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A Rússia do Século XXI e a Divinização do Estado

  • 24 de out. de 2021
  • 21 min de leitura

A Rússia do Século XXI e a Divinização do Estado

Novo Artigo do Geopolitica.ru : A Democracia não precisa de partidos políticos

Como a Rússia levará a cabo a sua divinização do Estado como sendo o suprassumo da Unidade Humana?

Caro leitor, este artigo é de fundamental importância para entendermos o pensamento geopolítico do Estado Russo atual e como isto afetará a história do mundo pelas próximas décadas. Trata-se de um Artigo de Redação que nos traz a profundidade e limpidez da Ideologia Eurasianista em que o Estado assume não papel centralizador, mais do que isso, como uma chave de suprema unidade humana. Faremos a dignidade de nosso comentário buscando integrar o texto em si e a sua transposição à realidade objetiva, tirar da abstração para a realidade dos fatos.

A História da Rússia pode ser mapeada como a continuidade de uma Roma Imperial ainda carregada daquela configuração estatal a que se Jesus referira por “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, ou seja, uma sociedade onde não havia muita distinção entre o Estado e a Religião. O Estado não era separado da Religião, ele era a Religião. Não devemos confundir aqui o Estado e Religião separados tal como o Laicismo Iluminista apregoa no atual Ocidente, não é isto, tal ideia ao contrário, é, ao meu ver, hedionda com a ideia de Cristandade. Muitos apregoam que Jesus estava ensinando Laicismo ou justificando o Estado tal como estava. Nada disso, Jesus estava colocando as coisas na ordem, em sua devida ordem; o Estado possui sim um lugar importante na vida social humana, mas não da mesma maneira como a Religião possui, muito menos da mesma maneira como a relação do indivíduo para com Deus possui. O Estado não é por sua natureza intermediário entre Deus e os Homens porque para isto o Estado teria de ser a Religião em si, ou seja, aquilo que faz a ligação entre Deus e o Homem, o sacramento da presença divina na vida humana. O Estado não possui este aparato. A Religião Cristã não é um Estado Político, ela está hierarquicamente superior, muito superior a ideia de Estado, e por isso mesmo o abarca, engole-o, transforma-o, põe-lo em sua devida ordem, isto é, na posição de instrumento acidentalmente necessário para que a mesma Religião dada por Deus não seja desordenada na parte inferior do que lhe cabe. Quando Jesus disse que dai a César o que é de César, ele está legitimando a existência do Estado, mas coloca-o na posição de mero instrumento acidental da Ordem Universal qual seja Deus no topo. Ora, o Estado Romano e a sua Religião, não é que eles estavam unidos, eles eram uma coisa só, isto é a bestialidade apocalíptica. Então o Estado Romano julgava a si como detentor do poder sacramental capaz de salvar a vida humana e sua condição. Neste caso não apenas a religião romana era objeto de idolatria, era uma deturpação cósmica da realidade, o que é a definição mesma de idolatria. Se o Estado se fizesse cristão, mas se considerasse a si mesmo como sendo o sacramento vivo da presença de Deus, o intermediário da presença de Deus, então este Estado é uma besta apocalíptica. Ainda que se aparte o nome de Deus, mas cuja ideia metafísica se transponha para além do Tempo com a ideia de salvação mesma da sociedade, seja aqui ou num futuro utópico, ela se torna maléfica, intrinsecamente má. Isto é o que ocorre em basicamente todas as ideologias contemporâneas como Fascismo, Comunismo, Eurasianismo, Globalismo, Ecologismo, etc. Isto porque o Estado é um instrumento para a vida social humana que é hierárquica por definição. O Estado aqui defino como sendo o ambiente comum a todo um grupo de pessoas que compartilham os mesmos valores, a instituição serve para garantir a perenidade destes valores, não o contrário. Mas o Estado Romano convertido ao Cristianismo ainda carregava esta pecha de intermediário da vida humana e divina, o Catolicismo tratou de concertar isto aos poucos, mas a Igreja se dividiu após Constantino, bem como o próprio Império com a transferência para Constantinopla. Após a capital voltar para Roma, Constantinopla, posterior Bizâncio, tornou-se na herdeira duma visão sobre o Estado e a Religião que irá de algum modo permear durante séculos aquele clima de instabilidade entre a Igreja de Roma e Bizâncio, pois por dentro ainda haverá aquela sensação de Estado e Religião como sendo uma só coisa. De fato, a Igreja Bizantina estará cada vez mais a mercê do Estado pois ela mesma se torna no Estado. A supremacia eclesial sai do Patriarcado e vai para o colo do Imperador Bizantino. É este conflito, talvez mais do que teológico, que fará ou fomentará a separação, o cisma da Igreja do Oriente e Ocidente em 1054. Enquanto no Ocidente a supremacia eclesial, o sacramento da Igreja estava com o Papa, no Oriente, estava com o Imperador, donde a autoridade eclesial, o