Elon Musk, Alexandre de Moraes e a estupidez dos conservadores brasileiros: A Revolução das Matrioscas
- Thiarles Sosi
- 9 de abr. de 2024
- 10 min de leitura

Elon Musk, Alexandre de Moraes e a estupidez dos conservadores brasileiros: A Revolução das Matrioscas
São Paulo, 8 de Janeiro de 2024;
Demens dementis! Nas Oitavas desta Páscoa (2024), eis que nos surge um fato curioso e icônico da típica demência brasileira: na classe de pseudo movimento político-cultural autodenominado conservador1, há uma nova pauta midiática afervorada pelos seus adeptos, como enxame de abelha, para promover a absurda ideia de eleger Elon Musk como salvador do Brasil. Tal ideia é demente, embora esteja sendo ressuscitada de tempos em tempos em torno da figura esquisitoide de Musk, que parece ter sido eleita pelos brasileiros como sua desafortunada libertadora. No fundo de tal pensamento, esconde-se vários absurdos que estão ligados a vários fenômenos psicológicos e sociológicos, frutos da doença nacional brasileira contemporânea, a saber:
Carência de liderança; o que faz com que os conservadores brasileiros, tipo sociológico contemporâneo mais expressivo, se apeguem ao menor sinal de “bravura” ou despeito de autoridades que desgostam, como é o caso de Moraes. Não é de hoje que os conservadores brasileiros estão tentando recrutar Elon Musk como um herói salva-pátria externo para o problema dos “cerceamentos da liberdade de expressão”. Tal pensamento é até antagônico para a suposta ideologia conservadora, que aparamente é contra o poderio globalista ou monopolizador global (do qual Elon Musk faz parte e é dos maiores protagonistas!). Tal fenômeno é semelhante a um jovem inseguro que se alia a uma das gangues de seu bairro porque tem medo da outra, sem se ater que ambas disputam pela hegemonia da favela.
Inconfessada idolatria ao sucesso econômico; poucos conservadores admitirão esta verdade, se é que algum admitirá, mas, no fundo, a excessiva e gratuita eleição de Elon Musk como possível libertador da democracia no Brasil, advém de uma curiosa tristeza que têm os conservadores brasileiros, porque queriam que os globalistas fossem na verdade “conservadores”, para que assim, eles pudessem amá-los sem reservas por seus gênios. Trata-se de uma idolatria contida, porque admira e inveja o sucesso econômico dos poderosos detentores das grandes fortunas, e de como eles acenderam. Este fenômeno, invejoso, a princípio, torna-se uma admiração tal como a de um homem contido que inveja o promíscuo, ou pior ainda, de um homem que admira o promíscuo por ser promíscuo, e assim, eles curiosamente se admiram de Musk porque ele é globalista e exerce o seu poder como tal, com a liberdade que um poderoso exerce sobre seu império.
Síndrome de Vira-lata; como brasileiro é uma criatura que normalmente se sente envergonhada por ser brasileiro, ou coisas relacionadas ao Brasil, tende a ver qualquer ação, ainda que ela mesma desprovida de qualquer altruísmo, relacionada a seus problemas, como um bálsamo de condoimento e compaixão, que lhe faz aderir ao seu senhor, tal um cão, mesmo rejeitado e xingado por seu dono, o lambe e o tem por bom, por auto-hipnose.
Histeria Coletiva; Desde que os conservadores brasileiros perderam a guerra política em 2022, e perderam todos os meios de obter vitória, mergulharam numa espiral de histeria que se alimenta a si mesma. Uma vez que um grupo elege uma pauta, imediatamente emana para toda a classe de propagadores midiáticos a mesma ideia, como uma coordenada difícil de precisar, e aquilo se torna realidade latente e indiscutível. É um fenômeno notável, quase místico, se não fosse fruto da histeria coletiva, e que, portanto, já perdeu o senso de racionalidade, e entra no automatismo, é quase uma máquina de propaganda que funciona por si. Percebe-se na propagação dessas ideias exatamente as mesmas nuances de pensamento e sentimento, o que corrobora para olhos externos a ideia de uma articulação avassaladora. Seria cômico se não fosse trágico2.
