Bolsonarismo e Conservadorismo
- Thiarles Sosi
- 1 de dez. de 2021
- 7 min de leitura
Série de Artigos 2: O Brasil e as Ideologias: Bolsonarismo e Conservadorismo
Já faz um tempo que observamos o distanciamento entre Jair Bolsonaro e o Movimento Conservador que o elegeu. Cada vez mais fica evidente que ambos os movimentos estão se tornando em duas coisas completamente diferentes. Veja, o Conservadorismo é um movimento cultural e político que faz frente, oposição ao que denominamos Movimento Revolucionário, que vai desde o Liberalismo até o Comunismo. O Conservadorismo é a luta pela defesa dos valores que regem a sociedade Cristã Ocidental, mas não de maneira abstrata, e sim de maneira muito objetiva, atacando e minando os planos culturais que o Movimento Revolucionário propõe. Ora, tanto o Bolsonaro que foi eleito pelo movimento conservador e pelos conservadores em geral, quanto os seus apoiadores, não atacam e nem defendem estes valores no campo que lhes consentem em primazia, que é a cultura, no máximo eles ficam a mercê do debate político e fomentando a discussão política como se estivéssemos em eleição: Já faz três anos que se iniciou este governo dito conservador e ainda estamos como se estivéssemos em plena eleição, tanto porque os que se autodenominam conservadores se posicionam no campo meramente político e eleitoreiro, achando que publicar vídeos no youtube é combate cultural, quanto pelo próprio Governo que se entregou a uma sobrevivência política. Publicar vídeos de apoio ao Conservadorismo e ao Bolsonaro não é guerra cultural, é apenas propaganda ideológica e partidária, a mais rala e barata forma de se promover as ideias na sociedade, e no Brasil é tudo o que há nesta esfera da “alta cultura”, ou melhor, falsa cultura. O Governo Bolsonaro nunca foi conservador, exceto por defesas muito arbitrárias de ideias, no campo da propaganda e não da objetividade do conhecimento, isto não significa que ele seja falso, significa que é superficial.
O fato dos bolsonaristas não aceitarem críticas ao seu líder por desculpa de não afetar a sua credibilidade indica precisamente a fragilidade de suas ideias, como que fomentar o conhecimento das consequências das ações políticas pode ser atacar a liderança? Donde há verdadeiro combate cultural, fomento das ideias e busca do conhecimento isto nunca significa objetivamente distanciamento, e sim aprofundamento das ideias. Ora, se o Bolsonaro não aceita críticas ou se vangloria de ser o defensor de um conceito da qual ele não faz a ideia de sua profundidade porque se limita ao pensamento eleitoreiro, então significa que ele não é conservador e nem defensor de tais ideias, e sim é defensor do bolsonarismo da qual ele encarna muito bem. Agora, resta-nos saber em que consiste o “bolsonarismo” e em que consiste a sua defesa. Ao meu ver, o Bolsonarismo como partidarismo político se define como a defesa de uma pessoa especificamente, independente de suas ideias e da tomada de suas decisões, o motivo desta defesa não deve ser conhecido de antemão, já que a defesa reside na confiança plena na pessoa independentemente de suas ideias e de suas decisões, esperando por uma cartada estratégica que virá num futuro incerto da qual minará o plano dos adversários, isto é, sem definição clara, ora, para mim isto é movimento revolucionário no sentido mais pleno da palavra, a esperança de um futuro maravilhoso independente do presente, coisa que não é possível de se apoiar dentro do conservadorismo, curioso, porém, é notar que aqueles que fazem críticas cabidas às ações do presidente já se tornam logo taxados de traidores, e são atacados vigorosamente por aqueles que defendem o bolsonarismo, isto traz um precedente perigoso de divisão e separação das ideias, por isso, concluímos que bolsonarismo e conservadorismo já estão se tornando contrários. No campo das ideias, o Bolsonarismo é se adaptar dentro das circunstâncias políticas do momento, ainda que pautados pelos seus rivais, de forma a atenuar a briga a fim de um objetivo futuro, isto é característica de movimento revolucionário também e é contrário ao conservadorismo, este defende valores que são inegociáveis em seu núcleo. O que é inegociável dentro do bolsonarismo? Valores como Deus, Pátria e Família,? acontece que estes valores não são objetivos e sim subjetivos, o que é família para o bolsonarismo? O que é pátria para o bolsonarismo? O que é Deus para o bolsonarismo? Ora, os nomes não correspondem exatamente aos seus valores, e sim correspondem a símbolos, estes podem ser coisas tão diferentes que podem inclusive ser os seus contrários. Por exemplo: A defesa da família pelos conservadores significa defender a família tal como Deus Javé a instituiu e Jesus Cristo, o Seu Único Filho, a definiu muito claramente no sacramento, ora, daí se tem que todo o valor moral da defesa da família já parte de um aspecto teológico e não partidário, não é uma coisa ambígua e nem nominal, é uma realidade concreta e espiritual, não dá para dizer que isto é ideológico, é questão doutrinal, apologética, pois o movimento feminista, liberal e comunista também defendem a família, mas de maneira diferente e distinta, e num campo meramente ideológico, não doutrinal. A defesa da pátria é um valor muito caro para a esquerda e para o movimento revolucionário em geral, mas o que este entende por pátria é algo completamente diferente: Os liberais, por