A Jornada de um Analfabeto Funcional
- Thiarles Sosi
- 8 de abr. de 2021
- 12 min de leitura
Um dia ouvira eu o Olavo de Carvalho a dizer que um jovem vindo de família carente ou mesmo classe média ao deparar-se com a grandiosidade monumental de um corpo acadêmico entre paredes de uma universidade sentir-se-ia parte do suprassumo da intelectualidade e alta cultura, ele não conceberia nada maior do que isto. Isto veio-me como um tilintar em meu ouvido, pois lembrara-me muito de quando eu entrei na universidade pela primeira vez; eu estava amedrontado de não conseguir acompanhar o ritmo dos estudos de altíssimo nível intelectual, infinitamente acima das minhas capacidades e formações deficientes. Eu vinha de escola pública e embora fosse um aluno mediano por lá, estava realmente acima da grande maioria dos alunos. Isto passou-me uma falsa segurança de talento. Na universidade eu percebi que eu não sabia nada, toda aquela linguagem técnica, científica que exigiria de mim um dicionário especializado para cada disciplina cansava-me. E para piorar, não consultava a nenhum dos meus colegas. Não, porque todos eles pareciam entender perfeitamente bem o que os professores explicavam. A professora de Cálculo Integral chegou com a mais límpida postura de matemática elementar e começou a explicar em linguagem matemática sobre o funcionamento daquela incorporação demoníaca. O quadro negro, que na verdade era branco, media oito metros de comprimento, lembro-me dela preencher e apagar o quadro pelo menos três vezes antes de finalizar o cálculo. Ou fazia o cálculo ou explicava como havia feito aquilo. Gastara eu muitas folhas de papel para escrever algo que eu não entendia em absoluto. Confesso que em determinado momento parei de acompanhar a professora e passei a observar aos meus colegas, a reação de seus rostos, o movimento de seus olhos, a atenção daqueles estudantes de engenharia a fixarem-se não sei se no quadro ou na explicação minuciosamente de mandarinato. — O que está acontecendo? Só eu não estou entendendo nada? — Daí a minha autoestima, única aliás, de promissor estudante universitário veio por água a baixo. As minhas expectativas esvaíram-se de minhas mãos como água de poço fundo sem balde. Comecei a buscar na internet algo que pudesse me ajudar. Digitei nos motores de busca a seguinte pergunta: — O que é engenharia? — Sim, eu não sabia o que era engenharia, embora estivesse cursando-a numa universidade federal. A pergunta parece idiota, e era, mas eu realmente não sabia, e confessar aquilo para um computador já era difícil demais para mim, já estava a meio período cursado. Imagine se eu confessaria isto para qualquer professor? “Professora, o que é que estamos estudando? O que é este cálculo e para quê serve?” Repetia comigo toda maldita ou bendita aula por dentro, sufocado, enlouquecido, as minhas bochechas aqueciam-se tanto que a vontade era de surtar e derrubar aquele lugar a pontapés. Liguei para a minha mãe, única pessoa a quem confiaria a minha incapacidade: — Mãe, eu estou cursando há dois meses, não aprendi absolutamente nada, eu acho que esta não é a minha vocação. Não sei, eu não consigo entender. Sou muito burro, eu vejo na universidade, todos estão entendendo, mas eu não consigo entender o que estão ensinando. — Minha mãe procurou animar-me, mas eu não estava querendo ânimo, eu queria saber porque eu não estava entendendo nada e os outros estavam. Acreditei que aquilo talvez não era para mim, ou que a culpa seria dos meus estudos fracos demais. “Algo diz a mim que tudo isto que estão falando eu já deveria saber de antemão. Mas como? No ensino médio lembro-me muito bem de nunca ter citado nenhuma dessas palavras. Maldito governo, dá-nos a vaga e a esperança de estudar, mas não deu-nos a formação necessária para chegarmos até aqui”. O maldito governo era o da Dilma Rousseff, amava-a, por causa dela eu havia conseguido entrar na universidade, mas foi daí que deparei-me com as deficiências e maledicências disto, uma família pobre passou a ter mais gastos, os meus tios que prometiam ajudar, não ajudariam mais porque a crise econômica assolava o país. Os condomínios estudantis para jovens carentes já houveram sido iniciados a construção por anos. A ajuda de custo que permitiria pagar o aluguel ou alimentação não chegaria com tanta facilidade, já