Patriarca, a carregava de certa maneira por extensão, sendo assim, aparentemente o contrário do Ocidente em que a autoridade estatal derivava da eclesial por extensão. Este conflito parece ir além da autoridade, pois até neste jogo de linguagem caiu a definição do Espírito Santo, se Ele vinha do Pai e do Filho ou se Ele vinha do Filho que vinha do Pai. Tais confusões não me parecem mais do que erros de articulação de Causa e Efeito, em primeiro lugar não se pode atribuir causa e efeito nas Pessoas da Trindade, pois elas não são o resultado de algo, mas a causa de algo, então as Três Pessoas da Trindade coexistem por definição, e a Divindade não subsiste e nem deriva delas, mas está presente nos três, porque a definição mesma de Trindade Divina perpassa que Deus deve ser Três Pessoas, não se trata de relação de causa e efeito, esta é a forma como nós seres humanos entendemos a relação entre as coisas, mas não em Deus, nele as Três Pessoas são um fato concreto apresentado e substancialmente revelado. Mas voltamo-nos ao assunto do Estado surgir da Igreja ou da Igreja surgir do Estado, ora tal questão está fora da causa e efeito, ela está para o fato concreto apresentado, mas o fato substancialmente revelado o foi por Jesus Cristo quando disse: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!” Sendo assim, não se pode dizer que Jesus nega o Estado, o coloca como instrumento social que deve estar submisso necessariamente a Deus, mas aqui Deus não é sinônimo de Religião, pois que a Religião é o intermediário que Deus impõe aos homens como sacramento de Sua Presença, mas a religião cristã em si mesma não é uma relação entre o código e o exterior, mais fácil dizer que é uma relação entre o eu interior e o Código. A missão do Estado no Cristianismo, ao menos ao que me parece auferir a catolicidade, é que o Estado é um acidente necessário para assegurar que o Sacramento que é a relação do Homem com Deus não seja prejudicada por nenhuma força humana, inclusive o próprio Estado, Dai a César o que é de César, ou seja, a missão de apenas proteger o povo para que este consiga viver a sua fé de maneira legítima. O Estado não é intermediário entre Deus e os Homens, mas ao contrário, apenas um instrumento que assegure que o canal entre Deus e os Homens, isto é, a Religião, que no caso da Igreja Católica é ela, não seja prejudicado nem pelo próprio Estado, pois está submisso a Deus, está submisso por isso mesmo à Religião, não como uma força inferior a uma Religião tipo Estado, como se fosse um braço de uma religião em que ela mesma é um Estado, mas como um tipo de instituição humana que como as outras participam substancialmente ou acidentalmente no grave dever de proteger a Religião. No Catolicismo o Estado e a Religião são duas coisas diferentes, mas não é a separação entre dois entes iguais, são entes de gêneros diferentes, não são do mesmo gênero diferindo-se de espécie, são gêneros de famílias diferentes, mas de uma mesma ordem, Ordem Social em que se deriva a organização acidental (Estado) e a Organização Metafísica e Espiritual Deus-Homem representado pela Igreja Católica. Assim sendo, não é que a Igreja possa separar o Estado de Religião, não podem se separar porque não estão unidos como forças complementares ou opostas, ou como um departamento de outra, estamos falando da relação que existe entre um corpo e a roupa que cobre a sua nudez. O Estado não é mais do que a roupa numa sociedade, mas todos reconhecem, e em algumas vezes se torna obrigatório aceitar que há a necessidade de roupa, mas também as vezes há a necessidade de estar nu, tudo convém ao momento de tal necessidade, um Estado que se pressupõe superior ao corpo que ele veste e cobre a nudez, certamente é um Estado que precisa ser retirado para que o próprio corpo consiga se mover bem, reproduzir, crescer e se ajustar, sobretudo procurar outra roupa que melhor encaixe a sua situação de crescimento. Voltamo-nos para o desenvolvimento no Império Bizantino, por lá, diferente da Igreja Católica e do Ocidente, o Estado e a Religião não se prontificaram a separar o joio do trigo, ao contrário, os resquícios de Idolatria do Estado continuaram a existir em fragmentos que com o passar dos séculos e com a crescente autoridade do Imperador nos assuntos da própria fundamentação religiosa, além de querer uma polarização entre Ocidente-Oriente a fim de se afastar da própria supremacia romana perante às Igrejas Orientais, então temos o ápice no Cisma de 1054, onde não apenas a Igreja se dividiu, como também ambas foram se opondo cosmologicamente. O Império Bizantino foi se tornando cada vez mais confundível com o Estado e a Religião, de tal maneira que a separação entre as duas foi se moldando até que as duas se tornaram em espécies do mesmo gênero, concorrentes entre si a atenção. Foi precisamente a partir de 1453 quando os turcos tomaram Bizâncio que surge o protagonismo de um estado quase subalterno até então, a Rússia.


