A Guerra entre Terra e Água: A disputa das duas “bestas” apocalípticas

A Guerra entre Terra e Água: A disputa das duas “bestas” apocalípticas
Na linguagem bíblica tradicional, água representa o caos, as nações, o mundo primordial, as entranhas da vida social em disputa e mutação contínua. Já a terra, representa a religião, a ordem, a civilização estabelecida, uma hierarquia da perenidade, a solidez das gerações. Por isso, ao longo da história, nações selvagens sempre estiveram relacionadas ao mar, os estrangeiros que vêm do mar, e a Terra, os civilizados das cidades, ou os corações simples dos aldeões, ali viventes século após século. Os fenícios eram o povo do mar, os gregos também, já os israelenses eram povo da terra, os persas, povo da terra. É interessante notar que há profecias contra Tiro, a capital do mar, a esta, a justiça cai implacável, e por outro lado temo Nínive, a capital da terra, cidade que recebe misericórdia. O povo do mar não faz penitência, e o povo da terra o faz, se veste de cinza e pó, homens e animais penitenciam-se diante de Deus, já os povos do mar, tomam os navios soberbos e singram os mares como se fosse deuses, e o seu rei se sente como um deus encarnado. O resultado é que os fenícios são destruídos com o terror do juízo, e a cidade da terra é perdoada. A diferença entre ambas está em detalhes importantes: ambas têm um rei, mas não do mesmo modo, o rei de Tiro, o rei do mar, é um comerciante, e o rei de Nínive, o rei da terra, é um rei do povo e dos animais, é um rei de todo o mundo visível, ele governa homens, animais e propriedades, tem poder para obrigar a todos a fazer penitência, como vai seu coração, vai seu povo; já o rei de Tiro não, ele é apenas ele, ele é a soberba, ele é o modus operandi, ele mesmo não consegue sair disto, ele é uma peça solta, um navio a mais em seu próprio exército. A cidade do mar precisa ser destruída, e a cidade da terra pode ser perdoada.
Quer um outro exemplo? Cartago, a cidade do mar, é destruída pelos romanos, e a cidade da Terra, Roma, a cidade religiosa, é convertida em cidade dos cristãos. A primeira representava o caos das águas, não foi perdoada, foi destruída, e a segunda foi perdoada, foi transfigurada para ser a cidade da religião, porque já era a cidade da religião, a cidade da ordem, a cidade onde havia um rei, e este rei era seu coração.
Por que falamos disso? Qual a importância desse curioso conhecimento para nós hoje? Porque é basicamente o cerne da disputa entre duas nações: Estados Unidos e Rússia, ambas são nações opostas, a primeira é uma nação das águas, a segunda é uma nação da terra. Mas essa definição não foi eu quem a dei, e sim os próprios teóricos de ambas nações modernas. Se é verdade ou não esta sobreposição conceitual, o que importa é que ela está no cerne das disputas geopolíticas, é o seu fundo cultural, e se não compreendemos isto, não somos capazes de compreender os fatos futuros.
Uma característica fundamental das nações da água é que elas são descentralizadas em seu poder, e não possuem rei, e se há um rei, este rei é um navio a mais em seu exército. Do mesmo modo, não dá para falar do poder dos Estados Unidos sem falarmos dos quantos reis que não são reis naquele país, entre eles o Federal Reserve, esta instituição que comanda o poder econômico é um dos poderes, uma das cabeças da “besta” das águas, que não pode ser derrotada facilmente, é um leviatã que domina todas as pessoas do mundo, pobres ou ricas, ela é capaz de ditar o poder futuro, porque detém o poder do dinheiro, o poder financeiro, que por sua vez domina o poder econômico, quem quer que dispute com ela, tropeçará, e se combatê-la, esfacelará, será devorado pelo seu “rio vomitado”. O poder das águas são impetuosas e violentas, destrutivas, mas o poder da terra é ordenador, e mesmo quando há um terremoto, este declara apenas uma ordem: reconstrua tudo.
