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O Governo Bolsonaro e o Movimento Conservador: O que será depois de amanhã?

Atualizado: 2 de fev. de 2023

Série de Artigos 2: O Brasil e as Ideologias: O Governo Bolsonaro e o Movimento Conservador: O que será depois de amanhã?





Como eu não tenho vínculo com governo e nem tenho a obrigação de defender nenhum movimento político por causa das minhas convicções, muito menos por ter me convencido de que o atual governo quando ainda era simples candidato era capacitado a assumir um governo conservador, posso fazer uma avaliação após estes três anos, pensando, talvez, no que virá para o próximo ano. A urgência desta avaliação é que falta realmente um ano para que as eleições aconteçam e todo o movimento político que se preze a apoiar o atual governo tem como objetivo apenas em fazê-lo sobreviver aos trancos e barrancos e não de avaliar suas deficiências para possíveis (ainda) sanações.


O Dia 7 de Setembro ficará para a lembrança de muitos que ainda possuam mais de dois neurônios como o “Dia que não era pra ser” nacional; uma burrice acachapante, vergonhosa e humilhante, não por causa do governo, mas por causa das pessoas que saíram aos berros nos dias seguintes dizendo que tudo era um Xadrez 4D, uma estratégia do mais elevado grau por parte do governo. É óbvio que esta gente, inclusive muitos dos influenciadores digitais bolsonaristas que assim o fizeram, não possuíam a mínima capacidade de julgar as coisas, a mínima capacidade de realizar uma análise sobre o que acontecera, tudo o que fizeram e continuam a fazer até esta presente data configura uma torcida, tudo não passa de uma torcida cega e tola. Os torcedores bolsonaristas negam qualquer tolice do governo, e desculpa-lhe qualquer tomada irremediável de decisão porque “ele é de direita e é o único conservador”, esquecendo que existe uma distância entre as palavras ditas e os atos realizados, a pessoa é tanto mais realista quando sabe distinguir o que pode ou não fazer, e Bolsonaro parece ser este tipo de homem que não sabe o que fazer até que alguém lhe fale ao ouvido que aquilo que ele berra ao vento não será feito e assim ele simplesmente se cala e deixa que as indagações façam do seu público demasiadamente viciado e politizado. Esta torcida míope terá como consequência a derrubada do próprio governo, porque já não é possível mais críticas sem que seja taxado de “traidor, vendido ou algo parecido”. Política é a arte do possível, dizem eles, sim é a arte do possível, mas também é a Ciência do Bem Comum, isto quer dizer que para a pessoa que está no poder é de seu dever buscar conhecimento amplo e profundo sobre a situação antes de tomar as decisões para que melhor alcancem o objetivo do bem comum. Bolsonaro não parece saber disto, pois ele cede naquilo que não deveria ceder, e segura firme naquilo que poderia ceder. Se ele é xingado por jornalista, ele não tolera, mas se é ofendido e depreciado por pessoas que estejam na nossa suprema corte, ele se cala e consente. A pergunta que faço é: Bolsonaro sabia que não poderia fazer nada após o dia 7 de Setembro? Se sim, ele enganou o povo ao fazer convocação, foi extremamente irresponsável. Se não, ele foi burro e ingênuo, pois deveria saber qual é o seu horizonte de ação política real. Aqueles que querem justificá-lo dizem que ele está amarrado e não pode fazer nada contra o “Sistema”, mas esquecem que quem encabeça o “sistema” é o presidente da república. Em todo país as pessoas não vão atrás do juiz da suprema corte quando querem encontrar a máxima autoridade da nação, eles vão atrás ou do Chefe de Estado e/ou de Governo, que pode ser um presidente, primeiro-ministro, chanceler, rei, imperador, etc; Mas no nosso querido Brasil, a máxima autoridade deixou de ser a partir de 2019, sem nenhum projeto de lei aprovado no Congresso, os 11 ministros do stf (assim, minúsculo mesmo). Me perguntarão então o que fazer para resolver isto, eu responderei que não sei, deveria ficar calado? Deveria, mas há algo que eu posso denunciar e é isto; quem é a máxima autoridade do Brasil ainda é o Presidente da República e este é pela Constituição o Chefe de Estado e Chefe de Governo, é também o Chefe das Forças Armadas. Se as Forças Armadas brasileiras devem obediência ao presidente da república durante o seu mandato, por que Bolsonaro não usa a força da mesma para impor ordem aos demais poderes que já ultrapassaram há muito o limite da ilegalidade, já que a legalidade nem se dá mais para exigir? Eu responderei o porquê, ele e o pessoal que o assessora muito provavelmente pensa, como ele mesmo já deu a entender numa ‘live’ na semana do famigerado Dia 7, que não poderia causar uma ruptura institucional (pensando na economia na verdade) e nem “cortar cabeças” de ninguém como muitos de seus apoiadores gostariam. Ora, agora aplicar a lei é romper com as instituições? Aplicar a lei da ordem que a Constituição garante contra o abuso de outras autoridades é promover a desordem e a “desarmonia” entre os Poderes? Está mais do que claro que este governante não possui a noção de como atuar desde que entrou.