Em 1547 é fundado o Tsarismo na Rússia com Ivan IV, um modelo que trazia à tona o modelo romano simbolicamente, isto é, a de um governante imperial que tem todos os principados e reinos sob a sua tutela. A partir daí a Rússia almeja alcançar aquilo que se perdeu com a Roma, a Pax Romana, dessa vez sob a forma de Pax Russa. Também o poder da Igreja Ortodoxa Russa, sucessora autônoma da Igreja Ortodoxa Bizantina, foi diminuindo com tal estado eslavo crescente. O modelo de Estado na Rússia é a fusão entre Religião e Estado de tal forma que ambas as coisas se tornem cada vez mais indistintos. Conforme o Artigo (A Democracia não precisa de partidos políticos) este modelo de estado forte e autoritário que foi se fomando na Rússia provém sobretudo da influência mongol, mas a mentalidade russa já estava sendo formada pelo modelo bizantino de comunidade imperial. A Rússia considera-se na Terceira Roma e para tanto, o modelo romano de autoridade que se confunde indiscriminadamente com a religião é a práxis, o tsarismo veio apenas referendar oficialmente um modelo de cultura já propenso a isto. A partir de então o modelo russo de Estado-Religião segue firme em direção ao Império propriamente dito fundado por Pedro I, O Grande.

Dentre os delírios da democracia liberal, o partidarismo é tratado como um dos pilares para a construção da pluralidade e representatividade, para na verdade ser um dos principais mecanismos de alienação e dominação política.

Aqui não posso deixar de precisar um comentário sobre a democracia liberal da qual estamos inseridos também no Brasil. Concordo inteiramente com a afirmação de que os partidos políticos existem para alienar o povo e fazê-lo crer numa autoridade que ele efetivamente não tem. Um exemplo muito claro disto é que quem domina as pautas na política nacional e local no Brasil são as lideranças dos partidos, cujos nomes o brasileiro não conhece e nem tem condições de eleger, isto ficou muito claro quando Bolsonaro chamou Michel Temer para apaziguar as forças políticas em “atrito” destes últimos anos; bastou uma reunião e a presença de um cacique da política partidária que por definição é parasitária como o PMDB para então um dos seus integrantes diretos o Alexandre de Moraes diminuir a sua silenciosa opressão sobre Bolsonaro e os seus apoiadores. Particularmente esta foi a maior demonstração de fraqueza por parte de um governo que eu já vi até hoje. Quem domina o Brasil são os donos dos partidos, o povo só elege os nomes dados por aqueles, quem não garante que a eleição de Bolsonaro apesar de apoiada pelas massas, foi também uma concessão partidária, não dos nomes dos partidos em si, mas dos verdadeiros partidos que são os existentes nas sombras, nos bastidores e corredores de Brasília? Sabemos que Bolsonaro só age por conceder àqueles que agem nas sombras, na cortina de fumaça, mas isto indica que ele não é uma liderança de forma alguma, ele é apenas uma figura que está lá para apaziguar uma massa de gente inconformada com a mesma classe política que age nas sombras.

