Brasilidade e Cristandade: Analogias e “solução” para os conflitos do mundo contemporâneo
- Thiarles Sosi
- 8 de out. de 2023
- 11 min de leitura
Atualizado: 15 de out. de 2023
Brasilidade e Cristandade: Analogias e “solução” para os conflitos do mundo contemporâneo
Por Thiarles Soares;

Brasilidade e Cristandade:
Analogias e “solução” para os conflitos do mundo contemporâneo
Por Thiarles Soares;
Fracasso da ONU e Cia
Nos últimos anos, as instituições do mundo contemporâneo, em prol de uma diplomacia de “soberania e respeito aos direitos humanos”, se mostraram não mais que falácia midiática. A grande mídia é a única a sustentar esta lenda urbana das Nações Unidas. Desde que a ONU e outras instituições foram impostas às nações, houve tantas guerras como sempre houvera desde que o mundo é mundo: Coreia, China, Vietnã, Nicarágua, Iraque, Kuwait, Sudão do Sul, Síria, Ucrânia, etc.; só que a existência de órgãos como ONU, OMS, Bruxelas, Corte de Haia, entre outros órgãos internacionais, só foram criados para trazer a falsa ideia de estabilidade, ou falsa paz ao mundo contemporâneo. Também os EUA, encarregados de serem a polícia do mundo, com sua falsa Pax Americana, foram incapazes de dialogar em paz com cada um dos países, com os quais travaram guerras violentíssimas, contra os ditames da própria ONU, que eles ajudaram a soerguer. A verdade é que, essas instituições internacionais só existem para ocupar o lugar de uma outra instituição, da qual elas vieram, e, procuraram minar sua força e credibilidade ao longo do tempo, até a sua completa ruína: trata-se da boa e velha Cristandade, liderada por duas espadas: a política e a religiosa, ou temporal e espiritual. A primeira era representada pelo Império, a segunda, pela Igreja Católica. Os incautos das nações acusam a Igreja de ser mãe de conflitos, os quais ela ajudou a intermediar pela solução e paz, e é muito provável que esses filhos desgraçados que maldizem a Igreja Católica, só vivem e existem, porque a Igreja defendera seus antepassados de viverem e existirem, não obstante os vários conflitos que houve durante o caminho1.
A Cristandade foi um esforço de pacificação de civilizações inteiras, em torno de um eixo comum, num único evangelho e valores universais. Dessa forma, ela unificava povos distintos que tinham visões e interesses completamente diferentes entre si. Sendo todas as nações católicas, não havia motivo para guerra de extermínio. Guerras houve, é verdade, e muitas, mas ao longo do tempo elas foram sendo minadas até o nível de se tornarem hediondas para o senso comum, e se hoje as pessoas, que se consideram de bem, condenam a guerra, isto se dá pela pacificação das nações que hoje chamamos de “Europa” pela Igreja Católica e pela Cristandade. Quase sempre as guerras cristãs medievais, ocorreram entre elites senhoriais, e, as populações pobres em nada tinham a ver com isto; alguns cavaleiros pobres, a fim de obterem riquezas e terras para si e para sua descendência, se aventuravam a lutar com um senhor feudal para lançar aquela ou aquela dinastia em tal terra. Mesmo assim, essas guerras não teriam credibilidade moral, e os conflitos seriam sem fim, haveria massacres atrás de massacres de nobres entre si, se a Igreja Católica não intermediasse e interviesse nesses confrontos, pondo fim a litígios.
Contudo, isso começou a mudar, quando surgiram os tais “estados nacionais”, onde o rei queria ter uma autoridade independente da Igreja Católica. O ápice desta disputa de poder desencadeou a Revolução da Reforma Protestante, que serviu para atender ao desejo dos príncipes (e o Protestantismo não teria obtido tal força, insolúvel, se não fosse pelo apoio massivo dos príncipes rebeldes)2. A partir de então, a união da Cristandade começou a ruir, porque nem todas as nações eram católicas, e a autoridade do Império (quer Sacro Império, ou Espanhas) começou a ruir numa ambiguidade a um só tempo laica e religiosa3. As demais nações católicas (as que restaram), cada vez mais autoritárias, passaram a seguir um catolicismo de conveniência para suas ideologias expansionistas, e é deste período, que os críticos da Igreja Católica acusam-na de ser conivente com os abusos dos regimes absolutistas, quando estes, já embebidos pelo espírito protestante das nações do Norte, já há muito que não obedeciam Roma em tudo, mas, o apelo moral da autoridade católica ainda permanecia sobre os fiéis. Foi assim, até o estouro da Revolução Francesa e do Império laicista Napoleônico, que impuseram os valores do subjetivismo religioso como liberdade para os povos europeus, retirando a pouca autoridade que restava à Igreja Católica, e tornando, pela primeira vez, a Cristandade numa instituição fictícia e sem poder de intermediação efetivo.
