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Brasil, 523 anos…



Brasil, 523 anos…

Não adianta a cultura brasileira querer olhar apenas para o seu próprio umbigo tentando enxergar os defeitos, tão pouco ficar invejando outras nações que superaram seus defeitos históricos, bastar-nos-á seguir o exemplo do esforço de Olavo e fazermos nós o mesmo. Começando por não adotar uma visão politiqueira, que pense de uma maneira fútil onde todas as soluções e os problemas estão na política nacional, seja em Brasília ou no gabinete de algum deputado, porque não está. A cultura, como já bem explicou Olavo neste livro d’O Futuro Pensamento Brasileiro, passa pela restauração da alta cultura que é o trabalho criativo, passa pela religião, passa pela restauração da língua. Todo este trabalho pode ser executado em suma por intelectuais preparados, e destes, forja-se uma nova e primorosa cultura do espírito que incendiará, irradiará bons frutos a incluir-se, mas não somente, na política do bairro à Brasília. É difícil para o Brasileiro entender isto, e eu sei, porque eu mesmo já fui assim até pouquíssimo tempo. Se quer saber, este pensamento imediatista em que joga tudo no colo da política mais rasteira e eleitoreira advém, sobretudo, desde a Proclamação da República, de lá para cá, a cada governo que entra e sai, se discute uma nova ideia de Brasil que é uma verdadeira chaga, porque entra um, se derruba e outro constrói, que também será derrubado num governo posterior. O único que tentou desafiar isto de verdade foi Getúlio Vargas, mas fez muito mal ao Brasil, destruindo a sua verdadeira diversidade e criando um Brasil artificial. No entanto, se existe uma solução para isto, ela já foi citada n’O Futuro do Pensamento Brasileiro, livro de Olavo de Carvalho, onde ele discute o futuro da alta cultura brasileira, em que transcrevendo a conferência O Mais Excluído dos Excluídos diz-se que são os mortos aqueles a quem devemos olhar e ouvir, saber o que eles têm a dizer para os nossos tempos. De fato, o Brasil como no resto do Mundo, entrou num pensamento viciado em que o olhar deve ser sempre para o futuro, esquecendo de olhar para o passado, quando o faz, sente-se superior e em progresso, mas isto é errôneo e ingênuo, distorcido.

Na História do Brasil independente, o único período em que o país olhou um pouco para o passado para saber andar um pouco no futuro foi no Império, e o fez muito bem, superando vários e graves defeitos, com um olhar cauteloso que para alguns significava lentidão, para outros apenas a prudência de não se observar e agir ao gosto das emoções e épocas. Na República, conceitos vagos como democracia e interesses do povo ficaram viciados e vazios de conteúdo e forma. O único período de nossa democracia foi no Império, em que se podia falar mal de tudo e de todos sem ser preso, onde se podia defender o fim do Império e de todas as instituições orgânicas ou não. Assim que proclamaram a República, e então nenhum período dos 133 anos seguintes que já durou ela, e não houve liberdade semelhante, sempre e no máximo que se teve foram apenas palavras, mas, na prática, ir contra as instituições republicanas implica grave ameaça ao país, de tal maneira que um opinador público é mais perigoso por isso do que chefes do narcotráfico internacional! Não se trata de indiretas, apenas a constatação de fatos. Então só isto já basta para tirar aquela visão simplista e idiota em que até hoje as pessoas pensam de que república, democracia e liberdade são sinônimos, pois não são.

Por exemplo, a escravidão existiu no Brasil durante muito tempo não porque o Estado Brasileiro em si queria que fosse assim, não que os monarcas que governaram o Brasil, pelo menos os últimos, eram escravocratas, não, mas porque o país era escravocrata, tinha mentalidade escravocrata, a cultura era escravocrata, e a sociedade dos senhores de terras eram os verdadeiros senhores da lei, absolutistas ou tiranos, cujas decisões eram mais importantes e tinham maior alcance que El-Rei em Lisboa ou no Rio de Janeiro. Mas vencer o imediatismo que é a base para o cronocentrismo alicerçado desde os tempos mais antigos, é a grande chaga a ser fechada na cultura brasileira.

A história do Brasil é complicada e cheia de contradições, nestes 523 anos em que o país completa, tal complexidade não diminuiu, fruto de um país conflituoso, ou melhor, de brasis em conflitos frequentes. De fato, não é um país para principiantes...

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