Mas eu quero fazer uma análise mais profunda, em vez de parecer apenas xingar o único presidente que temos sem o qual o Haddad estaria no poder.


Por volta de 2017 e 2018, tempos em que a campanha pró-Bolsonaro ganhou conotações gigantes por todo o país, foi sob a auréola de “Contra o Sistema, Contra o Toma lá dá cá, Contra o Comunismo-Socialismo, Contra o PT e a Corrupção” e principalmente sob o lema de “Deus, Pátria e Família” e seu slogan “Brasil acima de Tudo e Deus acima de Todos”, ou seja, foi por adotar os valores e bandeiras do Movimento Conservador Brasileiro que a esta altura era ainda ignorado por toda a classe falante deste país como tendo alguma relevância que ele ganhou a famigerada honra de ser o “candidato conservador”, o que o levou a ser taxado de “extrema-direita”, como se houvesse alguma extrema-direita genocida aos moldes como a extrema-esquerda teve desde que levara este nome. Bolsonaro foi, contra a vontade dos esquerdistas, contra os liberais, contra a vontade de uma massa de católicos da teologia pseudolibertadora e evangélicos de massa, contra a mídia, contra tudo e todos, eleito pelo voto conservador. O voto conservador não foi tanto por este nome, mas por causa das suas bandeiras que são as bandeiras do povo brasileiro em comum. Ao adotar o discurso conservador, Bolsonaro radicalizou a interrupção da evolução de todo um sistema onde liberais e esquerdistas viviam em paz.


Mas a composição do projeto de Governo Bolsonaro contava com aliados das seguintes alas: Militares, Evangélicos, Liberais e Conservadores. Todos os outros grupos e movimentos de ordem política eram absolutamente alheios ao hipotético Governo Bolsonaro. No entanto este foi eleito. Ao ser eleito, porém, Bolsonaro atraiu para si não membros das 4 já ditas alas, mas 5, e estas com pesos muito diferentes de atuação, ficando em primeiríssimo lugar a ala militar, ala esta da qual o ex-deputado fora membro e construíra carreira. As 5 alas são: Militares em primeiro; o famigerado “Centrão”, composto pela gama de partidos políticos responsáveis pelo já denunciado “toma lá dá cá” em segundo; os evangélicos; os liberais e os conservadores em menor peso. Estes dois últimos perderam muito espaço com a entrada de pessoal do Centrão, mas sem dúvida que o mais prejudicado foi a ala conservadora, também chamada de “ideológica” do governo, pois como já dito, foi a responsável por fazer Bolsonaro ser eleito presidente, ou seja, a ala mais importante foi a dada menos importância, e uma ala que era radicalmente contra Bolsonaro, porém oportunista, ganhou tremendo espaço quase equivalente ao dos militares, que é a ala do Centrão.