O problema de celebrar eleições democráticas na Rússia onde a ideia de democracia representativa e, especialmente, a democracia representativa baseada em partidos políticos, é que ela é completamente alheia à cultura e à tradição política russa. Por outro lado, a democracia direta do zemstvo¹, ou seja, a eleição dos chefes das aldeias e, antes do cisma, dos párocos, têm uma longa trajetória na Rússia. Durante os períodos mais conturbados – como no final da Época da Instabilidade² – foi o povo quem elegeu o tzar e fundou uma nova dinastia. E antes disso, o povo havia tomado a decisão de criar milícias populares, especialmente com a formação do segundo exército popular, o qual salvou o país. Não obstante, os russos jamais criaram partidos políticos e só elegeram pessoas que consideravam como amigos nas quais confiavam. Então, eles elegiam pessoas em particular e não grupos. A tradição russa baseava-se nas relações pessoais, e são esses personagens que fazem política.

Interessante abordagem já que a Filosofia Política de Olavo de Carvalho pressupõe que são indivíduos ou pelo menos agentes muito bem definidos que são agentes históricos, são quem toma ações e não “grupos”, entidades abstratas como “STF”, “Congresso Nacional”, “Governo Federal”, “Partido dos Trabalhadores”. Ora, a Rússia sempre foi de eleger e se apegar a pessoas e não grupos ou entidades abstratas, porque intuitivamente sabe que são pessoas e não coisas, instituições, que fazem alguma coisa. Em se tratando de site do Alexander Dugin será que ele mudou um pouco a sua perspectiva sobre os agentes históricos reais desde o debate com o professor Olavo de Carvalho em EUA e a Nova Ordem Mundial? De certo indica uma evolução. Muitos dizem no Brasil que Bolsonaro não consegue fazer muita coisa porque o “sistema” não deixa; ora, qual sistema? O sistema impede Bolsonaro ou Bolsonaro não age contra o sistema? O povo o elegeu para ele não lutar contra este suposto sistema ou para ele enfrentar porque se trata de um indivíduo de carne e osso? Vladimir Putin sabe que a liderança e o poder de ação está com ele e não com o “sistema”, ele é o sistema. E aqui quero deixar claro minha opinião sobre esta falácia de que Bolsonaro não age pois ele está sozinho contra o sistema; não, ele não está sozinho, ele tem o apoio popular, tem apoio de setores importantes da sociedade civil. Vou dizer o que o amarra não é o "sistema" e sim pessoas e grupos internos ao seu governo que busca valorizar em primeiro lugar a economia, o diálogo e o suportar com paciência, mesmo que isto custe a cabeça de seus aliados, um por um, Jair Bolsonaro não quer agir contra o sistema porque ele não quer fazer uma guerra, em todos os sentidos da palavra, por isto ele deixa que os seus inimigos proliferem-se e cresçam, se organizem para depois derrubá-lo. Não é o sistema que prende Bolsonaro, se este fosse o caso ele não se candidataria com a promessa inclusive de não dar o "toma-lá-da-cá", de combater a corrupção e etc. Interessante que a corrupção diminiuiu em seu governo porque justamente os partidos que governavam o Brasil não era corruptos tão puros e simplesmente, eles eram corruptos porque financiavam com o dinheiro público a corrupção de suas ideias que eram e ainda é estabelecer o Socialismo na América Latina por meio do Foro de São Paulo. Todos de dentro da burocracia e do governo são concordes em combater a corrupção, mas combater o Foro de São Paulo que ainda age e é ilegal não pode, é "extremismo" de direita.


