissimamente qualificado, e que pela sua produção ocupe o espaço e, crie uma autoridade. É o único jeito.”
Colega Um: O que é ocupar espaço cultural? Perguntou um dos que estavam entre nós, sobre esta fala do Olavo.
Em resposta a esta pergunta, um colega falou que é criar pequenos grupos, semelhantes ao movimento militante esquerdista, que se espalhem pelo país inteiro promovendo suas ideias, fomentando em palestras, conferências… indo em oposição ao que o próprio Olavo acabara de dizer, que se trata de um grupo pequeno e altissimamente qualificado que ocupe pela sua produção. Ora, esta produção é intelectual, quer dizer, literatura e ciência, e com isto, criar autoridade.
Em resposta, dei, como Ego, minha contribuição ao debate:
Ego: (É) Ocupar espaço na produção de ideias, por exemplo: não adianta ter conservador nas universidades. Você tem que ser um produtor de conhecimento que vai modificar o método de produção acadêmica, com suas ideias influenciar a academia desde dentro, e este grupo vai se referenciando a si mesmo, havendo debate interno.
Este grupo tem que ser pequeno, tal como os apóstolos, tal como os discípulos de Sócrates, Platão o eram. Veja, que Jesus começou com doze apóstolos, porque apesar de Ser Deus, Jesus quis ensinar de maneira didática como funciona o processo de expansão cultural humano. Há alguém que tem vocação para a maestria, há os discípulos fieis, aqueles que melhor o entendem, não na sua totalidade, porque isto é impossível, mesmo entre seres humanos comuns, mas de absorver cada um com o seu olhar, e ir uns discutindo com os outros os fundamentos da percepção do conhecimento, dados por aquele mestre em comum. Este grupo é movido por solidariedade, fundamentalmente, e se expande por essa força natural do conhecimento.
Tem que ser gente que esteja assumindo o papel de liderança intelectual, e o restante, intelectuais especializados, vai orbitando em torno deste movimento circular central, o próprio Olavo já disse que um grupo de dez passa para dez, e esses para outros, e assim sucessivamente; se espalha por todas as direções do conhecimento e das gentes, como uma rosa dos ventos.
O COF, de Olavo de Carvalho, no Brasil, por exemplo, em grande parte, era para estimular o surgimento destes movimentos, mas eles devem ser pessoais, presenciais, intensos, não adianta lives de internet, não é assim que funciona. Porque videoconferências são limitadas para debate, são curtas e abrangem um público diverso e limitado. Talvez, rodas pequenas de estudiosos, interagindo entre si, ora um, ora outro, expondo seu pensamento com coerência e coesão, o que demanda certo tempo, além do que, sobretudo, livros de debates.
Não é um clube de leitura, também; tem que ser um grupo forte de conhecimento científico, e que se vai se corrigindo internamente na formação de conteúdo e método científico (no sentido amplo). Não adianta escrever um bom livro com ideias promissoras, se ele estiver isolado não fará efeito social, se não houver um trabalho para implantá-lo no debate cultural: universidade, literatura, teatro, etc. Editoras tem um papel fundamental na expansão do debate, as boas editoras, conscientes de seu papel na cultura, se desejam fazer parte do processo cultural, não devem visar a vendabilidade mercadológica por primeiro, mas que os livros cheguem até as pessoas certas.
Nós devemos aprender com os esquerdistas sim, quanto a como fazer um movimento cultural. Mas tem um problema: o pessoal conservador não está a fim de bancar pessoas inteligentes para serem lançadas numa carreira de ensino, conferência, exposição de seu pensamento, debate com outros afins. Porque para um escritor, um cientista, é fundamental que haja financiador, um patrocinador que esteja pronto para ajudá-lo, tal como ocorre com os intelectuais no eixo EUA-Europa, que haja quem o ajude a viajar, levar suas ideias para um pequeno grupo de pessoas. Em vez de ajudar vários intelectuais a irem pelo país a formar suas conferências e expor suas ideias, o que o empresariado brasileiro faz? Chorar e querer sair do país por mágoa do povo ter votado em candidato de esquerda... mas a culpa é deles mesmos...