A partir de então, as guerras civis estouraram de volta por toda o Velho Continente, não mais envolvendo apenas nobres, mas exércitos e famílias, cidades e nações inteiras, e a dizimação também envolvendo populações de todas as classes. Sem a intermediação da Igreja Católica, e da Cristandade como instituição de fato, os conflitos aumentaram, se multiplicaram e se tornaram muito mais violentos e insolúveis, porque vingativos, e foram se apoiando cada vez mais nas ideologias nacionalistas, que entraram em voga no século XIX, e início do XX, levando ao surgimento das maiores guerras que o mundo já testemunhou, desde que o mundo é mundo. A necessidade de recriar instituições, para apaziguar os novos bárbaros europeus, levou ao nascimento da ONU e Cia.
Mas, como vimos, nem a ONU e nem as demais instituições diplomáticas internacionais conseguiram criar solução alguma para a paz no mundo, e hoje há mais ameaça de uma terceira guerra mundial, muito mais violenta entre as grandes potências, do que jamais houve, desde que foram criadas estas instituições, portanto, maiores ameaças de guerra desde que o mundo é mundo. Mas como isso é possível?
A maioria dos conflitos, que rondam o planeta hoje, são pelas mesmas razões que rondam desde sempre: diferenças de cosmovisão e civilização. A história nos ensina que povos diferentes para se entenderem, só com uma cosmovisão semelhante. Ora, o que o Cristianismo tentou oferecer às nações, durante dois mil anos, fora isto: cosmovisão e civilização comuns, e, aquele conjunto de povos portadores do cristianismo, e que a Igreja Católica forjara, unindo a filosofia grega, o direito romano, e a moral judaico-cristã, e que criara a Cristandade, como instituição sociopolítica apaziguadora de interesses nacionais e senhoriais, dando e criando o Império Cristão como solução aos seus povos, não com pacifismo, mas intermediando, com eficiência, a disputa de poderes e ambições humanas que, sempre existiram, isto é, a Europa Ocidental, estes foram os seus primeiros desertores, e criaram as piores guerras que nações pagãs não fizeram.
A Guerra de Hitler, por exemplo, não foi mais do que um nacionalismo pueril e mítico de uma Alemanha, contra outro nacionalismo mítico de uma Israel senhorial. Poucos admitirão esta verdade, mas a consequência de achar que o povo eleito é uma raça de sangue, e, é uma força cósmica com direito sobre a vida e a morte, levará necessariamente à guerra de extermínio, entre dois povos combatentes que contenham tais ideologias. O pior de tudo é que ninguém é poupado: militares e civis, políticos e apolíticos, crentes e não crentes, todos são inseridos na guerra, porque entra o critério de raça e conflito cosmogônico da verdadeira supremacia nacional. A Cristandade nunca se importou muito com raça, e as nacionalidades eram conceitos tão vagos, que uma pessoa podia ter a nacionalidade que quisesse, bastando mudar de feudo ou idioma, ou os dois. Hoje, para facilitar o critério de nacionalidade, basta ter nascido numa terra, e, já se é considerado como tal, assim, um filho de dois japoneses, que fala japonês, que tem cultura japonesa, ao nascer no Brasil, é considerado brasileiro; se fosse na Alemanha, seria alemão, se fosse na Turquia, seria turco, etc.; ou seja, o critério de nacionalidade, hoje, foi minado até o nível mais raso, e que era, até pouco tempo, apenas um acidente temporário, que não dizia a respeito de quase nada à identidade nacional de alguém, o nível de território4. Ora, o território era fruto do esforço de um povo que julgavam necessário aquele território para serem de acordo com sua natureza cosmovisionária: alguns voltados mais para a terra e agricultura, outros para o mar e para a pescaria, etc. Hoje, um filho de senegaleses será francês se nascer em Paris, e não importa que sua cultura não seja francesa nunca, e que ele nada tenha a ver com a história dos franceses, desde Clóvis I a Macron, o que importa é onde ele nasceu, e se colabora com a “democracia” francesa atual. Eis o que se transformou a identidade nacional francesa, e de quase todas as nações do planeta: território com uma instituição política, chamada Estado, em que tudo o que importa a uma nacionalidade: história, valores, língua, religião, soluções para paz entre as classes, e tudo o mais, sendo apenas acidentes, ou seja, esvaziando o que uma nação realmente é. Baseado neste critério de território, e de uma instituição, para a qual se elegem seus mandatários, qual diferença há entre França, China e Tonga? Nenhuma.