O povo deseja compreender, conhecer e confiar em pessoas particulares, ainda que seja para odiá-las, depreciá-las e castigá-las. De todos os modos, sempre se trata de seres humanos particulares, já que nossa concepção de mundo é profundamente humana. O mesmo acontece com a política. Os russos não entendem o que é um partido político, já que estes lhes soam alheios, impessoais e abstratos. Portanto, os consideram falsos, corruptos e maus e, por isso, pensam que seria melhor que não existissem. Até mesmo a palavra “partido” (партий – partiy) possui pouco significado para os russos, pois, um partido é uma “parte” do todo e os russos aspiram sempre à totalidade. Eleger entre vários partidos é dividir a sociedade e essa é a razão pela qual os russos consideram que tal coisa é uma prática maníaca que destrói a sociedade, o povo e o país. Os mesmos partidos seguem essa dinâmica, pois, normalmente desmoronam, dividem e lutam em seu interior a fim de obter um líder. Os partidos políticos são corruptos tanto política como esteticamente. E nada poderá nos fazer mudar de ideia. As coisas mudam quando se trata de um partido único, uma ideia que nos atrai mais que precisar eleger entre muitos: essa é a verdadeira alternativa para a Rússia, pois os russos elegeram de uma vez e para sempre sua fé, sua pátria e seu cônjuge. Esta eleição é definitiva: uma eleição para escolher apenas uma coisa. Essa é nossa ética, já que somente vale a pena ser fiel ao belo. O resto das coisas são simplesmente tentações e falsidades. E é por isso que não deveria haver partidos políticos na Rússia – existe o Estado, a Igreja, o povo e o zemstvo – ou existir somente um. Um partido único já não é um fragmento, mas um conjunto, um povo ou o mesmo Estado. Este modelo é duradouro e tem futuro, o outro não.

Tal leitura faz-me lembrar que no Brasil temos dezenas de partidos cujas ideias podem ser resumidas na seguinte ideologia: Comunismo, Dinheiro, Corporativismo. Ponto. Isto é basicamente todas as formas partidárias que existem no Brasil apesar de serem muitas. Há vários partidos para os trabalhadores, vários para a ecologia, vários para o identitarismo, vários para a burguesia, vários para o interesse grupal de classe. Os russos têm toda razão, os partidos corroem a sociedade humana. No Brasil, os partidos gastam ano após ano para se aventurarem a preencher suas fileiras a fim de ganhar dinheiro porque o Estado brasileiro existe unicamente para amamentar quem é o seu dono, os caciques partidários. Uma parte muito pequena do esforço nacional e dos congressistas é para fomentar projetos que sejam bons para o Brasil a longo prazo, todos só pensam num interesse grupal e possuem uma vaga ideia de defesa de slogans que não estão sofrendo ameaças de maneira alguma como “Defesa da Saúde, defesa da educação, do transporte e da segurança pública”, todas palavras que um analfabeto político diz e não sabe o que significa na prática. Ora, a política brasileira já há muito tempo que é seguida desta maneira estapafúrdia.


Fazendo a leitura deste trecho podemos ver o quão na verdade é complexa e retórica a ideia russa de democracia, lá o Estado e a democracia podem ser qualquer coisa, porque eleger membros de partidos à moda americana não é para eles democracia, e eles estão certo neste ponto. Democracia não é partido, democracia não é o povo no lugar do governante, democracia é o povo viver em paz aos cuidados de um líder que eles lhe acatam a autoridade. Ora, há de separar aqui o discurso russo, já que eles querem dizer aqui como uma maneira de justificar o autoritarismo do Estado e a personificação do chefe do Estado como sendo o suprassumo da democracia, sabemos que não é isto o que ocorre na Rússia, já que quem governa o país não tolera a ideia de que outro possa lhe ocupar o lugar, por isso eu digo que se trata de linguagem retórica, e complexa na medida que esta foi a evolução psíquica e cultural da Rússia desde muitos séculos, a Rússia nunca experimentou tal democracia ocidental. Mas o fato dos partidos políticos serem mera fachada para manipular o povo, isto é absolutamente verdade, e para o Brasil, apoiaria o fim de todos eles.