Agora, não adianta colocar garotos para fazerem reuniões em escolas; ocupar espaço é para adultos, intelectuais, cientistas, pessoas comprometidas com o conhecimento. Não é criar uma rede de militância, eu discordo dessa abordagem em que muitos conservadores se propõem, porque é imbecilizante.
Colega Dois: Não estamos falando de garotos. O movimento Fora do Eixo por exemplo é (ou foi na era lula) um baita movimento, de gente esperta e articulado que fazia os deputados irem lá discutir ideias com o “povo”. O problema é que a sobrevivência destes espaços independentes sempre foi a base da venda de bebidas (bar).
Será difícil fazer o Olavo entrar nas Universidades, pois há uma barreira de professores que protegem os seus intelectuais favoritos para que isso não aconteça.
Ego: Esta resposta é simples. Por exemplo: quando se vai discutir o que é o comportamento social, pelos pesquisadores das universidades, quais metodologias são colocadas por eles? As de Karl Marx. Agora, esta escolha é ideológica ou é científica, de método escolhido?
É científica; porque os pesquisadores atribuem melhor precisão metodológica de Karl Marx para fazer análises sociológicas, em comparação a de um outro. Assim, um estudante, um pesquisador, vai pegar o método de Karl Marx e fazer análises de acordo com o método de Karl Marx por achá-lo mais "científico", mais correto para fins analíticos. Pronto, aí você tem uma metodologia científica que cresce e ocupa o espaço cultural. O problema da universidade que Olavo denunciou não foi se é colocado Karl Marx como método científico, mas que o seu método é hegemonista, e quem ofereça algum alternativo que vai contra, cientificamente superior, estará mesmo incorrendo em anticiência, e aqui, nesta afirmação, há um predomínio ideológico de fato, porque se nega a realidade, mas que ainda está preso dentro da linguagem científica.
Um pesquisador não trabalha a partir de Karl Marx porque ele quer fazer as pessoas virarem comunistas (ideia vulgar de quem não é intelectual); ele trabalha a partir de Karl Marx porque acredita que é o modelo científico preciso, tal como nós, alunos do Olavo, pretensamente, (acreditamos de Olavo) que seus métodos são científicos e melhores de fato que os deu outro.
Se nós, alunos do Olavo, acreditamos que seu modelo é mais preciso que o de Karl Marx (como um exemplo), então nós devemos elaborar trabalhos que demonstrem isto por A+B, e fazer esforço para ser reconhecido isto, dentro e fora da Academia.
Por exemplo: os marxistas dizem que a História se resume como a luta dos oprimidos contra os opressores; os conservadores o negam. Mas que explicação os conservadores dão para a História no lugar da luta de classes?
Por vezes, durante esta política “conservadora”, que ocorreu de 2019 a 2022, o discurso de oprimidos contra opressores por parte dos conservadores foi reforçado, dando mais autoridade para os marxistas, e de quebra, os marxistas conseguiram transformar os conservadores em terroristas opressores nos protestos em Brasília de Janeiro de 2023. Isso é possível graças a ideia de oprimidos contra opressores e luta de classes.
Colega Dois: Onde estão os conservadores então, que não estão nestes grupos independentes e parece que não existem na vida intelectual? Na minha visão, eles são a base trabalhadora do país. Não foi em vão que o Bolsonaro fez passeatas com motoqueiros. A cada pequeno comércio tem um conservador tentando levar a vida dignamente, assim como tem um movimento esquerdista do outro lado pegando os impostos dele para financiar o que desejam, afinal esse comerciante opressor “produz riqueza”.
Ego: Vou dar um exemplo de como funciona a ocupação de espaços, de verdade, quanto à propagação de ideias metodológicas: Você já reparou que as empresas são as maiores promotoras das ideias esquerdistas atualmente? A ideia de inclusão LGBT, desenvolvimento sustentável, pronome neutro, divórcio, masculinidade tóxica, a cor vermelha como resistência, a ideia de que o Brasil é um país do apartheid sul-africano, e virar vegano para não destruir o planeta? Isto é possível pela equipe de marketing da empresa e pelo setor de Recursos Humanos da mesma, cujo pessoal foi formado na universidade ou em workshops, conferências para modernização da empresa com as novas ideias que estão em voga na sociedade. O próprio marketing foi transformado para se desenvolver com este discurso à esquerda.