Brasilidade e Cristandade
Mas ainda há uma nação hoje, que ainda pode ser um exemplo para os demais estados nacionais, por ser fruto e, em grande medida, cópia, da instituição falida da Cristandade, se trata do Brasil.
A maioria das pessoas valorizam pouco a diversidade do Brasil, mas este país é o único que imita bem o que outrora foi a Cristandade, na Europa e no mundo cristão, católico, de até a sua derrocada final com a Revolução Napoleônica. Porque nele há e houve uma diversidade de grupos, quer étnicos, quer religiosos, quer cosmovisionários, quer econômicos, que se coadunaram numa empreitada comum de construir uma civilização nos trópicos5.
Esta diversidade no Brasil é tolerada não por intermédio de instituições políticas e econômicas (como a ONU e Cia), mas por intermédio de uma cultura comum que guia suas gentes em valores comuns: uma cultura baseada na humanidade e na igualdade da dignidade humana, advinda de sua filiação divina e racionalidade capaz de construir um futuro comum (ninguém vai negar esta dignidade, não importa nem mesmo de qual religião tenha ou venha). O senso de filiação divina e a miscigenação tão natural no Brasil, como não é em nenhum outro país (apesar de que na Europa, como já falara, isto nunca fora muito importante) foi criação da Igreja Católica, e dos seus evangelizadores, sobretudo dos jesuítas, que criaram o senso de pertença humana, social, eclesial, acima de quaisquer apetrechos culturais secundários6. No Brasil, até mesmo a língua ou a ascendência lusoameríndia, nunca foram critérios definitivos de identidade nacional7.
No meu livro “Bicentenário da Independência”8, exponho, de maneira mais concentrada, como a Igreja Católica e os jesuítas construíram o Brasil e todas as bases para a sua cultura, e que, graças a essas bases, foi possível o país continuar sendo o que é, sem uma desfiguração completa do que já era desde o começo: uma construção sociológica inconfundível, comparada somente aos grandes sistemas sociopolíticos do mundo: China, Índia, Rússia, e a já citada Cristandade. O Brasil é uma democracia étnica graças ao trabalho da Igreja Católica, e os conflitos de raça, quando há, se dá de maneira individual, por indivíduos com problemas psiquiátricos notórios, e que causam estranheza onipresente, justamente por ir contra a percepção geral da dignidade do outro9.
Assim como a Cristandade era a intermediadora de conflitos civilizacionais, e a Igreja Católica era sua mestra espiritual e moral, assim era o Brasil com a Brasilidade. A Brasilidade não é uma cultura, é um conjunto de culturas; não é uma civilização, mas um conjunto de civilizações (no amplo sentido da palavra civilização, que estão melhor trabalhados em outro estudo à parte). Assim como a Cristandade era uma baliza histórica para os povos ocidentais, uma faca de cortar excessos, que deve ser compreendida pelo seu efeito apaziguador a longo prazo (no prazo de gerações), e não nos conflitos isolados, assim também foi e é a Brasilidade, uma baliza de povos, que demoraram menos tempo (fruto da experiência católica no Ocidente por séculos), para se reconhecerem todos como brasileiros10, assim como os povos da Cristandade se reconheceram depois como “europeus”.
A Brasilidade, assim como a Cristandade, não é uma instituição estatal ou política de cima para baixo, como a ONU; é uma instituição moral que existe na cultura, criada pela Igreja Católica, para o Brasil, e evoluiu-se para Império por este caráter uno, que não ocorreu, por exemplo, na América Espanhola, cuja unidade moral estava na Espanha, e que não existia entre as colônias qualquer unidade entre si, embora exista a carência de tal império unificador até os dias de hoje (o Foro de São Paulo está aí para provar esta tendência)11. Mas assim como ocorreu com a Cristandade, o Brasil segue em velocidade crescente para o mesmo caminho que ela, apostatando da Igreja Católica, do idioma, das artes, dos fatos históricos, e tendo um patriotismo de território e de democracia eleitoral, se desfigura para ser como uma realidade sem menor diferença a qualquer outra instituição coletivista amorfa, sem moral, como a ONU é. Se a ruína da unidade espiritual de um povo, leva ao desaparecimento deste povo, com sua franca divisão interna, e esta é uma lei histórica, então o Brasil, mesmo sendo mais novo que a Europa, caminha nos mesmos passos que ela.