O governo do partido comunista, durante o período soviético, não só era imposto de cima, como também era exigido desde baixo. O povo e a sociedade desejavam a unidade e a plenitude. Os eslavófilos – sobretudo Jomiakov³ – sustentavam que a totalidade por excelência é o ideal do povo russo. Tanto o partido como o Estado são dominados por uma única pessoa: o líder-pai que todos conheciam e sabiam diferenciar seu rosto, sua voz e gestos.

Este retrato mostra o quanto na verdade a Rússia Soviética não é mais do que a Rússia Tsarista tomada por comunistas sob o pretexto de ordem social e vida em paz, porque no fim das contas foi isto que o povo quis e quer em toda parte, no entanto, aqui este argumento é usado a favor do Comunismo que é autoritário por excelência, que se arroga no direito de tomar as liberdades individuais para promover um Estado que seja a fusão de uma Idolatria em torno do líder como um “pai”.

Na democracia moderna participam muitos partidos e tal coisa é desprezível porque muitas pessoas nem sabem onde e porque se fazem as coisas. É algo bastante desagradável e quando tudo dá errado, a única coisa que fazem é obrigar todos a usarem máscaras de hospital. Os russos têm a intuição de que gente assim não fará outra coisa que não seja arruinar o país por sua improdutividade.

Traço uma seguinte crítica aos defensores dos muitos partidos e da democracia romantizada no Brasil defendida tanto pelo PT quanto pelos Conservadores: Democracia significa caos se ela não estiver dentro de um quadro de limite. Isto é muito óbvio, se a democracia é ilimitada então reina o caos das decisões, o que vemos no Brasil atual, a cada dois anos há o caos das eleições, há agitação política monstruosa, há mudança nas instituições, há mudança sócial a tal ponto de que todo o povo é chamado a participar do conflito de interesses. Não dá para ser um ‘conservador’ e defender a democracia, ao meu ver, pois esta pressupõe rotatividade de poder, ora, será que muitos dos conservadores sabem disto? Porque uma batalha política onde toda ação do governo é bucha de canhão para polêmica não é saudável para nenhum país, isto gera uma sensação de desgaste e estresse psicológico, a longo prazo isto pode ser catastrófico para o país e gerar inconformidade, o povo em geral não quer guerra política e cultural, quer viver em paz com a sua família e o seu núcleo social. O povo em geral não é militante, deseja viver em paz no seu círculo restrito de interesses, a última coisa com que quer se preocupar é com a política do dia e sobre o que os governantes estejam fazendo, eles só querem que os seus governantes não roubem e não sejam desonestos, é só isto, ninguém entende ou consegue compreender como as ideologias são fundamentais para se compreender a quem se deve escolher. O povo elegeu o Lula pensando nas obras, não no socialismo, protestou contra a Dilma pelas obras e corrupção, não contra o comunismo, elegeu Bolsonaro pensando nas obras e no combate a corrupção, não no combate ao comunismo. O povo foi às ruas várias vezes protestar em favor de Bolsonaro contra o Sistema corrupto e engessado que o impede de trabalhar, não contra o comuno-globalismo que tomou conta do Estado Brasileiro e o engessou justamente para impedir que lhe seja retirado a autoridade dada pelos governos das últimas décadas.