Colega Dois: Isso é só consequência…. Sem as pequenas células, isso não irá passar de uma má ideia. Tudo o que acontece nestas empresas foi discutida em mesas de debates anos antes até se formatar numa ideia concreta. É a pressão do grupo (articulado) que faz as empresas terem estas escolhas.
Ego: Então, há de ter a criação de uma metodologia de marketing por parte dos formadores destes cursos, workshops; uma metodologia alternativa àquela da inclusão social esquerdista. Às vezes, pode-se usar até mesmo discurso da inclusão social, ela não é má, mas fazendo de maneira diferente daquela proposta pela esquerda. O próprio curso de administração deve ser rearticulado por cientistas, de modo alternativo à esquerdista. Não se trata de torcida ou de "conservadorismo" contra comunismo, se trata simplesmente de alternativa científica, técnica, ao marxismo empresarial que é mais poderoso que o "social" já quase onipresente nas grandes empresas. Os maiores marxistas, hoje, são empresários, lembremos disso.
Essa ocupação de espaços do qual você está falando é de militância, não de movimento intelectual.
Como vai se formar uma militância, sem ter os intelectuais que dão base para suas ideias?
Os conservadores foram pedir intervenção dos militares (nos fins de 2022 para o início de 2023, por acreditarem nisto), quando não sabiam que os militares simplesmente não estavam dando a mínima para eles. Por quê? Porque pensaram que os militares de hoje são os mesmos de 1964, se isso é bom ou ruim… eu não sei.
Essa confusão ocorreu porque não houve por parte de estudiosos conservadores um estudo debruçado sobre o pensamento do exército brasileiro atual. Então houve um lapso histórico de 60 anos e uma desarticulação do imaginário coletivo da “direita”. O próprio Professor Olavo ficou confuso quanto ao pensamento ideológico dos militares atuais, e por vezes discutia sob as possíveis mudanças internas nesta instituição. Vocês podem não estar estudando o pensamento do exército, mas garanto que os marxistas estão, e o Governo do PT trabalhou desde 2003 para reverter o quadro que eles julgavam desfavorável...
Colega Dois: Sem o que você chama de “militância” não haverá movimento intelectual que se sustente. Já temos (intelectuais), muitos, mas que não circulam.
Ego: Militância esquerdista surgiu antes de haver intelectualidade de esquerda? Não, foi o inverso. Então, sim, tem que ter intelectuais primeiro, “militância” depois. Só não se sustenta sem militância uma falsa intelectualidade, que é o que acontece hoje em dia, porque hoje em dia a pessoa pensa que porque ela lê um livro, ela já é intelectual, e não é assim.
Voltemos ao assunto da articulação de ideias de dentro da empresa: O dono da empresa não está interessado se a propaganda de seu negócio é esquerdista, comunista, conservadora, liberal, ou o raio que o parta; não, ele está interessado em vender. É aquele negócio das castas; a casta comerciante vai ser igual nos EUA e na China; a casta intelectual também vai ser igual nos EUA e no Brasil; é questão de quem tenha vocação intelectual exercer o seu papel de verdade, haverá a massa que não possui casta alguma e cuja única função social seja obedecer aos intelectuais. Parece doloroso, mas é assim que as coisas sempre funcionaram. Na Esquerda, sobretudo, é assim, a “militância obedece estritamente aos seus intelectuais. Então, se o dono, que é um comerciante, ou um governante, entende que é ele que tem de financiar aqueles cujas ideias ele apoia, então, naturalmente o movimento intelectual alternativo ganha força de ação local e social efetiva. Obviamente que tem de ter pessoas em todas as áreas: marketing, RH, Finanças, Relações Públicas, que saibam como mudar o seu ambiente.
Colega Dois: Entra com uma camisa de um intelectual conservador em uma universidade pública. As ideias de um intelectual sem militâncias não dura um segundo ali.
Colega Um: É verdade. Mas a militância e o movimento político se formam após a discussão das ideias, meio que naturalmente, não sei como funciona o processo. Como fazer para a produção intelectual levar à criação de um movimento político?