Eis que a solução para o Brasil e para o Mundo hoje são exatamente as mesmas do passado: resgatarem uma unidade mais profunda que o laicismo político. O Brasil deve voltar para a Brasilidade, e o Mundo para a Cristandade, que no fundo são as mesmas coisas.
Notas
1Como aquele Darcy Ribeiro, que condenava os padres católicos de chegarem ao Brasil, e, trazerem as doenças para os índios, esquecendo-se que se não fosse no século XVI, seria outro no futuro, ou ele negaria o papel que o próprio desenvolvimento histórico das epidemias tiveram para se descobrir curas e tratamentos delas no futuro? Ou seja, atribui-se um julgamento moral, com base num conhecimento científico inexistente.
2Devemos lembrar que a validade dos nobres e dos príncipes se dava por intermédio da Igreja Católica, ela era que concedia “poder” aos nobres, e o dever dos súditos de obedecê-los e respeitá-los. Com a Reforma Protestante, isto acabou, tendo consequências até para os países que ainda permaneceram católicos.
3O Regime do Padroado era uma espécie de submissão da Igreja Católica às nações católicas, garantindo uma inversão de autoridade da Igreja para os Reis, ou da religião aos litígios civis, e isto mudou significativamente as relações entre Roma e os próprios fiéis. Daí, o passo para o laicismo, de fato, tornou-se uma perna curta.
4Com exceção do senso de pátria. A pátria era o local de nascimento, a aldeia, a cidade, o feudo, ou no máximo a província, e prova disto são uma boa parte dos sobrenomes das pessoas basearem-se de origem toponímica e senhorial, reforçando origem nobre, e em menor parte de patronímicos e profissões.
5Ainda que esta civilização, como já dizia nos meus livros, se fizesse pela metade.
6Acima de língua inclusive, porque tanto na Cristandade, há quase tantas línguas quantos feudos houve. E no Brasil Colonial o fator religião católica sempre foi mais importante do que origem portuguesa ou falar português, inclusive porque a língua geral do Brasil era de origem tupi, o nheengatu, que é uma língua nativa brasileira, franca até meados do século XIX.
7O que me levou a investigar qual fosse a identidade nacional brasileira, em que ela estava baseada e alicerçada, sendo resultado parcial desta busca dois livros: Brasil, Essências e Símbolos; e Bicentenário da Independência. E o segundo, o link se encontra na próxima nota.
8Bicentenário da Independência, recomeço ou nada, Editora Nova Ágora, 1ª Edição, 2023. Pode ser encontrado no seguinte endereço web: https://www.amazon.com.br/Bicenten%C3%A1rio-Independ%C3%AAncia-Thiarles-Soares-Silva/dp/6526607357/ref=sr_1_1?keywords=9786526607350&qid=1696813327&sr=8-1
9Mas a academia universitária brasileira, com a ajuda da mídia, quer promover a ideia de que há um conflito étnico no Brasil, como ocorre nos países do Oriente Médio, ou como o apartheid sul-africano ou estadunidense de até poucas décadas atrás, coisa absolutamente ridícula, e, fruto da mera importação de conceitos sociológicos da Academia do Eixo Estados Unidos-Europa Ocidental ao país. Tais efeitos estão melhor abordados no Ensaio O Homem Perante o Estado.
10Para compreender este ponto, basta estudar os diversos movimentos ou “revoltas” separatistas que houve ao longo de todo o século XIX, tirando aquela lenda idiota de que o Brasil é um país pacífico, porque não, nunca foi, foram mais de quatrocentos anos de guerra, e todas elas relacionadas à identidade, mas a construção da Brasilidade, ou do que se considerava como tal, e de sua preservação histórica, sempre foram o foco da luta de diversos grupos. Portanto, o Brasil é resultado da intermediação destes conflitos, e que geraram até certo ponto a “memória comum” da história, não compartilhada igualmente, o que comprova, em tese, de que não há uma cultura brasileira desde de cima real, mas idealizada, fictícia. Tudo isto está exposto de maneira mais profunda no já citado livro Bicentenário da Independência.
11Uma evidência disto é ver como os povos da América Espanhola se veem como Latino-americanos, e os brasileiros, entre as gentes simples, mal sabem o que é América Latina, porque veem o Brasil como unidade territorial em si, e não reconhecem outra unidade identitária maior do que esta, com exceção do cristianismo (que é apátrida), e, em particular, do catolicismo (que é conatural ao senso de nacionalidade).



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