exemplo, veem a pátria como um mercado doméstico, e defender a pátria significa dar progresso econômico e competibilidade internacional nos negócios, ou seja, o país é uma grande loja de manufatura, o fascismo, ao contrário, vê o país como um território a ser dominado pelo Estado e este por uma oligarquia tecnocrática e política patrimonialista, com controle absoluto sobre os setores da sociedade, inclusive sobre sua produção econômica, portanto a sua defesa consiste na burocratização e setorização da sociedade, além de um belicismo para com os recursos sempre crescente, como por exemplo a “defesa da Amazônia”, tratam-se de discursos de medo e beligerância. Poderíamos falar sobre o Socialismo, para este a defesa da pátria é apenas uma forma de conseguir apoio popular, invocando o amor ao território em defesa dos pobres e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária, que na prática quer dizer ser igual ao Fascismo, ou seja, o aumento do Estado e a distribuição de cargos burocráticos aos amigos do rei. Para o Conservadorismo a pátria é uma família humana estendida que se une em valores culturais comuns; a língua, a pátria e a religião entram como um só bloco, e sua defesa consiste em fomentar e defender esta mesma cultura numa liberdade que seja respaldada numa hierarquia de valores transcendentes que ecoam na vida temporal, é por isso que o conservadorismo tem pouco a ver com o Estado e mais a ver com a cultura. Por aí já vemos que o bolsonarismo e o conservadorismo (ambos com minúsculo) brasileiro é algo muito limitado, ambíguo e um tanto quanto infantil, para não dizer o oposto do que se diz defender. Isto significa que o bolsonarismo nem sequer deveria existir, o que deveria existir é um governo conservador liderado por Bolsonaro, e este se configuraria num combate cultural, disposto a perder, porque no conservadorismo perder não é perder, e sim combater para abrir espaços, isto é, perder não é ter os seus valores rebaixados, e sim estar disposto ao sacrifício por defender os valores de suas ideias. Se a defesa dos valores conservadores, e de como defendê-los objetivamente são relegados para um futuro imaginário, e no tempo presente consiste em mera força de linguagem pela defesa de conceitos abstratos e a defesa incondicional a uma pessoa específica, mesmo que esta aja ao contrário do que as suas ideias dizem defender segundo o campo do conservadorismo, então temos uma outra coisa que não o conservadorismo, temos o bolsonarismo, que é um movimento revolucionário de menor escala, mas ainda assim impregnado de sua lógica. Mas não venha chamar a isto de guerra cultural porque não é, diga que é defesa eleitoreira pura e simplesmente, porque numa verdadeira guerra cultural, o mínimo que o governo deveria estar fazendo seria uma confissão de que o Brasil não está bem das pernas institucionalmente, e que se está apenas segurando a instituição do Estado para não entrar em um irreversível colapso, ainda que não consiga deter o mesmo, apenas tardando o sangramento. Mas ao contrário, o que há é uma defesa pueril e acalorada como se fosse tempos de eleição e fosse preciso defender o partidarismo de maneira incisiva e inescrupulosa, mesmo ainda faltando um ano para as ditas eleições de 2022.
Não há mal nas pessoas defenderem o Bolsonaro, mas não chame a isto de Conservadorismo, Guerra Cultural, Alta Cultura, Defesa dos Valores, ou Política, não, porque isto é meramente propaganda partidária. Um das coisas que ele deveria estar fazendo objetivamente falando é a defesa da liberdade de expressão e a defesa das leis, porque cumprir as leis e permitir que os seus inimigos as transgridam é também agir contra a lei, é agir pela desordem, ou será que não sabe disto? Ora, não vemos a defesa das leis e nem o uso do poder para fazer as mesmas leis acontecerem: Ou estamos num estado de exceção, ou o Bolsonaro não está agindo porque não quer agir, porque quer se poupar do combate narrativo, mas ao mesmo tempo não quer ser atacado politicamente, quer sobreviver até a próxima eleição, mesmo que sacrifique, ainda que momentaneamente (como talvez creia), as suas ideias, configurando-se no seu contrário ideológico conservador, configurando-se em nova ideologia que politiza tudo, e reduz a vida cultural ao partidarismo político, ou está fingindo patologicamente, isto nem em regimes comunistas é assim, estes sabem que devem ser muito atuantes em todas as esferas com tenra sinceridade, ainda que de forma maligna, por exemplo, logo quando começaram os protestos em Cuba pelos meses de Julho e Agosto, logo o Regime Cubano tomou a narrativa de dizer sobre um “conluio” do imperialismo contra o regime castrista, o povo cubano protestou em massa como havia décadas que não fazia, mesmo assim não houve um único apoio efetivo, diplomático, categórico ao povo cubano, o governo conservador do Bolsonaro simplesmente ignorou Cuba que é o coração, ou melhor, o cérebro do Foro de São Paulo que afeta o destino do Brasil e que inclusive atrapalha o próprio governo de atuar, se limitando às notinhas que efetivamente não são nada.
Se Bolsonaro quiser sobreviver politicamente, culturalmente como um herói, deve abraçar os valores conservadores não por partidarismo, mas por conhecimento, e tomar as estratégias que busquem alcançar a médio e longo prazos o sucesso político e cultural conservador.



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