O Milagre de trazer sua alma de volta para si
- Thiarles Sosi
- 5 de mar. de 2022
- 16 min de leitura
O Milagre de trazer sua alma de volta para si: Um testemunho de conversão de mentalidade

Quero-vos contar um breve testemunho de como Olavo de Carvalho me ensinou algo que foi de fundamental importância para a descoberta do meu eu, ou redescoberta, por assim dizer.
Em 2018, eu estava desempregado (como fiquei a maior parte da minha vida), e estava desesperado por emprego, mas o meu currículo tinha graves problemas: não tinha experiência alguma registrada em carteira de trabalho, embora mantivesse um pequeno negócio de concerto de celular, e apesar de não ser tão novo, nunca consegui me manter numa empresa e ser efetivado nela, tudo por causa da minha “lentidão” para evoluir no trabalho ou falta de experiência, de fato, olhando por fora, era como se eu fosse um débil mental. Mas a necessidade de ganhar dinheiro naquela época estava consumindo a minha paz, o meu negócio de concerto ia muito mal, assim eu mandava currículo e nada, mandava currículo e nada, até que finalmente fui chamado para trabalhar numa farmácia de grande porte em São Paulo. Saber que iria trabalhar numa farmácia não me ajudava em nada a ficar tranquilo, por dentro estava em pleno desespero, pois temia que acontecesse como aconteceu em outros empregos, eu estaria tão atordoado por ir bem e ao mesmo tempo tão lento que me mandariam embora por péssimos rendimentos.
Foi na entrevista de emprego que eu adquiri certa confiança, lá fiz algumas amizades tão rápidas quanto tempestade depois de calor intenso, os colegas gostaram de mim, inclusive me chamando de um possível novo “Silvio Santos”, vede que honra! Simplesmente por saber falar e simular promover um atendimento adequado, ainda que eu presumisse ter na realidade muita dificuldade de falar em público, dificuldade que acreditava ser maior ainda quanto às vendas e promoção de atendimento ao público. Olhai, a minha vida nos últimos anos se resume a coisas como me desafiar em público, coisas que para uma pessoa comum hoje seriam absolutamente ridículas, nem sequer seriam tidas por desafios, esses desafios não são efetivamente grandes, mas eram imensos para mim na época, falar algo para duas pessoas que tivessem prestando atenção em mim, já seria o suficiente para me despertar o pavor e medo. Eu não sou gago, mas quando eu me sentia inseguro ficava travado e a voz não saía, até hoje, se eu não fizer um esforço para dizer algo de boa vontade, a voz não sai, naquela época, ainda que eu quisesse com grande esforço, a voz não sairia, só de ser aprovado em duas entrevistas no processo seletivo dessa farmácia já fora um milagre grandioso. Então, voltemo-nos para o dia em que os meus colegas me elogiaram de Silvio Santos: “Sério mesmo, Thiarles, Silvio Santos começou desse jeito, você tem aspecto de quem se desenvolverá muito na empresa, vai crescer e se tornar um bilionário...”, fiquei muito feliz por dentro, mal sabiam eles que aquilo que eles me elogiavam era a minha maior dificuldade. Quem ler A Jornada de Um Analfabeto Funcional, outro episódio autobiográfico (ou quase, porque tive que recontar com certas modificações, já que eu não me lembrava de todos os diálogos exatamente), verá que a vergonha e a insegurança de falar em público foi uma constante, e aquele episódio ocorrera três anos antes deste que vos narro. Então tá certo, se eu tenho um futuro promissor neste emprego, vamos nós para lá!
