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Interpretação da Guerra Russo-ucraniana

Atualizado: 12 de fev. de 2023



Interpretação da Guerra Russo-ucraniana


Como disse Huntington, a Ucrânia está num ponto de tensão entre duas civilizações: eslava e "ocidental"[1]. Mas isto na verdade é muito simplista de se dizer, a bem da verdade é: a Ucrânia é o coração da civilização eslava, da qual a Rússia quer conquistar para si, para formar o seu império universal eslavo[2]. A ideologia eurasiana, moderna, é uma desculpa atual para realizar esta intenção de longa data presente na intelectualidade e classe política russas que tem o Ocidente moderno como adversário[3]. Mas Huntington está certo quando diz que nações tendem a se aliar com aquelas com maior afinidade cultural, de fato, são os próprios povos ucranianos (de dentro da Ucrânia) que lutam há anos, desde que a Ucrânia se tornou num país independente, após o fim da União Soviética, para se unirem à Rússia e formar um só estado político, enquanto outros grupos, querem se unir à União Europeia para melhorar sua situação econômica. De dentro da Rússia, também há povos que querem a separação da Federação Russa até os dias de hoje, por serem muçulmanos, o que reforça a ideia de afinidade cultural[4]. Esta guerra entre Rússia e Ucrânia foi incentivada por dois grupos políticos muito distintos: os chamados eurasianistas que defendem uma guerra dos continentes[5], e a criação de um mundo multipolar civilizacional, e outro que deseja criar uma ordem mundial voltada para uma aliança corporativista-estatal, encabeçada pelo Fórum Econômico Mundial, com os comandantes de multinacionais do Vale do Silício e das finanças da Quinta Avenida e Cidade de Londres[6].


Os russos, ao longo do tempo, tendem a diferenciar os conceitos de Etnos (Ethnoss), Narod (Povo) e Natsiya (Nação). Esta diferenciação pode ser traduzida respectivamente por etnia ou uma comunidade com história e origens em comum; o Povo seria uma comunidade que compartilha valores culturais, históricos, linguísticos, religiosos, espirituais em comum; este povo está organizado em uma hierarquia, onde paira uma natural aristocracia e nobreza, o povo das classes mais baixas e no topo está o rei; trata-se de uma comunidade completa humana, uma pólis de fato. A Nação seria apenas uma construção moderna de sociedades maçônicas e revolucionárias que visavam a separação desta visão hierárquica da sociedade, e que é administrada simplesmente por interesses de um grupo, os burgueses, para dominar o povo e construir, mediante um falso nacionalismo, uma narrativa que vise dar vida própria às instituições que sustentam a nação liberal. Trata-se, portanto, não de uma "nação", qual se entende em língua portuguesa, mas de Estado. Os russos eurasianos, para tanto, diferenciam o Estado Moderno como uma criação artificial do Ocidente para criar este divórcio entre o antigo povo, com seus valores, e cujas instituições são acidentais, para o Estado Nacional contemporâneo que vive de instituições que esmagam o indivíduo perante uma coletividade impessoal[7].