Só existem dois partidos que podem ser levados a sério na Rússia: Rússia Unida e o Partido Comunista da Federação Russa. Em ambos podemos ver as características do partido único que as pessoas anseiam inconscientemente. No PCFR é tudo bem claro, já que ele é o fantasma do antigo Partido Comunista da União Soviética. O povo enxerga no PCFR a unidade do Estado, os povos, a sociedade e as classes que existiam durante a época soviética, ainda que não seja mais que o simulacro ou um artefato de museu que já não tem vigência. E, ainda assim, desperta simpatia: se permitido, a nostalgia que desperta o PCFR o levaria a conseguir muito, só há que ver o grande peso que tinha o PCFR nos anos 1990 quando tinha a maior parte dos acentos da Duma Estatal. Mas isso mudou porque agora há outro partido que disputa essa posição e é o Rússia Unida. Caso fosse simplesmente por nome, não teria interesse nesse partido. Mas o Rússia Unida é diferente, porque é o partido único do Estado e tem o rosto que encarna no líder-pai Vladimir Putin. Não importa o que se pense do Rússia Unida, pois é atualmente o partido do Estado por excelência. E Putin é o pai da Rússia e isso significa que ele é o pai de todos.

Aqui abre, portanto, um traço interessante da personalidade política russa atual, o Vladimir Putin é visto e provavelmente se vê como Pai da Nação Russa, e como tal, se afigura a autoridade total do país e não se trata de meramente um político que está lá por um tempo tal como um presidente americano ou brasileiro. O presidente russo é na verdade um Tsar moderno com nome de presidente, a Rússia nunca deixou de ser o Império Russo, o presidente russo nunca deixou de ser o Tsar de Todas as Rússias, e como tal ele é a autoridade máxima daquele imenso país, não apenas política mas também religiosa, pois a Igreja Ortodoxa Russa está submissa ao Estado Russo tal como outrora era ao Tsar.

O Rússia Unida atuou de um modo muito aberto durante as eleições, especialmente porque a maioria de seus candidatos representam os melhores aspectos do poder estatal russo moderno: o exército, a diplomacia e os médicos. Em suas fileiras não encontramos empresários, banqueiros, monopolistas, oligarcas ou atletas. Ou, melhor dizendo, estão lá, mas em posições subordinadas, ou seja, pelas sombras. A troika do Rússia Unida fez um chamado ao povo: não votem pelo partido ou pelos partidos políticos, se não pelo Estado e pela Estatalidade. Não queremos seguir tentando ou subornando as pessoas, queremos um governo bom representados pelos melhores aspectos do mesmo: o exército (Shoigu), uma política exterior soberana (Lavrov) e a medicina que salva a vida do povo (Protsenko). E sobre todos eles governa o pai russo.

A Rússia atual não é mais do que um império aos moldes antigos, sobretudo do Oriente, isto é, autoritários, onde o Estado e a Religião e o Rei eram uma coisa só. É por esta razão que tem raiz histórica que a Rússia atual não é efetivamente uma democracia, e cada vez mais se revelará como orgulhosamente não sendo uma, pois reconhece a fragmentação do modelo “democrático” americano que causou demasiada ilusão no mundo e que hoje só existe para atender a demanda de uma classe de globalistas.

Portanto, o Estado vai às urnas ou, ao menos, seu aspecto mais positivo. Seu lado negativo é obscurecido por esses três aspectos luminosos, enquanto no topo da pirâmide está Putin. E é aqui onde encontramos o significado real desse partido: Rússia Unida é o único partido de uma única Rússia. Esse deve ser precisamente nosso objetivo. Os críticos, sem dúvida, gritaram cheios de horror dizendo que tudo é um engano e um truque eleitoral. E então, o que faremos com os “ladrões e golpistas”? O que acontecerá com os funcionários corruptos e a oligarquia que agora faz parte do governo? O que acontecerá com essa vida que nós não gostamos, com o cinismo e ódio da elite? Este polo negativo segue existindo, não obstante, o Estado é um todo e por isso projeta uma sombra. Claro, podemos comparar quão larga e escura é a sombra que um indivíduo projeta, mas isso não se aplica ao Estado e muito menos ao pai de todos os russos.