Os dias que antecederam ao primeiro dia de trabalho foram teatralmente superados, conseguira me convencer de que estaria tudo bem, exercitei o tal da energia positiva, queria entrar no trabalho com toda a energia e capacidade para ser um bom trabalhador, um bom funcionário, digno dos elogios que adquiri na entrevista e com os colegas, orante para que os Céus me impusessem um segundo eu. Pensei comigo: “Vou chegar antes do horário para conhecer a empresa e dar tempo de conhecer as pessoas e do gerente dialogar comigo sobre o que lhe convier”. Pronto, lá vou eu andando a pé, porque julguei que a farmácia era muito perto de minha casa, nem precisaria de pegar o ônibus. Acontece que quando fiz a primeira entrevista, fiz para uma loja, mas quando passei no processo seletivo, colocaram-me noutra loja, segundo o que pensava, essa outra loja também seria muito perto, mas eu havia me confundido, não era a loja que eu temaria estar, era ainda outra, e foi no momento de conferir no mapa a sua localização exata que vi ser uma loja que eu não fazia a mínima ideia de sua existência, o departamento de Recursos Humanos me informou e vi, e daí eu já estava sem o vale-transporte para poder me deslocar, se o fizesse, teria de gastar do meu dinheiro, então lá estou eu, andando três quilômetros e meio para chegar ao trabalho num sol radiante e quente, cujo calor se refletia abrupto no asfalto, por alguma razão, paulistanos não gostam de árvores a sombrearem as vias, eles amam o calor do asfalto a refletir em seus rostos.
Chegando no trabalho, me prontifiquei a me apresentar: “Olá, eu sou o novo funcionário, prazer em conhecê-los!” Percebi o sorriso no rosto do colega que mexia no computador diligentemente, ele me pediu para aguardar um pouco, iria chamar a gerente. Enquanto aguardava a gerente, observava a loja e tentava me comportar da maneira mais à vontade, tranquila e relaxada possível, embora estivesse apreensível, mas a angústia do parto da mulher que dá a luz acaba quando ela efetivamente dá a luz, pelo menos é o que dizem. Pois bem, estava ali, no meu primeiro emprego de carteira assinada! O meu colega, muito ousadamente, me chamou para ensinar desde já algumas coisas no trabalho, eu seria o operador de caixa, ou seja, o cara da cobrança. Bem, é certo que se eu fui contratado para ser o caixa, teria de me aproximar do caixa em algum momento, o meu colega pensou que o quanto antes o fizesse, melhor seria, e foi assim na primeira meia hora de meu trabalho. Estou à beira do caixa, observando e me atentando a ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Por dentro, porém, estava com medo de não absorver tudo o que ele estava me dizendo, mas decidi que deveria ter paciência para comigo mesmo. A gerente finalmente chega abrupta neste momento, quase em pleno desespero: “Samuel, o que você pensa que está fazendo? E ele respondeu taxativamente: Estou ensinando o novo operador a trabalhar com o caixa, e ela vociferou: Quem mandou você fazer isso? E ele responde: Ora, ele é operador de caixa, tem que aprender a ser operador de caixa, qual é o problema? E ela retruca: Eu não quero saber, não te dei autorização. E você (chamando a mim), venha aqui. No meio daquela encruzilhada, fui chamado por ela, algo ali não me agradou nenhum pouco, mas ainda não sabia o que era, não eram só as palavras arrogantes e desesperadas dela, por si só era algo no mínimo cômico, para não dizer constrangedor, tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O medo dela era tão grande, que era como se ao me aproximar do caixa e apertasse algum botão, tudo iria se explodir. O que não me agradou foi o fato de não se ter dirigido a mim e me chamado de maneira impessoal, ela exigira que eu fosse até ela, não ela que que fora até mim. Me aproximei à vontade e buscando expressar uma simpatia, dizem que a primeira impressão é a que fica, pois bem: “Olá... ela interviu novamente abrupta e direta: Não quero que você se aproxime daquele caixa até que eu lhe treine, entendeu?” Suas palavras eram não só em tom autoritário e rude, como demonstrou uma falta de amabilidade, me estremeceram tanto que involuntariamente coloquei as mãos no bolso e: Tire as mãos do bolso, agora. Isto não é postura de funcionário competente, em seguida desviei o olhar e pedi desculpa: Olhe nos meus olhos quando eu estiver falando com você, eu gosto que olhem nos meus olhos quando eu estiver falando. Você não vai se aproximar daquele caixa, porque eu mesma quero te treinar, e eu estou trabalhando no telemarketing nesta semana, então eu não sei quando poderei estar livre. Enquanto isto, fique olhando e conhecendo a loja. Lá se foi embora a minha esperança de recomeçar do zero.