Colega Dois: Ninguém financiará nada que não tenha apoio da massa, do grupo, por mais brilhante que seja uma ideia. Um comerciante não colocará o dinheiro dele em algo fraco e sem estrutura social, porque no dia seguinte o negócio dele poderá ser acusado de pressão; um funcionário do negócio dele pode sofrer coerção do movimento esquerdista para acusar o dono de estuprador; e o comércio dele irá à falência rapidamente, só porque ele resolveu financiar ou apoiar algo conservador deliberadamente. Não há segurança jurídica no Brasil. Se uma empresa apoiar um festival conservador, a mando da esquerda a receita federal vai cair em cima desta empresa e vai encontrar pelo em ovo. No Brasil de hoje não adianta ser romântico, achando que empresário só quer grana e só precisa de grana pra financiar uma ideia. Sem base, nenhuma planta ou ideia fortificará.
Ego: "Se você vestir uma camisa de “conservador” na universidade, é lógico que está clamando por briga...
Esqueça esse negócio de militância. Toda militância obedece a um intelectual. Mas existem camadas de agentes (intermediários).
Quem foi o pai do gramscismo no Brasil, por exemplo? Fernando Henrique Cardoso. Qual é o trabalho do PT? Gramscismo. Toda a esquerda brasileira obedece ao Antonio Gramsci até os dias de hoje, usa das estratégias dele, das ideias dele... Então, o que não está sendo entendido até aqui, é que não se trata de criar um movimento articulado de massa, e sim, de intelectuais sinceros criarem a base metodológica para cada área do conhecimento humano. Eu dei o exemplo do marketing dentro das empresas, poderia dar de várias outras áreas. Quem põe as ideias esquerdistas dentro da empresa é o setor administrativo da empresa, não militância esquerdista por pressão.
O professor Olavo deu o exemplo da Maçonaria e Iluminismo na criação de uma nova Europa, o movimento iluminista agia em círculos muito pequenos, desde 1717, pelo menos, mas que ia dominando a elite, nobreza, clero, realeza… aos poucos foi crescendo e criando as bases alternativas àquela que ainda estava ligada a uma elite cristã. Levou meio século para que conseguissem, e continuaram a aprofundar suas ações; o que se chama de comunismo, não é mais do que uma discussão interna de dentro do movimento iluminista inicial, e que evoluiu para novos corpos de ideias mais ou menos independente.
Mas em se tratando do movimento conservador, ele possui sim grande apoio das massas, tanto é assim que o candidato conservador levou metade do país nas costas, então este público existe. O outro lado é barulhento porque existe um grupo de intelectuais que "apertam o botão" e chamam por seus escravos sociais para fomentar a agitação social. Um desses intelectuais é Marilena Chauí, outro é Frei Betto, Márcia Tiburi, Leandro Karnal, Grabriel Chalita, Fernando Haddad, e muitos outros, cada um em atuações muito distintas, evidentemente. Eles não são militantes, são os fomentadores de ideias, que é o trabalho da intelectualidade."
Colega Três: "O problema é que as pessoas que poderiam fazer isso estão espalhadas. A elite em potencial se dilui no público do próprio COF, que assiste às aulas com outros objetivos além dos pretendidos originalmente. Aí o tal contato fecundo entre estudantes sérios fica tão difícil quanto antes, quando estavam espalhados espacialmente sem internet. A questão é também que, apesar da imensa quantidade de porcaria, ainda há mais gente registrando suas pesquisas de forma padronizada e “científica” do que entre os alunos do COF. Acho mesmo que os professores universitários leem, em média, mais do que os alunos do COF, e, pelo menos, os acadêmicos discutem as suas ideias, com entusiasmo, em mesas de bar, como o amigo disse ali em cima. Numa aula o Olavo explica como os cafés e círculos de amigos e de debates foram importantes na história das ideias. Isso infelizmente não existe no ambiente do COF. E não adianta dizermos que vamos estudar seriamente e conversar pela internet, porque temos interesses diferentes. Na imensidão do ambiente universitário, as pessoas acabam se juntando em função de seus interesses materiais nos estudos.