que a universidade estava fazendo muitos cortes. Resultado disto, houve-se greves e rumores de greves das universidades federais pelo país, a insatisfação dos estudantes universitários e até mesmo de professores suscitariam ou reforçariam a queda da “presidenta”. “Ela não tem culpa de nada, o problema é o Sistema que é corrupto”, era o que eu ouvira de um professor meu que dera-nos, a mim e a alguns colegas, carona até as nossas casas. Aquilo foi o começo da discórdia dos petistas, que foi a verdadeira brecha que permitiu a chegada da “direita”, que na época, pasme se quiseres, era associada ao Aécio Neves, ou Aecin Cheirador como ficou conhecido em Minas. — O que é engenharia? — continuava a investigar. Perguntar para um computador o que era Cálculo Integral 1, 2, 3 e 4 era algo que ainda abalava-me por dentro, e tinha medo de compreender. Sim, de compreender e mostrar o quão idiota eu era por não ter entendido algo que todo mundo estava entendendo. Não queria entender, mas queria compreender. Por isso, pegava nos livros, fazia as lições, procurava resolver por horas problemas matemáticos que não entendia. Quantas possibilidades! — Isto não tem fim. Como saber se o meu raciocínio é correto ou não?… eu só quero saber para que serve estes malditos cálculos e quando os usarei na minha vida profissional? — Os assuntos sobre engenharia não esgotavam-se, e isto fazia-me procurar sempre por assuntos relacionados e termos específicos em blogs de engenharia, claro, porque pegar livros técnicos na universidade não queria pegar de jeito nenhum. Está brincando? Se eu não conseguia entender o que os professores ensinavam, certamente que não entenderia em livros absurdamente técnicos e monumentais. É o horror do conhecimento. De certo que eu já estava muito desanimado por estudar tudo aquilo, e já havia-me sentenciado a repetir aquelas disciplinas no semestre seguinte, mas enquanto isso continuaria a minha investigação sobre os trabalhos que cada especialidade de engenharia fazia.
Após alguns meses, uma das professoras propusera-nos um trabalho para apresentar um seminário de engenharia. Valia muitos pontos e era a única esperança minha de passar numa disciplina, por sorte que era a única disciplina mais teórica e menos técnica. Formamos um grupo com alguns colegas muito inteligentes, ouvira de um deles que abandonaria as aulas de cálculo. Fiquei pasmo, era um dos mais inteligentes e que mais entendia o que a professora dizia. — Como assim, você vai desistir? Depois vai repetir de novo? — dizia uma das nossas colegas. — é uma bosta, eu não conseguirei a pontuação básica, as provas anteriores foram um fiasco. — dizia ele. Sim, ele entendia, mas isto não significava que seria o suficiente, acertar a pontuação seria o mínimo necessário. Mas quem disse que eu dir-lhes-ia que meus pontos eram calculadamente iguais a zero, exatamente como era o resultado da maioria dos cálculos integrais que a professora fazia, ou um, como quando eu num ímpeto de loucura qualquer, naquela vontade de surtar, a professora perguntara-nos um dia: — Então qual é o resultado, pessoal? — Houve-se um terno silêncio como de costume. — é muito fácil, né gente? O resultado é óbvio. — disse ela arriscando repetir as últimas proposições do cálculo como se o raciocínio dos alunos tivesse perdido a direção ali donde ela apontava. “Como assim, ninguém vai responder?” A insistência fez-me o que nunca ousara fazer antes: Fitei os olhos em todo aquele quadro, e olhei para onde apontava o sinal de igualdade. Respondi: — é um. — Ela não olhou na minha direção, não viu quem havia respondido, só disse: — é um, é óbvio que é um. — Ouvi murmúrios de alguns colegas: — Eu sabia! Um, é claro que é um! — disse balançando a cabeça como se tivesse acusando-se a si mesmos de idiota por temerem responder algo que sabiam. Mas o que aconteceu? Por um mísero momento teria eu compreendido a lógica do que parecia incognoscível a mim? Particularmente é um mistério responder. Mas na verdade eu já havia desistido de compreender, e estava apenas interessado em acompanhar o raciocínio da professora. “Desgraçada, isto só é óbvio para você!” xingava eu por dentro intermitentemente. Mas saber responder a isto fez-me acender uma nova luz. — Ei, é coincidência demais acertar o resultado, de alguma forma sinto-me capaz de entender