Os dias que se seguiram ao primeiro foram apreensivos, agitados e ansiosos: Chegavam vários produtos, os funcionários estavam agitados em cumprir metas, e o meu colega que era operador de caixa, era o único que atendia em meio a muitos clientes, e eu nem sequer poderia me aproximar conforme ordens superiores. Mas além dele, haviam ainda outros dois colegas operadores de caixa que ficavam à noite, e eu era do período noturno, portanto, só me encontrava com o primeiro por algumas horas do dia. Também só me encontrava por algumas horas bem agitadas a gerente da farmácia, isto era para ser uma boa notícia para quem não ficasse à vontade com ela, mas acontece que mesmo em casa a gerente ficava trabalhando, ela usava um aplicativo do sistema de câmeras da farmácia e assistia ao trabalho dos funcionários de lá, talvez da cozinha, na cama ou mesmo no banheiro. Nessa primeira semana, tudo o que fiz fui limpar e organizar os produtos conforme data de validade, tamanho, marca, fragrância, e etc.; nas imensas gôndolas. Em certo momento, ela se aproximou para ver o quão bem estava feito o meu trabalho, e ditava: “Está tudo errado, refaça”. E assim se repetia essa novela várias e várias vezes: Está péssimo, se é para fazer serviço de porco, é melhor que não faça! E assim se seguiu por dias, mesmo contando com o apoio e ajuda dos demais colegas caixas para fazer o meu serviço corretamente, não sabia se o problema era eu, ou se era ela, já havia perdido completamente a confiança, e não conseguia pensar em mais absolutamente nada, apenas em fazer aquele serviço para que não recebesse mais broncas e impropérios.
Finalmente comecei a aprender a trabalhar com o caixa, como era de se esperar, estava lento. Mais do que isso, ela me mandou para o caixa porque viu que eu estava muito lento na empresa, e queria acelerar o meu desenvolvimento como profissional, me dando a tarefa pela qual fui contratado pela empresa desde o começo. Trabalhar no caixa era uma bela porcaria, toda vez que eu cometia um erro e precisava de sua ajuda para resolvê-lo, ela me dava um sermão para muitos escutarem, fazia questão de me ensinar e de me apontar quão desatento, lento, e outros pejorativos carinhosos eu era. Numa dada vez, por exemplo, eu recebi um cartão diferente, e tentei passá-lo, não dava certo, a fim de que não desse problema, tentei cancelá-lo, também não consegui, e o caixa cobrou como se tivesse passado, mas efetivamente não tinha cobrado no cartão, resultado: Formou-se uma fila e não conseguia resolver a situação, nessa altura eu já não queria pedir-lhe ajuda para nada, ainda que precisasse muito, porém não tinha escolha, o caixa pedia a chave do gerente para que se desbloqueasse, então tive que chamá-la por fim. Quando ela veio, desbloqueou e viu que pedia o comprovante dum pagamento que efetivamente não ocorrera, pois o cartão não era aceito (isso era um defeito do sistema da farmácia na época, mas que a empresa gostava de culpar a ineficiência ou desatenção dos funcionários). “Agora você terá que pagar o que está pedindo, porque você deveria ter-me perguntado antes de ter passado um cartão que não é aprovado”, foram apenas oitenta reais e alguma coisa, para alguém que ganhava menos de mil e cento e quarenta bruto, mas no final ela não me cobrou os oitenta. Me senti tão ruim que cada vez menos tinha vontade de trabalhar ali, de ficar ali, mas prometi que não me demitiria, eles quem deveriam me mandar embora, e vivi com este medo a cada segundo, a cada gesto que fazia, a cada movimento e a cada decisão, não estava certo se fazia bem ou se era incompetente.