Para a atual liderança eurasiana, a Federação Russa é um instrumento do Povo Russo, e este é o povo eslavo, o qual inclui ucranianos, bielorrussos, iugoslavos, etc. O Povo Russo é o que existe de perene, e os estados políticos que nele existem são transitórios. Este povo também é "trino" e espiritual, donde não ser possível uma divisão entre eles, a ideia de guerra étnica e nacionalista é, para os eurasianos, uma criação sobretudo de setores da elite ucraniana, de tempos em tempos recriando a história da mesma, que segundo os eurasianos, nunca esteve de fato separada de fato da Rússia, e é uma só história com ela, porque a Ucrânia não é mais do que uma parte da Mãe Rússia, sendo os ucranianos os "Pequenos Russos", não haveria porque haver ou forjar-se uma divisão entre eles[8].Não é, para tanto, supreendente que a Revolução Comunista em 1917 tivesse uma roupagem eminentemente nacionalista posteriormente, inclusive havendo críticas severas à "modernização" à guisa Ocidental do Império Russo pelos Romanov. A Revolução Russa falava, supostamente, para o povo russo, a tal ponto de Alexandre Dugin afirmar que, o Comunismo Soviético servia ao exército russo, e este, ao Comunismo[9], porque ambos serviam a uma só vez ao povo russo, do qual o comunismo era apenas a roupa momentânea de que servia, uma roupa suja, da qual a Rússia moderna apenas se desfez. Atualmente esta roupa é o eurasianismo, com o qual busca a união dos eslavos em torno de uma Mãe Rússia. Talvez, é o que está por trás das ideologias o que explica como que elas adquirem tal força de ação global na Rússia, porque nenhuma raça é tão voltada para a geopolítica estratégica quanto sua intelectualidade.


Para a cultura russa eurasiana, russófila, pan-eslavista, e para Dugin, de maneira mais particular, o Estado Político russo, em separado e per si, não existe, o que existe é o Povo Russo, e este é o intermediador, o portador de uma salvação escatológica[10]. O Povo Russo, como todo povo, possui uma missão e uma vocação, esta se cumpre pela preservação destes laços históricos, linguísticos, religiosos, etc. Este povo é trino: Grandes Russos, Pequenos Russos e Brancos Russos (Bielorrusos). O Império, para a cultura russo-eurasiana, é a expressão máxima de um povo para a justa ordenação e preservação de sua índole missional. A visão russa de seu estado político é o Império, e este é Escathon, quer dizer, é a muralha que impede o avanço de uma corrente anticrística, que a Rússia vê atualmente personificada pelo Liberalismo Ocidental!


Mas essa visão escatológica, e de ver a si mesma como muralha, não é uma visão autóctone da Rússia, mas advém de sua visão de si mesma como a Terceira Roma, quer dizer, a herdeira do Império Bizantino, que por sua vez o é de Roma. Os antigos Padres da Igreja viam o Império Romano como o Escathon, e interpretavam que no fim da história, quando do advento do anticristo, seria o Escathon o grande impeditivo de seu poder até sua retirada, portanto, a missão russa é resguardar a tradição cristã e dos povos contra o avanço de uma corrente anticrística que é liberal ocidental! Daí se entende o porque a Rússia usou da "desmilitarização ucraniana" como meio de retirar um mal que eles consideram muito mais profundo do que a simples expansão da OTAN e Liberalismo num país vizinho; é porque a Ucrânia, como um Estado Nacional artificial, criado para um nacionalismo inexistente, visa somente a destruição da cultura eslava ucraniana, para englobá-la num sistema liberal americano alheio à missão histórica russa. Em suma, é a sobrevivência do povo russo, quer dizer, da cultura eslava, que possui uma missão sagrada, a de Terceira Roma, contra a corrente moderna do espírito anticrístico, representado pelo liberalismo ocidental.


Russos, ucranianos e bielorrussos são herdeiros da antiga Rus', que era o maior estado da Europa. As tribos eslavas e outras em uma vasta área - de Ladoga, Novgorod, Pskov a Kyiv e Chernigov - estavam unidas por um idioma (agora o chamamos de russo antigo), laços econômicos, o poder dos príncipes da dinastia Rurik. E depois do batismo de Rus' - e uma fé ortodoxa. A escolha espiritual de São Vladimir, que era Novgorod e o grande príncipe de Kyiv, e hoje determina em grande parte nosso relacionamento.[11]

A união do Ocidente, quer dizer, Europa e EUA pela defesa de uma "democracia" e livre direito da Ucrânia para participar de uma aliança liberal, fomentou por parte da Rússia a tomada da ideologia eurasianista, e o ressurgimento do Império Russo, na busca pelo Pan-eslavismo e criação do Império Universal Eslavo.