isto. — E de fato, para ali a diante eu fui começando a entender. Mas sobretudo fui entendendo, julgo eu, por sempre pesquisar sobre tudo em engenharia: — Porque engenharia tem tanta matemática? — digitava nos motores de busca. Assistia a alguns documentários de engenharia, cujos canais no youtube até recentemente verifiquei que ainda era inscrito. Havia uma poderosa ponte que estava sendo construída na França, esta ponte era suspensa e atravessava um vale extremamente extenso e elevado. Somente por meio da ponte seria possível ligar a estrada por ali a outra região, além disso o solo daquele local seria particularmente desafiante para o estabelecimento da estrutura. O engenheiro dizia que ela era tal como uma areia movediça, uma terra arenosa, e de outros tipos frágeis que poderiam envergar as estruturas metálicas da ponte. A solução era quase mágica, a ponte não se apoiaria sobre pilares no solo, mas por pilares aéreos ou suspensos, talvez semelhantes a uma ponte existente em São Paulo capital, mas muito, muito maior. A ponte seria colocada como peças de lego, uma após a outra a escorrer por guindastes? Não, a escorrer como locomotivas sobre trilhos; a escorrer sobre trilhos da própria ponte de forma que ultrapassando o último centímetro de trecho percorrido, ela encaixaria-se automaticamente. Lembro-me no início do documentário o engenheiro diretor da obra quase chamar de louco ao arquiteto daquele aparente elefante branco. Não era elefante branco, os planos do engenheiro e de sua equipe conseguiram criar uma solução que custou apenas alguns dias para ser concluída, sim, porque apesar das peças terem sido encaixadas como uma peça a deslizar-se sobre a outra, isto ocorria lentissimamente, se não me engano era coisa de poucos centímetros por hora, se a velocidade fosse apenas um pouco maior do que isso, geraria atrito e poderia forçar as estruturas correndo o risco de por toda a obra a perder… Mas voltando a falar sobre o trabalho: Havia ficado com uma parte muito trabalhosa do seminário; explicar sobre o funcionamento da estrutura aérea de um avião. A pontuação era alta demais e para piorar todos os meus colegas precisariam de mim. Agora já era uma questão moral, eu precisava entender realmente aquilo que iria explicar. Eu tinha dois dias para fazer isso antes da apresentação. Pesquisei na internet, lia artigos e trabalhos a respeito, nem sequer encontrava apoiadamente sobre aquilo especificamente. Eu precisaria montar uma apresentação especificando vários detalhes, reunir pontos díspares de informação e conectá-los com aquilo que eu iria apresentar. — Ai Meu Deus! — Rezava, rezava muito para Deus iluminar a minha inteligência. Chorava de desespero. Passou-se para o dia seguinte, era o último dia, os meus colegas cobravam o meu trabalho para enviar a eles e assim todos ter em mãos o que todos iriam apresentar. — Ai meu Deus, Ajude-me! — 2. Neste último dia consegui acompanhar alguns trabalhos publicados pela internet. Minha Nossa Senhora, quantas palavras técnicas! Teria que consultar o significado de cada uma para entender do que tratava-se, e de fato fui fazendo isso, e isto abria uma nova janela, e outra janela, e mais outra sucessivamente na tela do computador. Lia tudo, devorava tudo com muita rapidez. Agora é questão de vida ou morte, preciso finalizar a apresentação, mas antes eu preciso compreender isto. Interessantemente, vi vários trabalhos a explicar sobre aquilo que os meus colegas explicariam. — Como eu vou explicar a minha parte se eu nem sequer sei o que os meus colegas vão explicar? Se o meu trabalho é continuação da apresentação deles! — Foi daí que comecei a pesquisar sobre o que eles iriam explicar, e para a minha surpresa: Encontrei assuntos que eu já havia estudado antes como investigação para a minha apresentação. Através deste reencontro com aqueles assuntos e palavras técnicas repetidas que já havia dominado às pressas, eu rapidamente compreendi a parte dos demais colegas, compreendi mais do que a minha própria parte. Mas daí havia a parte final, o processo de segurança do voo dos aviões. A minha última investigação era explicar os princípios da Aerodinâmica, Aeroelasticidade e Dinâmica Estrutural. — Ai meu Deus! — 3. Estudei e completei, entreguei o que pude para os meus colegas a minha parte. O dia seguinte seria apreensivo.