Após alguns dias, ela então me chama à sua sala, a fim de avaliar o meu desempenho: “Thiarles, eu não sei o que está acontecendo com você, se você não está gostando de trabalhar aqui, ou o que é que se seja, mas é como se você estivesse morto, morto-vivo, vemos você pela loja, mas é como se não estivesse, você não fala nada com ninguém, os demais reclamam que você está atrapalhando o serviço deles, você não faz o seu serviço direito, você acha que está merecendo ficar aqui desse jeito? Isto me chocou de tal forma que fiquei a tremer dos pés a cabeça, mas tentei me forçar a ficar tranquilo e a dizer algo, os meus olhos se queriam desviar e dali sair para dizer verdades e incredulidades: Eu acho que venho fazendo o meu trabalho conforme está me pedindo sim, se eu não falo muito é porque sou um pouco tímido e... Ela então põe a mão na cabeça mostrando desgosto por aquela situação, como se fosse uma catástrofe a se anunciar, e me dizia: “Eu até entendo você se dizer muito tímido, o seu problema é o mesmo da minha filha. Mas o que você espera ao trabalhar aqui nesta empresa? E eu respondi: Pretendo crescer profissionalmente, desenvolver-me, fazer amigos..., a voz mal saía como sempre, e ela retrucou dizendo: Aqui não há este negócio de fazer amigos, aqui é trabalho, a relação que você deve ter para com os colegas é de trabalho. Nada de ficar com conversas e piadas entre colegas (e eu que nem conversava e nem brincava com ninguém, apenas no máximo tentava ser simpático), se você continuar desse jeito, se não se desenvolver conforme esperamos, não dará para continuar, ainda faltam vinte dias para terminar a sua avaliação, mas eu preciso ver seu desempenho daqui pra frente. Eu acredito que você tem potencial, eu quero fazer você crescer, mas eu preciso ver e não estou vendo... Está bem? Nisto ela abriu um sorriso pela primeira vez, também era a primeira vez que ela olhava nos meus olhos, mas mal sabia ela, ou ignorava tal, que era ela o maior dos meus problemas. Sim, havia apenas vinte e dois dias de trabalho naquela empresa e passei por tudo isso e muito mais. Ela havia conseguido transformar a minha ida ao trabalho e minha estadia por lá durante aquele tempo num inferno, eu me sentia anulado, desprezível, como o pior dos funcionários (como de fato ela vai afirmar num outro momento futuro, que eu fui o pior ou segundo pior que já apareceu naquela loja), como o mais incompetente e lesado, tudo o que há de ruim e pior, não só como funcionário mas como pessoa também, no entanto, foi uma fala dela que me despertou e me marcou profundamente: “É como se você estivesse morto, morto-vivo, vemos você pela loja, mas é como se não estivesse...”, estas palavras ecoaram repetidamente, traumaticamente, avassaladoras e intermitentes. De fato, por mais que eu me esforçasse, por mais que eu trabalhasse, era como se eu nada fizesse, porque era como se eu estivesse morto, ou um morto-vivo, e de fato estava.
Os próximos dias, como bem se poderia pensar, foram traumatizantes, o tempo todo estava me policiando, porque rezei comigo mesmo dizendo: “Se eu for demitido, que seja, mas que não seja por minha incompetência, mas sim por incompatibilidade, mas eu darei o meu melhor, mas se o meu melhor não for o suficiente, então não me resta outra coisa se não somente lamentar e procurar outro emprego, e recomeçar do zero como tantas vezes já fiz”. Nesse pensamento, rezava a Deus todos os dias para me ajudar. Houve uma vez que estava no banheiro da farmácia, e quase chorei porque me sentia mal ali dentro, não me sentia à vontade, ao mesmo tempo que queria sair dali, queria continuar pois necessitava e outra oportunidade de emprego não tivera, não me lembro o contexto daquele dia, mas me lembro que pedi a Deus: “Por favor, Senhor, me ajude, senão irei sair daqui e não voltarei mais”. Mal contava algo à minha família, pois temia que eles não entenderiam ou achariam que fosse frescura da minha parte, mas no fundo a vontade que eu tinha era de fugir e sumir para não dar satisfações a seu ninguém. Mas havia uma voz interior me dizendo para que eu fosse forte e enfrentasse esses dragões. E foi assim que ainda naquele primeiro mês de trabalho, abri o computador e me deparei com um trecho de aula do filósofo Olavo de Carvalho.