Será que alguém aqui se interessa pelas origens do método histórico-crítico, sua repercussão na questão do jesus histórico, e a questão dos milagres em seu aspecto filosófico e cientifico no meio disso tudo? Deve haver alguém entre os milhares de alunos do COF que sim, mas está muito distante. Não será nunca possível ter com ele uma discussão espontânea, como numa mesa de bar. E, como tenho outras obrigações, não tenho tempo de estudar essas coisas com o rigor necessário. Nunca serei um estudante sério segundo os padrões do próprio Olavo, a menos que consiga repouso na sombra da maquinaria universitária ou de rendas adquiridas por esforço especial em trabalho que, paradoxalmente, me custe parte do tempo de estudo hoje. Acho mesmo que são milhares de alunos com esse problema, que entretanto não se falam, não convivem, não se apoiam além de mensagens curtas e previsíveis. E não há solução para isso, o jeito é cada um segurar seu rojão.
Uma solução é ter um emprego medíocre e ler às costas do patrão, como o Olavo fazia (risos). Ou ganhar um montão de dinheiro no marketing digital."
Colega Quatro: "Pirâmide financeira você quer dizer?" (risos)
O Colega Cinco respondendo ao comentário de Ego: “O COF, de Olavo de Carvalho, no Brasil, por exemplo, em grande parte, era para estimular estes movimentos, mas eles devem ser pessoais, presenciais, não adianta lives de internet, não é assim que funciona...”, disse:
Colega Cinco: "Isso mesmo. É literalmente ocupar um espaço nas prateleiras das livrarias. Alguém aqui tem livro pronto?"
Ego: "Eu tenho, Cinco, mas ainda não publicado.
Seguindo, a conversa, Ego disse: Olha, tenho várias observações, mas não sei se me lembrarei de tudo o que tenho para dizer; Uma delas é aquela que o professor falava da guerra cultural como ocupação dos espaços por parte dos comunistas; esta estratégia é a revolucionária. O COF teve 10 mil alunos, se cada um desses, trabalhasse 1 ano para produzir um livro, então teríamos 10 mil livros para o ano seguinte. Não é muito? É avassalador, isto aterrorizaria a esquerda de tal modo, porque a esquerda não tem ou não teria uma força de engajamento tão grande. Mas por que os alunos do COF, que em tese, eram para ser intelectuais não o fizeram nem em 13 anos que o COF durou? Ao contrário, o resultado foi e é tão pífio que não traz resultados para debate público coisa alguma. Eu digo que foi por preguiça e oba-oba política, e também fetiche quanto ao que é produzir um livro, em suma, vaidade invertida, que é quando o sujeito acha que nobreza é recusar fazer algo de bom, por achar-se despreparado para tal, em vez de se ir preparando continuamente, focando num objetivo que esteja ao seu alcance.
Então, acho que falta um trabalho explicativo de como produzir livros; eu já há tempos observei este problema, porque a produção de livros não é mais como antigamente, como um dos nossos colegas aqui falou, a literatura ganhou distintas abordagens… é preciso observar quais sejam.
A primeira coisa séria que observo é a seguinte: antigamente, um gênio era percebido quando abria a boca para falar três palavras. Uma pessoa de talento naturalmente conquistava a cultura; é só você se lembrar de Camões, Gil Vicente, Bocage, Miguel de Cervantes, Shakespeare… todos eles foram reconhecidos em vida, o que não quer dizer que seja necessariamente assim. É verdade que um gênio poderia ser reconhecido bem depois, como afirmam alguns, mas é também verdade que era reconhecido. Será que hoje seria assim? Hoje, se uma pessoa de talento surge, ela simplesmente é ignorada. Você acha que hoje faria sucesso um Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Dante? De jeito nenhum, eles seriam apenas autores de bairro. Não por falta de talento, mas porque este tipo de proposta não faria sucesso, não obteria apoio de uma comunidade que espalhasse seu trabalho pelo país. Porque é necessário haver uma comunidade de intelectuais bem formados para alavancar os gênios e pô-los em seu devido lugar.
Quanto à Esquerda; A Esquerda utiliza de engenharia social para escrever seus livros, e por isso obtém grande sucesso de vendas naturalmente, mas não por talento. Essa engenharia social consiste num poder avassalador de manipulação pela linguagem.