Eles atingiram nossa unidade espiritual. Como na época do Grão-Ducado da Lituânia, eles iniciaram uma nova divisão da Igreja. Sem prejuízo do que os valores políticos são retraçados, o governo secular interveio grosseiramente na vida da Igreja e trouxe o direito à divisão, ao massacre de templos, ao espancamento de padres e chents. Ganhar ampla autonomia da Igreja Ortodoxa Ucraniana, enquanto mantém a unidade espiritual com o Patriarcado de Moscou é categoricamente não soberano...[12]

Assim, a guerra russo-ucraniana envolve muito mais do que interesses econômicos, sociais, ou de disputa de poder. Embora nela paire as diferenças culturais que Huntington já arguira em O Choque de Civilizações, vemos que a diferença maior está na compreensão dos agentes diplomáticos dos estados modernos. Quero dizer que, são as correntes ideológicas diplomáticas que nos ajudam a compreender as ações perpetradas por lideranças políticas. Não é de hoje que a tensão diplomática entre União Europeia, Ucrânia como epicentro, e Rússia vem se desdobrando e se agravando, pois desde 2014, houve um processo acelerado de queda de braço entre as duas superpotências. É dito que a comunidade diplomática ocidental, toda ela serviçal do Fórum Econômico Mundial, vem procurando arrebatar os espaços que por ora são disputáveis no campo geopolítico global: América Latina, Europa Oriental, África, Oriente Médio, Índia, Sudeste Asiático. Dessa forma, a Ucrânia está ideologicamente dividida entre dois esquemas de poder muito bem definidos, mas que se acobertam por trás da cortina diplomática.


Estamos honrados com a língua e as tradições ucranianas. Até a morte dos ucranianos, torne seu estado livre, seguro e próspero. Gritando que a soberania correta da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia. Nossos laços espirituais, humanos, civilizados foram formados ao longo de um século, descendo às mesmas voltas, guarnecidos de fortes vitórias, conquistas e vitórias. Nossa controvérsia é passada de geração em geração. Vaughn está no coração, na memória das pessoas, como viver na Rússia e na Ucrânia modernas, em laços de sangue, como unir milhões de nossas famílias...[13]

Ao menos a diplomacia ocidental revelou que a opinião dos intelectuais russos modernos, quanto a um interesse "liberal e democrático", disfarçado de caridade a um povo, não está muito longe da verdade: o que eles querem não é defender a Ucrânia, mas apenas assaltar as instituições impessoais ucranianas, usá-las em nome do povo ucraniano. Querem assaltar as instituições e o próprio Estado da Ucrânia como assaltaram os dos EUA, como assaltaram a Alemanha, como assaltaram o Reino Unido, como assaltaram o Brasil. Mas este tipo de assalto, e de discurso conseguiu inaugurar um novo tipo de comportamento diplomático, que a bem da verdade, não é tão novo assim, foi usado na Alemanha, para unificar as elites e a opinião pública para destruir a Alemanha (me refiro aos civis). Está sendo usado agora contra a Rússia e Ucrânia para destruir ambos os países.


Por outro lado, não podemos fingir não ver que para a atual intelectualidade russa, o que eles chamam de Povo Russo é o que eles atribuem a uma história espiritual que a Rússia tem de cumprir, e esta está encarnada no "Império", que quer dizer para o fato concreto atual ser Putin a encarnação ideal do Estado e do Povo Russo, junto com seus interesses vocacionais. Em suma, a natureza desta guerra é ideológica e não socioeconômica.