Aqui nós vemos claramente o ressurgimento daquele sentimento de idolatria a César que a Rússia Imperial do Século XXI nunca deixou de almejar desde Ivan IV, desde a ideia de Terceira Roma, pois no fim das contas é este resquício de Império Romano cuja religião e estado não são duas coisas, mas é uma só e mesma coisa, encarnada na pessoa do seu líder, a ponto deste não poder ser acusado de erros, afinal, ele é o “pai”.

O pecado de Cam na arca foi denunciar as falhas e erros do seu pai, especialmente quando Noé estava bêbado e tropeçou caindo no chão. Cam fez algo muito pior: tratou de separar a família. Por que Cam chamou seus irmãos para verem o estado lamentável de seu pai? Porque queria criar um partido. Todo partido nasce da separação. Noé foi quem construiu a arca e Sem e Jafé fizeram o correto: tomaram partido pelo seu pai, não por seu irmão. Elegeram a arca e não a ideia de desmontá-la para logo vender a madeira. Elegeram fielmente ao Estado e não ao partido.

Uma coisa é desonrar o seu pai, outra coisa é considerar o Estado como sendo a mesma coisa que um pai de família que dá a vida e seja 'incriticável'. A Nação não é o seu Estado, o Estado é uma instituição que tem autoridade sobre um povo e território. Se isolarmos isto e consideramos apenas o líder da nação em si, ele deve ser respeitado e amado, mas não incriticável.

A terra daqueles que estão condenados à maldade leva o nome de Cam: “Canaã”. A democracia pluripartidarista na Rússia sempre será uma falsidade e isso não se deve a que “o governo autoritário sempre tente controlar tudo”, mas sim que nenhum partido político tem ou pode ser considerado legítimo na Rússia. Todos ou quase todos os partidos políticos sempre serão completamente falsos na Rússia. Exceto um: o Estado.

Este pensamento metonímico que mistura conceitos abstratos a fim de causar uma impressão positiva de superioridade; o Estado é governado por pessoas com interesses, nenhum Estado é universal, se ele é de um único pensamento é porque ele exclui os opositores. Se isto é bom ou ruim não quero dizer porque depende, mas dar a entender que o interesse do Estado é o interesse de todos, isto é falso.

Aparentemente, a Rússia vai colocar a democracia parlamentar de lado e tentar criar uma democracia direta – a democracia do zemstvo – sem partidos políticos onde haverá eleições reais, significativas, responsáveis, com respeito pelas capacidades particulares (quem seja eleito será julgado diretamente pelos próprios votantes, como acontecia com os chefes de aldeias) e baseadas na abertura e honestidade. Selecionar os mais qualificados para a política não tem nada a ver com a democracia representativa liberal ocidental, que nada mais é do que um obstáculo. A renovação das elites é muito mais complexa, dinâmica e melhor estruturada no sistema monopartidarista chinês e isso que lá não existe nenhum parlamento, pois o partido é o Estado em si, dominado por Xi Jinping. Este sistema tem seus problemas, mas antes de criticá-lo é melhor avaliar e corrigir nossos erros. Pelo menos é o que pensam os verdadeiros comunistas e democratas chineses, quase seguindo os passos de Confúcio.

Ora, aqui calemos a boca de muitos “conservadores” que eu não sei se são eles os conservadores mesmos ou sou eu que não sou um, mas não é aqui na Rússia seguindo os passos de uma idolatria à Estatização como meio seguro de unir as pessoas, como solução para os problemas atuais? Os passos de Vladimir Putin não será a defesa dos valores tradicionais do dito Ocidente, muito menos a tal democracia desta, único lugar onde se faz jus a palavra Conservador, que conserva a Tradição Ocidental. A Rússia será aquela que levará o modelo de crescimento do Estado tal como na China, tal como na União Soviética até pouco tempo abolida, seguirá os passos ao que se percebe no eixo de sua cultura já milenar de crescimento da politização total, levará a cabo a sua divinização do Estado.


Segue 3 artigos da Revista de Informação Legislativa que ajudam a resumir a História Russa muito bem escritas por Hugo Hortêncio de Aguiar;


Fonte : Revista de informação legislativa, v. 39, n. 155, p. 203-214, jul./set. 2002

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