Não dá para explicitar em pormenores neste artigo cada um desses fenômenos psicológicos e sociológicos, contudo, é nosso dever apresentá-lo às mentes ainda sãs deste país que podem se perder no marasmo de delírio brasileiro atual.
É importante destacar que um metacapitalista, na cunhagem olaviana3, é alguém que ultrapassou o fenômeno do Mercado e está acima dele, paira numa ordem que este lhe é submisso, cria-se um tipo de monopólio especial porque está acima do poder financeiro, e, portanto, das mudanças econômicas. Em suma, um metacapitalista não depende mais do mercado, embora não lhe seja alheio, contudo, por estar e agir acima do mercado, está livre de tais ameaças (econômicas), e, por consequência, políticas. Elon Musk não tem medo de Moraes, simples assim.
Sabendo disso, e tendo isso por pressuposto (desde um ponto de vista supostamente conservador, ou seja, alguém que se diz conservador e que defende ideias conservadoras), um conservador político deveria temer que um metacapitalista intervenha e queira “comprar briga” ou “brincar de queda de braço” com um estado político oligárquico como o brasileiro, onde as leis podem ser feitas ao sabor do vento hodierno, e que neste caso, sopra da SpaceX.
Por consequência direta, a briga comprada entre Elon Musk e Moraes não significa absolutamente nada para o Brasil em termos de ganhos de direitos; é uma fantasia ridícula, criada pela mídia conservadora (leia-se youtubers), propagada pela mídia oficial. O que ocorrerá, como efeito direto desta “briga”, é que o Estado Brasileiro encrudescerá as leis de acesso a dados e internet, por causa do fanatismo incabível dos conservadores brasileiros, Moraes ganhará mais autoridade para exercer seu poder sobre o controle de opinião, e para piorar, uma parte importante do sentimento patriótico (de respeito às leis) será capitaneada pelo Governo e por seu Partido contra o poder tecnocrata estrangeiro!4 Ou seja, o que eles pretendiam conseguir (absurdamente), com a eleição de Musk como possível libertador do Brasil, é exatamente o contrário que obterão.
Ao contrário do que alguns analistas supuseram, Elon Musk não está acima do Estado, e nem comprará uma luta contra um estado político para “libertar” uma população de sua “tirania”; porque o poder do dinheiro não é maior que o das armas. Alguns trazem o exemplo da Starlink na Ucrânia, oferecendo internet para o país, como um desafio a Vladimir Putin, e que seria um ato de bravura notável, mas, em verdade, ele não comprou briga nem com Putin, e nem salvou a Ucrânia, pois o efeito da guerra russa sobre a Ucrânia é a desestruturalização do seu estado político, e isto, Musk não tem condições de reverter. A guerra russo-ucraniana pouco ameaça o seu poder econômico efetivo; o mesmo ocorre com o Brasil, sua briga com Moraes não representa perigo para ele. Provável, Elon Musk sentiu-se incomodado com uma autoridade brasileira oligarca querendo fazer valer uma autoridade sobre o terreno dele, e como globalista que é, e oligarca por pressuposto, sentiu-se apenas incomodado.
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Alguns poderiam nos perguntar por qual razão os conservadores brasileiros que se dizem contra o megamonopólio e contra os globalistas possuem este “relapso” ideológico de exceção? Acima dos fenômenos já mencionados (carência de líderes, idolatria contida às grandes fortunas, espírito de vira-lata, histeria coletiva), há o paradoxo da defesa da economia liberal, tentando purgá-la das ideologias sociais que a fomenta. O fenômeno globalista só é possível numa economia liberal, e o fato dele exercer um tipo de poder sobre um país tendente ao socialismo como o Brasil não é mais do que manifestação direta e clara deste fenômeno óbvio, a saber: o socialismo é um poder naturalmente submisso ao globalismo, e é por isso que órgãos econômicos do mundo inteiro querem implantar o comunismo global. Seria bastante interessante se ao vermos a briga entre Moraes e Musk, vessemos ao saltitar dos olhos como o poder das duas camadas globais estão interconectadas.
Se nos fosse reservado um espaço, demonstraríamos com maior clareza como globalismo, liberalismo e comunismo é apenas uma boneca-russa, uma matriosca em que os conservadores brasileiros abrem sem nunca encontrar a última, esquecendo-se do nome da anterior! Demens dementis!