Daí advém a urgência do Pan-Eslavismo como modus operandi ideal do atual Estado Russo e de Putin para promover a militarização de seu país, desmilitarização do vizinho, e criação de blocos de poder arrojados globalmente, que reconfigure a Nova Ordem Mundial, atualmente unipolar, segundo eles. É importante destacar que esta multipolaridade e unipolaridade é vista pela Rússia do mesmo modo que Huntington vê o protagonismo dos estados para a diplomacia política, assim, a multipolaridade é um ideal eurasiano para se ter vários estados fortes que compartilhem o poder político da Ordem Mundial, já a unipolaridade é o protagonismo estadunidense em manter o seu poder; é daí que vem então a estratégia da diplomacia russa de buscar todos os não-estadunidenses como aliados, para peitar sua soberania e criar um mundo multipolar. Desta visão, já mostramos que não possui fundamento, visto serem vários os grupos de poder global atuantes, e nenhum deles se resume a um estado político apenas, muito menos Estados Unidos, e cuja finalidade seja a criação de uma unipolaridade. Há sim, vários grupos de poder intentando um protagonismo global diplomático, os eurasianos com sua nova roupagem pan-eslavista são um deles, e o Ocidente com o discurso liberal de democracia, por meio dos Democratas, Liberals e Corporativistas são outros, e não usam mais do que verborragia diplomática de grupos para realizarem suas ações, em posse dos seus estados, nenhum deles comprometido com o bem-comum de seus países, e muito menos com a verdade da informação.


Seria importante falarmos sobre a vivacidade com que o Pan-eslavismo ganhou hoje por meio do Eurasianismo e da ideologia multipolar. Hannah Arendt foi uma das debatedoras sobre o assunto e abordou-o, interpretando-o como um dos fatores para o totalitarismo do século XX. E mediante a sua obra "Origens do Totalitarismo", podemos ver a sua ideia de como projetos unificadores de raça culminaram nos grandes conflitos do século XX[14]. Abaixo, segue trecho de uma análise de debate entre ela e Eric Voegelin, ambos expoentes estudiosos dos totalitarismos do século XX, e que focou no contraste de ideias de como surgiram os totalitarismos do século XX.

O antissemitismo começa a se impregnar na Europa a partir da relação dos judeus com o Estado-nação. Com o surgimento dos Estados-nações, indivíduos judeus ascenderam economicamente e passaram a ser os financiadores dos negócios e transações do Estado. Com o avanço dessa configuração geopolítica, pequenos grupos de judeus ricos passaram a ser identificados com o próprio Estado. Segundo Arendt, o antissemitismo impregnou aos poucos todas as classes sociais na medida em que elas entravam em conflito com o Estado. Os judeus eram o único grupo que parecia representar o Estado. (ARENDT, 2012)
Mas antes da elaboração de ideologias, o antissemitismo era mero preconceito. É a partir dos movimentos de unificação étnicos que o antissemitismo deixa de ser apenas um preconceito e se torna parte de uma ideologia.(ARENDT, 2012) Os movimentos de unificação anteciparam o racismo ideológico presente no totalitarismo. Havia uma centralidade no povo, visto como tendo uma origem divina e, portanto, sendo superior a qualquer partido ou organização política. O racismo alemão caminhou junto com o sentimento nacionalista alemão, propagado pelos movimentos de unificação étnicos como o pangermanismo, sendo durante algum tempo quase que indistinguíveis. A ideologia racista na Alemanha surgiu em momento de tentativas de formar uma unidade nacional, não concretizada a partir de história e idioma comuns, mas a partir de uma pretensa ideia de raça única, não miscigenada. O pangermanismo, com o pan-eslavismo, foram intensificados pelo nacionalismo exacerbado do imperialismo do final do século XIX. Além de antecipar elementos sentimentais e intelectuais do totalitarismo, o imperialismo também inaugurou práticas como os campos de concentração. A diferença é que na época do imperialismo eles ainda não teriam a característica que tanto chocou Arendt, a da “fabricação de cadáveres” (ARENDT, 1994, p.14).[15] (grifos meus)

É categórico que tal observação de Arendt, proposto em Origens do Totalitarismo, revele precisamente a visão que os eurasianos possuem do Estado político atual, como mero instrumento espiritual de um povo, e no dizer eurasiano e russo: vocação escatológica. Parece que as ideologias serviram à intelectualidade russa como roupas servem a um homem ambicioso: são meros apetrechos que reforçam uma aparência que parece perene na história eslava: Ducado, Império, União Soviética, Federação Russa, Czarismo, Pan-Eslavismo, Comunismo, Eurasianismo.