Cheguei no colégio, nossa apresentação começou. Eu estava mais do que nervoso, nervosíssimo. Meus colegas começaram a apresentar-se bem. Mas um dos meus colegas, o que estava no meio de sete alunos, começou a explicar sobre o assunto e congelou-se, não sabia explicar. Todos os meus cinco outros colegas do grupo ficaram apreensivos, cutucavam-no: — Eu não sei. — dizia ele. — Mas você não estudou? — Estudei, mas eu não entendi nada. — e não queria falar mais nada, estava irritado. Para a surpresa dos meus colegas, para a surpresa dele, e para a surpresa minha, eu intervi num ímpeto por explicar o que ele não sabia: — Na engenharia os profissionais estão sempre buscando materiais que sejam mais baratos e resistentes para construção dessas máquinas. No caso da engenharia aeroespacial ou mecânica não pode-se colocar alguns tipos metálicos porque não possuem resistência elástica sobre pressão e podem envergar-se pondo o projeto a perder, por isso utilizam-se materiais que sejam mais resistentes que tais metais e ao mesmo tempo mais elásticos como a fibra de carbono… — Todos ficaram calados. Também eu calei-me depois disso. Seguiu-se a apresentação. Isto fez com que a ansiedade da minha vez acabasse, eu havia intervindo num momento que não era meu, assim como quando arrisquei responder “um” para a professora e depois disso perdi o medo do cálculo. Quando chegou à minha parte, eu comecei a explicar sobre os princípios da aerodinâmica e o funcionamento do voo. Falei da aeroelasticidade e sobre os diversos processos tecnológicos que estavam sendo desenvolvidos para a aviação que iriam substituir cada vez mais, como de fato ocorre, a inteligência humana pela dita artificial. Outra vez tive que explicar sobre a fibra de carbono, mas tive que explicar também sobre a utilização e eficiência dos cristais piezoeléctricos. Sim, eu havia lido até alguns trabalhos sobre cristais piezoeléctricos, sem os quais não seria possível muita coisa no desenvolvimento tecnológico eletrônico e da própria inteligência artificial. Após terminar de explicar sobre basicamente tudo o que havia proposto e que era obrigado, acabei falando sobre o processo dinâmico do voo e o efeito de flutter. — Vocês sabem o que é Efeito de Flutter? — perguntei eu. — Não. — responderam. Então comecei a explicar sobre o Efeito de Flutter, algo que eu havia lido naquela madrugada e que antes disso chorava por não entender. — Efeito de Flutter, um avião não pode ter uma única brecha por onde a pressão aérea penetre sua estrutura, caso contrário, não queira estar dentro deste avião, você não estaria aqui para assistir a essa aula. Isto implodiria o avião por dentro. — muito resumidamente, expliquei isto com palavras um pouco mais técnicas como típico de quem entende ou deveria entender sobre um assunto. Mas eu não parei, continuei a explicar sobre outras coisas relacionadas a fim de que todos entendessem e então, recebo um beliscão da minha colega ao lado: — Thiarles, já tá bom. — E eu continuei porque julgava importante. Outra vez um beliscão. — Thiarles! — Então finalizei — E tudo isto é feito com ´calculos matemáticos que devem ser precisos, não podendo haver erro algum! — finalmente, eu entendi o porque estudar matemática na engenharia! E de quebra ajudei os meus colegas a entenderem isto também. Para comprovar a minha quase súbita evolução, a professora fez a avaliação de cada um do grupo, parabenizou a todos, gostou da apresentação de todos. Mas quando chegou a minha vez, ela disse: — Thiarles! O que é isto? Você me surpreendeu muito. Eu estou embasbacada com a tua apresentação. Você mostrou completo domínio sobre o assunto, mostrou que tem afinidade total com este trabalho. Estou muito orgulhosa da tua apresentação. Fez tudo com muita tranquilidade e serenidade. — E todos os colegas também juntaram-se a ela e aplaudiram a minha apresentação. O meu grupo ficou muito orgulhoso do meu desempenho. O que eles não sabiam era que por dentro não havia deixado de tremer nenhum segundo.
A apresentação deste trabalho no final do primeiro semestre foi como um bálsamo sobre a minha inteligência. De alguém que chegou perdido sobre os estudos, finalmente tomei posse da minha capacidade de aprender algo, e a partir daí não mais desacreditei-me nisto. Tudo deve começar com a seguinte pergunta: O que é isto ou aquilo? E foi assim que eu aprendi. Um analfabeto funcional não admite que não sabe algo e recusa-se a perguntar sobre o que seja aquilo, ele orgulhosamente acha que compreende só de ouvi falar. Mas quando depara-se com a obrigação real de aplicar e demonstrar o seu conhecimento, ele não conseguirá, e dirá besteiras. Eu havia começado a estudar engenharia sem sequer saber o que era engenharia, o que seria de mim se não tivesse dificuldade matemática e não reconhecesse que precisava aprender? Certamente que eu haveria de tornar-me num engenheiro. Mesmo entendendo matemática, seria um analfabeto da minha própria profissão, e um mísero erro de cálculo, poderia colocar a vida de muitas pessoas em risco. As vezes este erro pode ser apenas de um pequeno aumento de velocidade… O que fez eu querer saber sobre algo foi propor a pergunta certa, o que é aquilo que eu devo aprender? Sabendo, pergunte o porquê eu devo aprender. E depois pergunte-se, onde eu devo aprender, com quem, quando? Lembro-me que não deixei de ser um analfabeto funcional a partir daí, apenas percebi que eu não poderia estar numa universidade, o suprassumo da vida intelectual, sem compreender as razões intrínsecas de eu estar ali. Por isso eu larguei a faculdade, no momento que eu mais compreendi e aprendi, e até ensinei, foi quando a deixei pelo reconhecimento de que esta jornada é muito árdua para eu querer segui-la assim, sem preparo e sem fundamentos intelectuais. A jornada de um analfabeto funcional só estava começando…



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