Não era a primeira vez que eu bebia dessa fonte, já fazia naquela altura quase um ano que eu consumia tudo o que era de aula e entrevista que Olavo de Carvalho fazia e deixava pela internet em rastros, estava embasbacado com tamanha profundidade de conhecimento, e naquele tempo, muitas das suas ideias não me eram familiares e concordes, ou pelo menos temerárias, mas havia outras coisas que sim, e foi justamente essa concordância que me fez perceber aos poucos a sua genialidade e grandeza, muito maior que opiniões de gostos pessoais. Também achei incrível que num certo momento, tudo o que eu lia e assistia dele era algo que dizia respeito a algo que eu pensava e vivia naquele momento, ou que já pensara e refletira, e ainda não encontrara respostas, e suas aulas e o seu modo enfático de dizer foi me despertando a vontade de questionar e aprender de novo as coisas que antes já houvera perdido o gosto; foi me despertando principalmente a ideia das diversas capacidades e talentos que antes, eu achava que eram os estorvos e a causa da minha desgraça, isto é, da minha lentidão para a vida, sim, porque o que me atrapalhava em todo emprego, em todas as relações humanas básicas era isso a que chamam de inteligir as coisas, raciocinar o sentido profundo da realidade ao seu redor, buscar a sabedoria no observar, buscar o lado espiritual como maneira mais larga de se ver a realidade, e também algo que hoje eu sei que se chama Filosofia ou pensamento filosofante pelo menos, coisa que o meu meio social jamais saberia ou suspeitaria existir e do que se tratava, porque eu mesmo não me conscientizara disso. Olavo ajudou-me a descobrir que eu de fato não era lerdo e lento, eu só não estava entendendo as minhas faculdades naturais e cognitivas dadas por Deus, faculdades estas, motivações estas, pensamentos estes, que os outros seriam incapazes de entender se não as tivessem também. Mas tudo isso merece uma reflexão posterior mais complexa, o fato é que numa dessas assertivas da Providência, Olavo dava uma aula, lembrando que era um trecho de aula publicada na internet por seus admiradores e alunos, em que dizia mais ou menos a seguinte ideia: “A Alma é a integridade, a totalidade da vida humana com todo o seu ser, faculdades, habilidades e memórias, porque o Eu é o que ele sabe sobre si mesmo, é a sua própria história. Ora, esta história e presença da alma como um todo não está presente sempre e do mesmo modo no sujeito em todo lugar, ela varia, como uma fumaça que vai e volta. Por isso que uma pessoa quando recomeça a sua vida num lugar, se ela não possui integridade, se ela não possui a consciência de sua própria história, se ela não tem presente quem ela é e o que ela sabe, ela recomeça do zero, é como uma pessoa que veio ao mundo hoje, zerada, está sem história e tem que adquirir tudo, inclusive a linguagem. A falta de integridade da alma é um problema traumático, porque cada vez que você vai mudar a rotina de sua vida, é como se houvesse uma nova ruptura, e você tem que começar de novo, e de novo e de novo. A falta de integridade é quando o sujeito não sabe quem ele é, não sabe integrar as diversas etapas de sua própria vida na sua pessoa, na sua história, e ele age em cada nova etapa de sua vida como uma ruptura com o passado, o que é isso? Uma ruptura do eu, de sua história, isto é, afastar a sua alma de si, porque a sua alma é o seu Eu. O sujeito que vive nesta situação traumática tem que fazer o inverso, tomar posse do seu eu, de suas habilidades e de sua história, e transformar cada nova etapa como um capítulo que agrega o seu eu, jamais uma ruptura, isto se chama: Trazer a sua alma de volta para si mesmo. Porque você deve trazer a sua alma de volta para si em tudo o que fizer: Hoje você entrou numa nova etapa? Traga toda a sua alma para si, a sua alma é a sua história com seus fracassos e vitórias, é admitir os seu talentos e sua história, admitir que sabe fazer alguma coisa, a sua história não começou a partir de hoje, começou quando você nasceu, desde ali você já tem uma história e deve saber tomar posse dela e integrá-la neste novo eu de agora. Traga a sua alma de volta para si...” Me perdoe, estes ensinamentos, talvez, não estejam numa única aula, mas estão concentradas nesta ideia, e aliás, não é transcrição, mas uma internalização do que aprendi mesmo de suas palavras, estou recontando com as minhas próprias, para mostrar o quanto que internalizei e me impactei por essas ideias, porque dali em diante, eu sempre faria esse exercício, de trazer a minha alma de volta para mim.