Outro ponto a convergir com a avaliação de Arendt sobre o Pan-Eslavismo com o Eurasianismo atual, é a ideia de imperialismo continental, em voga nos escritos de Dugin, em a Guerra de Continentes, em que a história da humanidade e mesmo do século XX são compostos por uma disputa cosmológica entre Cartago, que contemporaneamente assumiu a forma de Estados Unidos e seu unipolarismo comerciante, e Eurásia, o Continente, terreno de esplendor espiritual e tradição[16]. No dizer dela mesma:

Pangermanistas e pan-eslavistas concordavam em que, vivendo em "Estados continentais" e sendo "povos continentais", tinham de procurar colônias no continente e expandir-se de modo geograficamente contínuo a partir de um determinado centro de poder; que contra "a idéia da Inglaterra — expressa nas palavras: Dominarei o mar — está a idéia da Rússia expressa nas palavras: Dominarei a terra"; e que, mais cedo ou mais tarde, a "tremenda superioridade da terra sobre o mar (...) e o significado maior do poder terrestre em relação ao poder marítimo" se tornariam evidentes. O imperialismo continental é mais importante quando comparado com o imperialismo de ultramar, porque o seu conceito de expansão é amalgamador, eliminando qualquer distância geográfica entre os métodos e instituições do colonizador e os do colonizado, de modo que não foi preciso haver efeito de bumerangue para que as suas conseqüências fossem sentidas em toda a Europa. O imperialismo continental de fato começa em casa.[17]

O que Arendt não parece convergir é sobre a natureza espiritual desta visão positiva do imperialismo continental, discordando de Eric Voegelin sobre a natureza dos totalitarismos do século XX, atribuindo-os quase como frutos do acaso, e negando que o Movimento Revolucionário Comunista, bem como o Positivismo e Liberalismo tenham influenciado ou mesmo encadeado a execução de tais projetos de poder.


Foi ainda mais pronunciada a influência dos movimentos unificadoras sobre os intelectuais — a intelligentsia russa, com apenas algumas exceções, era pan-eslava, e o pangermanismo começou na Áustria praticamente como um movimento estudantil. A principal diferença entre esses dois movimentos continentais e o imperialismo mais respeitável das nações ocidentais estava na falta de apoio capitalista; suas tentativas de expansão não foram nem podiam ser precedidas pela exportação de dinheiro supérfluo e homens supérfluos, porque a Europa centro-oriental onde agiam não oferecia oportunidades coloniais. Assim, não se encontram entre os seus líderes quase nenhum comerciante e somente poucos aventureiros. Por outro lado, há muitos membros das profissões liberais, professores e servidores públicos.[18]

Esta análise de Arendt resume o que é o Pan-eslavismo que chega aos nossos dias sob a forma de eurasianismo. Não existe, pois, um interesse propriamente econômico, mas eminentemente político e, de certa forma, espiritual, na política russa atual, o que reforça a ideia de contraposição entre duas civilizações de Huntington, porém abstraída do seu quadro realista, pois não são os estados agentes, mas grupos de poder estratégico específicos que usam destes estados para fomentar suas estratégias. No caso russo, os eurasianos tocam na questão nacional, mas a abordagem deles é muito diferente da que toca o Ocidente em sua visão de agentes políticos.