Os livros brasileiros que mais fazem sucesso hoje são aqueles que reforçam que o Brasil é um país do apartheid sul-africano, que mata gays como muçulmanos matavam cristãos na Idade Média ou Inquisição Espanhola (inquisição abordada assim ficticiamente, aliás). Ou seja, há hoje uma histeria coletiva, que é um fenômeno que estou abordando em meus escritos já há alguns anos, e que pode ser observado nos escritos da Esquerda.
Para fins de exemplo, do que deve ser feito, temos o próprio Olavo, ele escreveu derrubando a hegemonia da esquerda, ao denunciar o falso intelectualismo da mesma, e continuou a fazer o seu trabalho, mesmo sem o apoio. Mas alguém em sã consciência diria que toda a obra de Olavo é igualmente de um nível só? Que não existe variação de importância em seus escritos? É tudo um nível só e sem maiores desdobramentos? Por acaso os escritos dele para o Jornal do Comércio tem o mesmo valor que as apostilas escritas para uma roda de alunos nos anos 1990?
Também os escritos nossos devem ter gradações de importância, e não ter essa vaidade de que devo fazer uma obra-prima aos vinte anos.
Mas eu tenho impressão que falo para uma parede... Não há nenhuma pergunta sobre minhas afirmações? Porque elas não são evidentes. Haver-me-ia de desdobrá-las nas afirmações, mas há um vácuo de entendimento aqui, este grupo simplesmente não está entendendo nada do que é para fazer!
(Leiam o livro A Vida Intelectual do Padre Antonin Sertillanges, com urgência e emergência! Para saber o que é a vida intelectual e o seu propósito.)
… Então, um problema é saber as diferentes importâncias da escrita: aquela importância que é fruto da própria observação da realidade, aquela que é fruto de uma pesquisa, aquela que é fruto da própria experiência, aquela que é um trabalho pontual, profissional, aquela que é, em suma, uma longa meta vocacional a se cumprir. Há de se separar tudo isso, o intelectual deve, primeiro, fazer essa separação, e não colocar tudo no mesmo espectro de importância.
As postagens de Olavo para as redes sociais, por exemplo, embora possam ser desdobradas, elas não possuem a mesma importância em si mesmas em relação à sua filosofia espalhada e pressuposta em escritos maiores, muitos, inclusive, não publicados e nem de fácil esclarecimento aos seus alunos, o que exigirá deles estudos futuros.
Mas os escritores antigos tinham isto por óbvio, quer dizer, que há desigualdade nos escritos de um autor, porque sabiam que a vida artística era uma arte por assimilação, e era artesanato, portanto. Grandes obras surgiram, inclusive, da necessidade econômica do autor, como Cervantes que escreveu Dom Quixote, então, até escrever por dinheiro, pode ser um grande motivador para o gênio! Ainda que, é claro, a genialidade não é produto disto. Quero dizer, a necessidade por vezes obriga o gênio a manifestar-se, mas não cria a genialidade."
*
Apesar da longa conversa, não houve entendimento, ao contrário, os atritos se reforçaram. Mas se se trata de pretensos intelectuais e escritores, falta-lhes o básico para o entendimento do que é a vida intelectual.
Se esse é o nível de confusão que existe dentro da pretensa roda de intelectuais conservadores, atual ou futura, então há um longo trabalho de base pela frente. Este trabalho passa pela educação dos termos usados, o desenvolvimento de uma linguagem comum, ao qual todo mundo possa se entender quando estiver falando de algo. Apesar de Olavo ter se esforçado por dar uma bibliografia em comum, ela é vasta demais e está demasiadamente distante dos interesses particulares dos intelectuais ou pretensos intelectuais, que são diversos para todos os fins; no entanto, a solução para a ocupação de espaços na cultura passa pelo surgimento de intelectuais que se entendam, e formem grupos orgânicos, compromissados com a elaboração de uma nova cultura superior no Brasil. Esta etapa não é salteável, Olavo já o dizia, portanto, importa haver intelectuais que se dialoguem, não militância que promova imbecilmente ideias as quais não entende e nem as tem.



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