Mas todo esse fenômeno denunciado não seria possível, se o movimento político-cultural que se associa a tal nome fosse composto por uma classe real de intelectuais e não propagadores midiáticos palpiteiros. Historicamente, no Brasil sempre houve esta emanação estapafúrdia de paradoxos políticos; sujeitos que aderem a bandeiras que eles mesmos são contra se soubessem o que significam, e assim temos comunistas de ideias conservadoras, católicos maçons, conservadores liberais, liberais conservadores, liberais comunistas, católicos protestantes e protestantes católicos. Enfim, infinitas possibilidades antagônicas. Já vi, iconicamente, pais que levavam seus filhos para passear, com camisas e aderentes adornados com a bandeira LGBT! Será que sabiam do que estavam fazendo? Talvez não, se não, é porque foram influenciados pela propaganda, levados ao “Maria vai com as outras”; se sim, são antagônicos pais de família que estão doutrinando seus filhos a destruir a sua futura! Demens dementis!
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Deveríamos pôr algumas questões à mesa; partindo do pressuposto de que Elon Musk adotou a bandeira conservadora brasileira e pretende libertar o Brasil do jugo do atual Partido, o que concretamente ele pode fazer agora? Nada, exceto se, e somente se, ele retém para si um poder de cunho político a nível internacional. Se ele o tiver, ele faz parte do poder que deseja combater, se não, ele não pode fazer mais do que fazer valer sua autoridade no âmbito de seus investimentos.
Ultimamente, nos últimos anos, mas sobretudo nos últimos meses, Elon Musk está cada vez mais estudando os movimentos políticos nos países e seus conflitos internos, ou externos. Deu sensíveis e tímidas insinuações sobre a Guerra Palestina-Israel, apontando os abusos que Israel vem fazendo contra Gaza, bem como se referindo ao racismo judeu contra os brancos, enfim, atitudes atacadas como antissemitas, e a luta contra o antissemitismo é uma das bandeiras mais caras aos conservadores pró-anglossaxonistas5. Assim, Musk transita entre apoio massivo da esquerda num momento, e da direita noutro, tudo conforme a tomada de suas decisões que parecem confusas a olhos leigos. Quem pode acompanhar a evolução da tomada de decisões políticas, pode pressupor que Musk executa uma estratégia de marketing a nível mundial, de apoio e conversações fora de sua alçada econômica no âmbito dos conflitos para atrair uma popularidade, mais que econômica, mas que não deixa de respingar nela6. Mas como os conservadores brasileiros sofrem de um tipo de demência ideológica, e esquecem a associação e encadeamento lógico das relações ambíguas, fazem histeria coletiva7. Mas tais observações não serão levadas em conta, e antes serão dialeticamente atacadas pelos demais, se tiveram oportunidade de lê-las8. Assim, a entrada de Musk ao Brasil é uma forma de fazer a causa brasileira ganhar o mundo, e o mundo se unir em torno do Brasil para a libertação dos povos, sendo Musk o antessignano da liberdade mundial! Demens Dementis! Parece exagero de nossa parte? Tudo isso é retirado apenas das análises e afirmações cheias de emoção e esperança que quase nos arranca lágrimas dos olhos, e pena, pela carência conservadora brasileira ser tão abissal que se apega a essas miudezas, confissões de uma impotência temerária ante o mundo para resolver os entraves de sua democracia.
Moraes é apenas um liberal, sua mentalidade é liberal, suas ações e sua doutrina é liberal, e executa planos liberais para o Brasil, mas a olhos externos, parece colaborar com o atual governo, em verdade, é o atual governo que colabora com ele. Musk é outro liberal, com mentalidade liberal, ações e doutrina liberais, e seu choque contra Moraes é justamente na concreção de ideias liberais. A “luta”, que é, em verdade, alfinetadas leves, entre esses dois, nos indica a tomada de estratégia por Musk, e este só está tentando ver a viabilidade de suas ideias. Quais sejam? Não sei, seria julgamento afirmar quais seriam, embora haja várias hipóteses, contudo, o que importa? O importante é que Musk representa a esperança para a libertação dos brasileiros e dos povos do mundo em torno da liberdade, contra a elite globalista!