Essa é a diferença que há entre a visão russa das instituições do estado e a do Ocidente, pois aquele vê as instituições como instrumento de um povo, e este é um organismo vivo, dotado de existência própria e providencial, portanto, com uma missão a cumprir, que no caso russo é futurista e messiânica, e sua ação sobre a guerra russo-ucraniana tem forte apelo messiânico, que é a maior razão para o novo Pan-eslavismo em eminência; já para este, o ocidental, as instituições impessoais são a representação viva da democracia, podendo ser usadas contra indivíduos, grupos e mesmo contra uma nação inteira, porque para o Ocidente, as instituições e não as pessoas são a verdadeira nação, e quando se diz que devemos proteger a democracia, está a dizer somente defender as instituições que estes grupos controlam. Assim, no Ocidente, o Estado e o povo são duas coisas distintas, e somente o estado possui direitos, e aquele é defendido por meio da defesa deste. E toda a diplomacia institucional do Ocidente acontece nesta visão, já para a Rússia, o estado é instrumento de uma realização de um povo, que no caso russo é o imperial, e este império é a encarnação dos valores transcendentais russos, o que faz de seus líderes, e de seu exército, como que na encarnação da missão russa. Esta diferença substancial entre ambas diplomacias torna a ação de ambos, Ocidente e Rússia muito distinta e difícil de entender e acompanhar.


[1] Huntington, O Choque de Civilizações, página 36;

[2] Carrol Quigley, Trage and Hope; conceito de império universal aqui adotado é o dele: trata-se de uma nação ou poder político que vise englobar todos os territórios de uma civilização, tal como o Império do Japão englobou a civilização nipônica; China a civilização sínica, Índia, englobou todos os principados hindus.

[3] Como podemos arguir dos artigos de Vladimir Putin, Alexandre Dugin, Leonid Savin, Alexandre Bovdunov e outros eurasianos.

[4] Caso da República da Chechênia

[5] Alexandre Dugin, A Guerra de Continentes

[6] Manifesto de Davos 2020

[7] ETHNOS, POVO, NAÇÃO COMO CATEGORIAS ETNOSSOCIOLÓGICAS, https://www.geopolitika.ru/article/etnos-narod-naciya-kak-etnosociologicheskie-kategorii

[8] Artigo de Vladimir Putin sobre a História Russo-ucraniana: "Eles atingiram nossa unidade espiritual. Como na época do Grão-Ducado da Lituânia, eles iniciaram uma nova divisão da igreja. Sem prejuízo do que os valores políticos são retraçados, o governo secular interveio grosseiramente na vida da igreja e trouxe o direito à divisão, ao massacre de templos, ao espancamento de padres e chents. Ganhar ampla autonomia da Igreja Ortodoxa Ucraniana enquanto mantém a unidade espiritual com o Patriarcado de Moscou é categoricamente não soberano. Tsey visível, rico símbolo de nossa disputa, ele precisa disso pelo preço da destruição."

[9] A Guerra de Continentes;

[10] [8] ETHNOS, POVO, NAÇÃO COMO CATEGORIAS ETNOSSOCIOLÓGICAS, https://www.geopolitika.ru/article/etnos-narod-naciya-kak-etnosociologicheskie-kategorii

"Não é por acaso que Putin confirma esta tese apelando à “unidade histórica”. É este fator - uma única história e uma única missão histórica - que é o mais essencial para o conceito de "povo". No curso desse retorno, a própria Rússia lembra que é um Império - ela realiza a missão do Catechon em enfrentar o mal escatológico do Ocidente. Os grupos étnicos da Rússia e dos russos participam da causa comum da libertação da Novorossia e da Ucrânia, unindo-se, mas não à custa da perda da identidade étnica ou da identidade (não assimilando uma “nação”)."

[11] http://kremlin.ru/events/president/news/66181 Artigo de Vladimir Putin "Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos", 2021;

[12] Idem;

[13] Idem;

[14] Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo;

[15] Theo Magalhães Villaça, Unidos por aversões em comum: Um debate entra Hannah Arendt e Eric Voegelin, Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUC-Rio. Página 30

[16] Dugin, A Guerra de Continentes;

[17] Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, página 253

[18] IDem, página 255

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