Mesmo com toda a perda de espaços, os liberais e conservadores ficaram com importantes espaços no governo como por exemplo o Paulo Guedes, o mais importante e capaz dos ministros bolsonaristas, que ficou com a Economia (ex-Fazenda); em certo modo podemos considerar também a Ciência e Tecnologia de Marcos Pontes; os conservadores ficaram com a Educação (Abrahan Weintraub e Ricardo Vélez), Cultura (como Secretaria) e Meio Ambiente (Ricardo Sales) e a importantíssima Relações Exteriores (Ernesto Araújo, o mais inteligente ministro de Bolsonaro em termos de geopolítica, guerra cultural e sociologia). Porém, com o passar destes três anos, foi a Ala Ideológica a mais combatida por setores internos do governo ou pelos partidos políticos, do Congresso Nacional, STF, e por toda a Mídia, dessa forma, todos os cargos que estavam nas mãos dos conservadores foram sendo derrubados um por um, primeiro o Ministério da Educação, Cultura, Relações Exteriores e por fim o do Meio Ambiente. A Ala Liberal também perdeu espaço porque a pasta de Paulo Guedes perdeu o seu segundo escalão. Outros soldados de cunho conservador, ainda que não diretamente ideológicos, foram também sendo minados e derrubados. Por outro lado, foi a ala do Centrão a que mais cresceu, inclusive à custa de algumas cabeças militares.


Atualmente o Governo Bolsonaro é constituído basicamente de duas alas principais: Militares e Centrão. As alas Evangélica (esta sim consideraria ideológica) e a Liberal diminuíram a influência e se tornaram secundárias às duas primeiras. Mas a dita Ala Conservadora foi completamente dizimada do Governo Bolsonaro por força de inimigos internos e externos, sendo a única coisa que resta de conservadorismo é propriamente o “mito” em torno do Governo Bolsonaro.


Os Conservadores ganharam muito da inimizade de setores importantes dos militaristas que compreendem uma parte importante do atual governo, e outra parte desta ala militarista é a favor de um pragmatismo político e de um interesse de cunho liberal, por isto que a ala liberal não sofreu prejuízos ideológicos, pois ainda possuem o apoio dos militaristas em grande parte. A ala evangélica bolsonarista é adepta de uma ideologia muito próxima da Neocon, e também tende perfeitamente a adotar a política econômica liberal dos liberais e dos militares, assim sendo a união das três alas casa-se com muita força. A ala evangélica bolsonarista compreende uma parcela muito importante do povo e não foca muito em economia, apesar de serem liberais clássicos em grande parte, eles na verdade acreditam numa mística da supremacia israelense e na superioridade organizacional anglossaxônica da qual eu chamo de Movimento Pró-Anglossaxonista, e que em nada tem a ver com o Movimento Conservador, mas que atualmente possui uma grande confluência em alguns aspectos, o que leva ainda a muitos dos chamados “conservadores” a pensarem que o governo ainda é Conservador por possuir apoio dessa classe ideológica pró-anglossaxonista, pró-Israel, próxima dos neocons, alimentada pela mística neopentecostal em grande parte, originada ou alimentada do Protestantismo Norte-americano. A investigação sobre o Movimento Pró-Anglossaxonista Brasileiro merece uma análise à parte, mas escrevi um artigo no ano passado, 2020, em que discuto o Pró-Anglossaxonismo, o Artigo é: Crítica ao Pró-Anglossaxonismo Brasileiro (https://www.geopolis.com.br//post/crítica-ao-pró-anglossaxonismo-brasileiro), nele esboço preliminarmente as minhas críticas ao mesmo.


Vendo tudo isto, é difícil avaliarmos e dizermos de boca cheia que o Governo Bolsonaro é Conservador, podemos dizer que nasceu do Conservadorismo, ganhou espaço e este possui um caráter mítico em torno de seu governo, mas concretamente o governo deixou de ser ideologicamente e politicamente conservador. Todos os atuantes deste movimento político nascente nos últimos anos e que fizeram parte de seu governo desde antes das eleições foram expulsos ou calados. Atualmente a perseguição maior contra pessoas, empresas e grupos de apoio ao Governo Bolsonaro são de pessoas de fora do mesmo Governo e que são ativistas do Movimento Conservador. As demais alas: Militaristas, Evangélicos da Teologia da Prosperidade, Liberais e sobretudo o chamado Centrão são os que comandam a cadeia de ações, lembrando que estes três grupos casam-se entre si e ainda podem sobreviver de alguma maneira dentro da Guerra Cultural Esquerdista, mas todos estes grupos têm em comum a contrariedade ao “radicalismo” político Conservador, representado sobretudo em figuras como Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, homens que segundo o Estamento Brasileiro fomentam a discórdia entre os Poderes.