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O fenômeno do medo por parte das vítimas lhes provoca a ideia de unanimidade e esperança equivocada a leves símbolos, sobretudo quando as mesmas vítimas se reúnem na mesma ideia, e alimentam-se umas às outras. Tal fenômeno faz parte da histeria e seu mecanismo pode coexistir por si numa comunidade do medo. No Brasil, o que mais se vê é este fenômeno se multiplicar na Esquerda e na Direita, obviamente que o encrudescimento deste fenômeno em última instância provocará uma guerra civil. Já houve desde 2018 ao menos duas fortes ameaças de explodir uma guerra civil no Brasil, e agora, se prepara rapidamente uma terceira que espera um estopim9. Diante de tal quadro, podemos supor que o próprio encrudescimento das liberdades individuais, bem como a inviabilidade da classe dos conservadores brasileiros, ser estopim para a luta do povo contra o estamento burocrático, mas não ao modo como eles mesmos pensam ao tentar atrair os olhos do mundo para o pais, num ato de desespero e apego a figuras erradas. Com isto, sequer estamos dizendo que a ideia de Musk apoiar os conservadores brasileiros (se este for realmente o caso) é ruim, apenas imprudente e histeria completa atribui-lo uma salvaguarda nacional contra o estamento.
1As bases desse movimento são tão fracas que impedem de ter uma organicidade, ela é fruto mais do medo histérico que domina. Praticamente não há nada no discurso deste movimento que não provenha de importação de países anglo-saxônicos.
2É verdade que uma parte importante para essa propagação uníssona de uma opinião é a vontade de atrair o público engajado, leia-se público manipulado, e abocanhar uma parte dos ganhos daquela tendência fictícia, quer em dinheiro, quer em número de seguidores. O problema é que tal ideia se impregna na cabeça das pessoas comuns que não tem capacidade de discernimento. Sequer avaliamos se a “briga” entre Musk e Moraes possuem justificativas morais para se apoiar uma delas. Mas a proliferação nefasta do discurso midiático nos levou a compor tal análise.
3Olaviana, isto é, doutrina sociológica de Olavo de Carvalho, 1947-2022, filósofo brasileiro que deixou vastos estudos sobre o fenômeno globalista e revolucionário, no Brasil e no Mundo.
4Curiosamente, foi o oposto na Pandemia de Covid19, quem bem lembra, e nós nos lembramos muito bem, o atual Governo e o seu Partido apoiou a Tecnocracia Global no seu intento de criar o Lockdown, Great Reset, e a Campanha pró-OMS e poder global da OMS, do qual, se bem me lembro, Musk estava junto e não se levantou contra nenhum de seus pares ou ações.
5Um exemplo de paradoxo, antissemita a um tempo, sionista noutro tempo, apoiado pela esquerda, ou pela direita, ou atacado por ambos.
6Com isso não dizemos que faz por essa intenção, mas é a consequência direta disto. Por alguma razão, os conservadores do Brasil, e alguns do mundo, adotaram Musk como antessignano da liberdade mundial, a ele que é um tecnocrata que comprou o Twitter não pela liberdade de expressão de todos, mas pela liberdade de expressão dele, o que pode ser tratado como mero orgulho e vaidade!
7O fenômeno da Histeria Coletiva precisa ser melhor aprofundado, embora algo dele já tenha sido estudado por Olavo de Carvalho, e pelo trabalho do autor deste artigo no ensaio “O Homem Perante o Estado”.
8Há inclusive muitos analistas conservadores brasileiros que conhecem cada uma dessas observações que fazemos aqui sobre Musk e sobre os metacapitalistas, mas, ainda assim, eles não se importam, dizem que não há importância e que não é para tanto, rebaixando assim nossas análises ao cunho delas serem histéricas e as deles mais que sensatas, óbvias. Ou se trata de vigarice da parte deles, ou de um lapso cognitivo notável (encadeado por aqueles quatro fenômenos que apresentamos no começo do artigo, ou desconhecem as relações de poder dos personagens em questão e sus intenções, e as consequências dessas intenções. De qualquer forma, apresentam incapacidade de conjunturas para a questão que se propõem discutir.
9Há várias possibilidades para esse estopim, e todas elas são ameaças contundentes e eminentes, contudo, é imprevisível saber que uma delas estourará, e mais sensato é supor que mais de uma se fará presente.



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