A disputa entre as duas nações mais poderosas do mundo, a primeira na ordem das águas, no poder do dinheiro, a segunda, no poder da terra, destruir para reconstruir, é basicamente o cerne simbólico das atuais guerras pelo mundo. Basicamente a Guerra entre Estados Unidos-Israel contra Irã significa uma disputa entre águas e terra, pois o primeiro bloco judaico-ocidental não quer reconstruir Irã, quer destruí-lo, por qual finalidade? Apenas destruir, para ver o que se pode sobrar depois. E usam para isto de armas do mar: poder financeiro, econômico, militar (Mas este sustentado pelo poder financeiro, já que o governo dos Estados Unidos, de Donald Trump, o rei que não é rei, mas um navio a mais em seu próprio exército, ordenou o aumento explosivo do orçamento militar dos EUA com base na financeirização do seu poder militar, já bastante dependente do financiamento)1. Temos aí um exemplo evidente, o poder militar assim dirigido pelo poder financeiro, representa aquele rio vomitado contra a mulher. Por outro lado, temos o Irã, país da terra, uma teocracia moderna, dura e ordenadora em seus próprios argumentos, disputa com o eixo EUA-Israel um fundamento religioso e cosmológico. É uma terra entremeada de montes antigos, só pode ser abalada por terremotos. As armas do Irã hoje são o domínio sobre o Estreito de Ormuz, o que curiosamente é hoje a espinha dorsal da economia e da lomoção planetária, capaz de abalar a estrutura econômica e financeira do mundo. O petróleo, embora no fundo do mar, é um poder da terra, é um poder oculto nas entranhas da terra, e só um poder econômico avassalador consegue extraí-lo das profundezas e torná-lo um produto. Porém hoje ele sequer é um produto real da economia real, e sim um poder fictício, o petrodólar, para sustentar a financeirização global. A guerra entre EUA-Irã enfatiza a fragilidade e dependência financeira do mundo ao sistema criado pelos Estados Unidos, e que, inevitavelmente, levará ao colapso das nações que deste sistema depende. O poder dos Estados Unidos, e esta estratégia sistêmica adotada por ele na financeirização da economia, só funcionará, ou resistirá, até o ponto em que a própria financeirização é possível, o que significa, que estamos chegando no limite desta resistência. O poder das águas é bastante elástico, é bastante enganador, pela agitação das águas, mas quanto maior a onda, maior o estrago, e o que restará depois é menos do que se podia pensar.
Então, se pensa que os EUA hoje possuem uma estratégia para vencer as guerras as quais ela se envolve, está enganado, a disputa tornou-se emocional e “pagar para ver” há muito tempo, basicamente desde o início da Guerra russo-ucraniana. Esta guerra também é um outro caso a ser demonstrado: a Rússia quer “destruir” partes da Ucrânia para reconstruí-la segundo a sua macrovisão eurasiana de ordem mundial, já os EUA, entraram para ajudar a Ucrânia, e junto com ele os demais países do Ocidente, com a finalidade repudiante de deixar que a Ucrânia seja destruída, e o que sobrar, a gente levanta depois. Ou seja, a visão de ambos os bloco são muito diferentes na abordagem da guerra. Outro exemplo marcante e trágico: a guerra de Gaza, tornou-se apenas numa guerra de destruição de Gaza, coisa que já era sabido por todos os políticos do Ocidente, mas que foi ignorado até que a destruição de Gaza tornou-se irrefutável, em todas as suas estruturas sociais e políticas. Israel iniciou uma guerra a qual não tinha intenção de parar, e a desculpa de combate ao terrorismo tornou-se argumento de guerra justa, quando se vê na verdade que não há plano algum de reestruturação de uma Gaza livre de excessos de “Amigos e Inimigos SA”.
Se alguém pensa que a guerra está próxima de acabar, está enganado, pois ela apenas inicia-se com a abordagem perigosa de poderes financeiro, econômico, tecnológico, militar e midiático, cinco cabeças de um monstro apocalíptico prestes a devorar o mundo inteiro.
1Este aumento orçamentário expressivo visa a perpetuação desesperada de uma velha estratégia de guerra que perdura desde a Segunda Guerra Mundial, onde a indústria de guerra faz-se parte da própria guerra, e ela mesma, como necessitada de lucro, a guerra tornou-se num fim em vez de meio para se conquistar um objetivo.



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