Hoje em dia já há uma mescla destas outras alas bolsonaristas que em nada possuem de conservadoras, exceto alguns valores relativamente abstratos e de cartilha, ao contrário, são contra os conservadores, a ponto de acusarem conservadores de conspirarem contra o Governo, de fomentarem a divisão da mal letrada Direita, e dar forças para o inimigo; as vítimas estão virando os vilões para muitos bolsonaristas não conservadores, o curioso é que muitos dos conservadores caíram neste mesmo discurso de não dividir a Direita e nem criticar o Governo. Mas tudo isto merece uma análise mais aprofundada sobre o futuro do Conservadorismo e do Bolsonarismo que cada vez mais se separam irremediavelmente.

Daqui para frente, poderemos assistir a uma maior perseguição contra os conservadores, sobretudo os contrarrevolucionários, considerados os mais radicais, e o próprio Bolsonarismo tomará dois caminhos para sobreviver: Deixará de ser cada vez menos conservador ideologicamente e politicamente, cedendo ao Estamento Brasileiro (Centrão, Esquerda, Grande Mídia), ou será expurgado na próxima eleição não chegando a tomar o poder. Veja bem, muitos bolsonaristas dizem que Bolsonaro ganhará as eleições no ano que vem e não outro, porque ele tem muita popularidade e muito apoio, isto é real, porém, esquecem que quem controla o Sistema, controla o Poder, e o Sistema é radicalmente contra qualquer mudança que o afete, isto significa que ou o Bolsonarismo se afaste cada vez mais do Conservadorismo ou será impedido de obter o poder mesmo que ganhe as eleições. Preliminarmente percebo que o Bolsonarismo está adotando a política da sobrevivência política por meio da maior aproximação com o Centrão que é sinônimo de Estamento Burocrático. O próprio Jair Bolsonaro declarou-se como sendo de Centrão, ele não está mentindo, está contando a verdade de sempre e que negara quando quis conquistar os eleitores conservadores, não diria por má-fé, mas por interesse eleitoreiro, Bolsonaro não tem muita familiaridade e conhecimento sobre o que é conservadorismo, o que ele na verdade tem são valores cristãos, ninguém é necessariamente conservador por isto.


Para o Movimento Conservador, o conselho que eu daria, se pudesse, não é outro que não o que já foi dado; cuidar da Guerra Cultural, e Guerra Cultural quer dizer livros, quer dizer assumir responsabilidade pela sua comunidade local, sua família, sua igreja. Nada de se interessar e cuidar da política nacional, na verdade é loucura ter milhões de brasileiros politizados como se estivéssemos em plena campanha eleitoral o tempo todo para eleger o presidente da república. Brasília está distante, por mais que nos afete e nos convença do contrário, mas a escola do seu bairro é mais importante cuidar do que ela, a educação dos filhos e de sua cidade é mais importante do que ela, gerar beleza no seu ambiente de trabalho, familiar, igreja e cidade ou comunidade é mais importante do que ela. Estudar, se formar, entender e ajudar o próximo é mais importante do que ela. Por isto que devemos diminuir a politicagem, por mais que queiramos nos meter, e cuidar de solapar a revolução que está próxima de nós.


Esta análise sobre o Governo Bolsonaro significa o meu particular afastamento das questões de Política do Dia, e concentrar-me-ei na análise de conjunturas de importância de longo prazo e abrangência nacional e civilizacional.


De acordo com Olavo de Carvalho, o estado da Ciência Política atual está no mesmo estado em que se encontrava a Biologia até o final do século XIX, isto é, na coleta de dados e fatos trabalhados concretamente, um por um, dando nomes às coisas, fenômenos e objetos. Nisto está concentrado todo o contexto do porquê aparentemente seu trabalho se volta muito a descrever as miudezas do tempo que transcorre, é que na verdade o Estudo de Casos é a única forma concreta de colecionar dados relevantes e identificando após um volume imenso deles os parâmetros mais ou menos identificáveis. Ora, sabendo disto e adotando tal método como a proposta para este trabalho, sem no entanto deixar de buscar dar a profundidade macro visionária quando conveniente, buscamos fazer o mesmo, colecionando dados e informações sobre a situação em que vivemos não só como país e humanidade, também como indivíduos dotados de uma capacidade própria de pensar e dizer as coisas. Não podemos nos escusar de buscar a verdade e declarar com a nossa voz e honestidade intelectual a primazia do conhecimento individual, a preservação da inteligência humana que sob os auspícios do Espírito, é a segurança da Civilização.

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