No trabalho, eu vivia exatamente desse jeito: Eu via que aquele trabalho era uma nova etapa, portanto eu deveria negar e esconder tudo o que fui e vivi até ali, não importava o quê, deveria negar os meus interesses e minhas habilidades, porque nenhum deles, julgava eu, seriam úteis para aquele trabalho, nem minhas memórias de infância, nem minha capacidade de analisar as coisas, nem minha capacidade de concatenar ideias, nem minha capacidade criativa, nada, nada, nada; literalmente estava zerado, tanto que eu não conseguia pensar em absolutamente nada, a única coisa que eu conseguia pensar era o quanto que deveria ser eficiente ali no trabalho porque estava no ultimato. Mas a partir daquela videoaula, minhas orações no trabalho foram resumidamente estas: “Que eu consiga trazer a minha alma de volta para mim, que eu consiga trazer a minha alma de volta para mim, vou trazer a minha alma de volta!”
Em cada etapa da minha vida, por menor que fosse, tratava como ruptura, um novo começo, e como tal, devia abandonar tudo o que eu era, pois acreditava que tudo o que eu era era inútil para aquela nova fase, e assim, eu criei vários “eus”, ou vários fragmentos, como fragmentos de uma história que não se emendaram umas às outras, como histórias de pessoas distintas, porque habitavam diversos eus dentro de mim, e nenhum deles era eu por inteiro, e nisto, agia inseguro, intermitente, perdia as referências, um novo começo, seja uma nova escola, uma nova cidade, um novo trabalho, um novo estudo, uma nova rotina, tudo me zerava e eu tinha que recomeçar, recomeçar a pensar naquilo que gostaria ou não de ser e fazer.
A partir do momento em que adotei o filosofema do “Trazer sua alma de volta para si”, foi que eu cresci, trazia-me às memórias; as minhas habilidades; as minhas capacidades, ainda que em princípio não se interconectassem com aquela nova experiência, mas eu fazia questão de criar as conexões, ver em quê havia analogia com experiências vividas no presente, meditava e buscava contar para mim mesmo o que conseguia e sabia fazer, e assim eu fui melhorando na percepção que eu tinha de mim mesmo e no meu trabalho. Não fui demitido, não saí por incompetência, julgo eu, porque efetivamente melhorei, tomei consciência daquilo que eu queria e daquilo que me atrapalhava de ser, analisei tal trabalho e vi que ele me atrapalhava naquele momento, e que eu precisava tomar uma atitude de reconhecer o meu eu, a minha nova etapa e nova unidade, mas que trazia comigo toda aquela turbulenta convivência. Eu não cresci na empresa, tive outros problemas nela, melhorei o meu relacionamento com os colegas e buscava ser um bom funcionário, porque era o meu dever, mas por outro lado sabia que o meu futuro não estava ali. Trabalhei em tal empresa por pouco mais de um ano, e no entanto, desde o primeiro mês ao último, o que fiz fui trazer a minha alma de volta mais e mais para mim mesmo. Foi graças à Providência, por intermédio do saber filosófico de um homem, que eu, Thiarles, pude me encontrar e reencontrar a minha alma.



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